A série The Boys, produzida pelo Prime Video, consolidou-se como uma das adaptações mais impactantes da cultura pop, utilizando o material de origem de Garth Ennis como ponto de partida para uma narrativa própria. Embora mantenha o humor ácido e a sátira social, a produção televisiva tomou liberdades criativas significativas, retrabalhando personagens, alterando destinos e expandindo o universo com elementos inéditos. Com o encerramento da trama principal na quinta temporada, as divergências entre a obra original e a adaptação tornaram-se ainda mais evidentes, moldando um desfecho distinto para a luta contra os super-heróis corruptos.
É importante ressaltar que listar todas as alterações seria uma tarefa exaustiva, dada a complexidade de ambas as mídias. No entanto, é possível analisar as mudanças mais profundas que definiram o tom da série e a evolução dos personagens. Seja pela abordagem de Homelander, o destino de figuras centrais ou a construção de mundo, a adaptação do Prime Video trilhou um caminho que prioriza o desenvolvimento dramático em detrimento do choque gratuito presente nos quadrinhos.
O uso do Composto V pelos integrantes do grupo

Uma das mudanças mais fundamentais diz respeito à própria natureza dos protagonistas. Na série, Billy Butcher, Mother’s Milk, Frenchie e Hughie formam uma equipe de operações secretas da CIA que, inicialmente, não possui superpoderes. Eles dependem de inteligência, tática e do auxílio de aliados como Starlight e Kimiko para enfrentar ameaças que, de outra forma, seriam invencíveis. Essa dinâmica de azarões é central para a tensão da narrativa televisiva.
Nos quadrinhos, a realidade é oposta: todos os membros do grupo possuem o Composto V em seus sistemas desde o início da história, o que lhes permite enfrentar os integrantes do The Seven em pé de igualdade física. Apenas Hughie começa como um humano comum, sendo injetado com a substância por Butcher posteriormente. Na série, o uso de poderes pelos protagonistas é limitado e, muitas vezes, temporário, como visto com o Temp-V, reforçando a vulnerabilidade do grupo.
A aparência e o arco de Hughie Campbell

O Hughie interpretado por Jack Quaid é apresentado como um jovem comum em busca de vingança pela morte de sua namorada, Robin, causada por A-Train. Visualmente, a série faz uma homenagem aos quadrinhos ao escalar Simon Pegg para interpretar o pai de Hughie, já que o personagem original foi desenhado com base nas feições do ator. Contudo, a trajetória do personagem na tela é marcada por escolhas morais distintas.
Enquanto na série o conflito com A-Train se estende por cinco temporadas, culminando em um perdão, nos quadrinhos a vingança é implacável. Hughie mata o velocista como retribuição tanto pela morte de Robin quanto pelo abuso sexual sofrido por Starlight. Na adaptação, a primeira morte de um super-herói pelas mãos de Hughie é a de Translucent, um personagem criado exclusivamente para a série, o que altera drasticamente o início de sua jornada.
O desenvolvimento de Ryan Butcher

A introdução de Ryan Butcher, filho de Becca e Homelander, é um dos pilares da série. Como o único super-herói nascido naturalmente, ele representa uma ameaça real ao poder de seu pai. A série dedica tempo considerável ao desenvolvimento de Ryan, tornando-o uma peça-chave na derrota de Homelander, honrando a memória de sua mãe. Essa construção de personagem é um contraste direto com o material original.
Nos quadrinhos, o nascimento de Ryan é um evento traumático e breve. Logo após nascer, o bebê ataca Billy Butcher, forçando-o a matá-lo com um abajur. A série opta por abandonar esse nível de violência gratuita em favor de um arco narrativo que explora a humanidade e o potencial destrutivo do jovem, algo que se alinha com a proposta de The Boys assume liderança no streaming durante temporada final.
O destino de Becca Butcher

A sobrevivência de Becca Butcher é uma das maiores divergências da adaptação. Nos quadrinhos, ela morre logo após o parto, e sua morte é o catalisador absoluto para o ódio de Butcher contra os super-heróis. Na série, a Vought, sob a gestão de Madelyn Stillwell, esconde Becca e seu filho para manter o controle sobre Homelander. Essa mudança permite que a série explore a relação entre Butcher e sua esposa, tornando sua eventual morte na segunda temporada um momento de impacto emocional muito mais profundo para o protagonista.
O desastre do voo 37

O incidente com o voo 37 é um ponto de virada na série, servindo para demonstrar a negligência e a crueldade de Homelander. Ele utiliza a tragédia que ele mesmo causou para promover a contratação de super-heróis pelo exército. Nos quadrinhos, o evento é uma referência direta aos ataques de 11 de setembro, onde o The Seven tenta interceptar um avião, mas falha miseravelmente, resultando na queda da aeronave na ponte do Brooklyn. A Vought, em ambos os casos, trabalha para encobrir a incompetência de seus ativos.
A ausência do Universo Cinematográfico da Vought

Enquanto os quadrinhos parodiam os arquétipos clássicos da Marvel e DC, a série, produzida após a ascensão do MCU, foca sua sátira na cultura dos grandes estúdios e franquias cinematográficas. A Vought produz filmes sobre a origem de seus heróis, com piadas sobre o Snyder Cut e o modelo de negócios de Hollywood. Isso permite que a série comente diretamente sobre a indústria do entretenimento atual, diferenciando-se da sátira de quadrinhos dos anos 2000 presente na obra de Ennis.
Novos super-heróis e a expansão do universo

A série introduziu dezenas de personagens que não existem nos quadrinhos, como Translucent, Mesmer e Ezekiel. Além disso, o spin-off Gen V expandiu esse universo com novos heróis, como Marie Moreau. Até mesmo Ashley Barrett, uma figura central na administração da Vought, é uma criação original da série, demonstrando como a adaptação construiu um ecossistema próprio para sustentar sua narrativa de longo prazo.
Madelyn Stillwell e a liderança da Vought

Nos quadrinhos, o superior do The Seven é James Stillwell, um executivo sociopata e desprovido de emoções. A série substitui essa figura por dois personagens distintos: Madelyn Stillwell e Stan Edgar. Madelyn é retratada como mais humana e vulnerável, mantendo uma relação complexa e estranha com Homelander, que a utiliza para controlar o herói. Sua morte pelas mãos de Homelander é um marco que define a instabilidade do líder do The Seven.
O arco de The Deep

O The Deep da série é um personagem patético e deplorável, cujos abusos contra Starlight desencadeiam sua queda em desgraça. Em contraste, nos quadrinhos, o personagem é o membro mais maduro e sensato do The Seven, sendo o único a sobreviver até o final da história. A série transforma o herói em um símbolo da hipocrisia e da busca fracassada por redenção, distanciando-se completamente da versão original.
A evolução de Kimiko

Por fim, a transformação de The Female em Kimiko é talvez a melhor mudança da adaptação. Nos quadrinhos, ela é uma máquina de matar silenciosa sem um arco de personagem claro. Na série, ela é uma ex-criança soldado, vítima dos experimentos da Vought, que encontra em Frenchie não apenas um tradutor, mas um parceiro romântico. A performance de Karen Fukuhara confere à personagem uma humanidade e uma importância narrativa que a tornam um dos destaques da produção, consolidando o sucesso da série como uma obra que, embora baseada em quadrinhos, possui identidade própria e um impacto cultural duradouro.
Fonte: ScreenRant