O renomado diretor de fotografia Linus Sandgren, conhecido por sua abordagem meticulosa e sensível à luz e à composição, defende com firmeza que a escolha do formato de filmagem em qualquer projeto cinematográfico deve ser, invariavelmente, ditada pelas necessidades narrativas e pela visão artística do diretor. Em seu trabalho mais recente na aguardada adaptação de Wuthering Heights, dirigida pela cineasta Emerald Fennell, Sandgren tomou a decisão estratégica de utilizar o formato VistaVision. O objetivo central dessa escolha foi garantir uma qualidade visual impressionante, mantendo intacta a textura orgânica e o caráter clássico do cinema capturado em película, um elemento que ele considera vital para a atmosfera da obra.

A filosofia técnica por trás do VistaVision
Diferente de muitas produções contemporâneas de grande orçamento que buscam a escala massiva e a nitidez extrema do formato IMAX, a visão artística de Emerald Fennell para este romance de época — que traz Margot Robbie e Jacob Elordi nos papéis centrais — exigia uma abordagem distinta, mais próxima do impressionismo visual. Linus Sandgren esclarece que o VistaVision foi selecionado especificamente para as sequências que exploram as vastas paisagens dos Yorkshire Moors, bem como para os interiores amplos e detalhados. O formato oferece uma resolução excepcionalmente alta, permitindo que a grandiosidade dos cenários seja capturada sem que isso sacrifique o grão característico e a suavidade do filme de 35 mm, algo que Sandgren valoriza profundamente.

Segundo o experiente cinematógrafo, o processo de decisão não foi imediato. Testes preliminares foram realizados com o formato de 65 mm, mas o resultado não entregou a textura específica que a equipe buscava para a narrativa. Por outro lado, o 35 mm padrão foi mantido como a base para a maior parte da obra, garantindo a consistência visual. O VistaVision, portanto, atuou como um componente de equilíbrio, permitindo capturar detalhes minuciosos em cenas externas e de grande escala, assegurando uma continuidade estética fluida e harmoniosa com o restante do longa-metragem.
O debate sobre o formato IMAX
A discussão sobre formatos de filmagem é recorrente na carreira de Sandgren. Tendo utilizado câmeras IMAX em projetos de grande envergadura, como Dune: Part Three, o profissional possui uma visão crítica e pragmática sobre a tecnologia. Ele ressalta que o IMAX, embora visualmente impactante, apresenta limitações técnicas significativas, especialmente no que diz respeito ao ruído mecânico das câmeras e ao peso excessivo dos equipamentos, o que pode dificultar a agilidade no set. Sandgren tem colaborado ativamente com a equipe da IMAX para aprimorar esses sistemas, focando em torná-los mais silenciosos para cenas de diálogo, embora admita que, em muitos casos, o uso de blimps — dispositivos de isolamento acústico — ainda seja uma necessidade técnica incontornável.
Para o diretor de fotografia, o IMAX é uma ferramenta extremamente poderosa e adequada para épicos de grande escala, mas ele enfatiza que não deve ser encarado como uma solução universal para todos os tipos de narrativa. A decisão de qual formato utilizar deve permanecer estritamente atrelada ao roteiro e às necessidades específicas de cada cena, evitando que pressões de marketing ou tendências de mercado ditem as escolhas criativas da produção. A integridade artística, para Sandgren, reside na capacidade de escolher a ferramenta certa para o momento certo.
Compromisso com a película e o futuro do cinema
Mesmo diante da crescente pressão dos estúdios por alternativas digitais, que muitas vezes são percebidas como mais baratas e eficientes, Sandgren reforça seu compromisso inabalável com o uso da película. Ele argumenta que, com um planejamento rigoroso e uma gestão de produção eficiente, é perfeitamente possível viabilizar produções de alto nível em filme sem comprometer o orçamento total do projeto. O formato VistaVision, que tem ganhado destaque recente em obras aclamadas como The Brutalist, serve como um lembrete da importância de ferramentas que ofereçam nitidez, profundidade artística e uma qualidade tátil que o digital, por vezes, luta para emular.

Para os entusiastas e profissionais do cinema, a discussão sobre formatos de filmagem é essencial para compreender a evolução técnica do setor. Assim como em outros projetos de suspense e drama, como War Machine, a escolha da lente, do suporte de gravação e da iluminação define a imersão do público na história. Sandgren acredita que o público, mesmo que inconscientemente, percebe a diferença na qualidade da imagem e na textura do filme, o que contribui para uma experiência cinematográfica mais rica e memorável. Ao optar pelo VistaVision em Wuthering Heights, a equipe não apenas honra a tradição do cinema, mas também eleva o padrão visual da adaptação, garantindo que a obra se destaque em um cenário saturado de produções digitais.
A colaboração entre Sandgren e Fennell demonstra que a tecnologia, quando aplicada com propósito, torna-se uma extensão da narrativa. A escolha do VistaVision não foi apenas uma decisão técnica, mas uma escolha estética que reflete a alma da história de Wuthering Heights. Ao priorizar a qualidade da imagem e a textura, a equipe de produção reafirma que o cinema, em sua forma mais pura, continua sendo uma arte que depende da luz, da película e da visão de seus criadores. O futuro do cinema, segundo a perspectiva de Sandgren, depende dessa busca constante pelo equilíbrio entre a inovação técnica e a preservação das qualidades que tornam a experiência de assistir a um filme na tela grande algo verdadeiramente inigualável.
Em última análise, a trajetória de Sandgren em Wuthering Heights serve como um estudo de caso sobre como a cinematografia pode influenciar a percepção do espectador. Ao evitar atalhos e investir em formatos que exigem maior esforço técnico, a produção se posiciona como um marco na carreira de todos os envolvidos. O uso do VistaVision, portanto, não é apenas um detalhe técnico para especialistas, mas a espinha dorsal de uma estética que promete transportar o público para o mundo tempestuoso e emocional criado por Emily Brontë, agora reimaginado através das lentes de uma das duplas mais criativas da atualidade.
Fonte: THR