A ficção científica vive um momento de ouro na televisão contemporânea. Produções ambiciosas como Severance, andor, The Expanse, Dark, For All Mankind, Stranger Things e Black Mirror dominam as conversas nas redes sociais, ocupam o topo das listas de críticos e recebem o reconhecimento merecido em premiações. No entanto, existe um fenômeno curioso e frustrante: como é possível que uma série mantenha uma base de fãs dedicada, conquiste prêmios prestigiados como o BAFTA e sobreviva por cinco temporadas, apenas para desaparecer completamente da memória coletiva? É como se, de repente, o público decidisse arquivar essas obras na pasta de “coisas que eu gostava antigamente” e seguisse em frente, deixando para trás mundos construídos com maestria e atuações brilhantes.
O gênero de ficção científica é vasto, e existe um patamar de produções que acertaram em todos os quesitos — ritmo, desenvolvimento de personagens e construção de universo — mas que, por algum motivo, acabaram caindo pelas frestas da história. O objetivo deste artigo é justamente resgatar essas pérolas. Algumas podem não ser tecnicamente “subestimadas” por um nicho fiel, mas quando foi a última vez que você ouviu alguém discutir seriamente o legado de Torchwood ou a complexidade de 12 Monkeys? O esquecimento é uma injustiça que vamos tentar corrigir agora, revisitando oito séries que definiram o padrão de qualidade do gênero.
1. Warehouse 13 (2009 – 2014)

A premissa de Warehouse 13 pode parecer simples à primeira vista: dois agentes do Serviço Secreto são realocados para um armazém vasto e secreto localizado em Dakota do Sul, encarregados de catalogar e conter artefatos perigosos que representam ameaças sobrenaturais à história humana. Sempre que algo escapa, eles precisam recuperar o objeto, reiniciando o ciclo. No entanto, reduzir a série a essa mecânica seria um erro. Warehouse 13 é, acima de tudo, uma produção leve, divertida e surpreendentemente emocional. A química entre os protagonistas, interpretados por Eddie McClintock e Joanne Kelly, é algo que muitas séries procedurais tentam emular por anos sem sucesso. Além disso, a série utiliza o formato de “busca por artefatos” como um mecanismo inteligente para explorar temas profundos como luto, raiva e vidas interrompidas precocemente. Saul Rubinek, no papel de Artie, carrega o peso sentimental da trama, enquanto Allison Scagliotti, como Claudia, entrega uma das atuações coadjuvantes mais subestimadas da televisão. Com cinco temporadas e um Saturn Award na estante, é inaceitável que a série tenha sido relegada ao esquecimento.
2. Red Dwarf (1988 – Presente)

Red Dwarf é um fenômeno de longevidade. Em exibição desde 1988, a série é frequentemente tratada fora do Reino Unido como uma relíquia de nicho, quando, na verdade, é uma das sitcoms mais inventivas já produzidas. Situada três milhões de anos no futuro, a trama gira em torno do último humano vivo, acompanhado por um holograma de seu falecido colega de quarto, um ser humanoide que evoluiu a partir de seu gato de estimação e um robô com um doutorado em ansiedade aplicada. As primeiras seis temporadas, escritas por Rob Grant e Doug Naylor, são um milagre criativo. Os roteiristas conseguiram fundir conceitos complexos como loops temporais e experimentos de consciência com diálogos filosóficos e humor ácido. O episódio “Back to Reality”, da quinta temporada, possui um impacto emocional que supera muitos dramas sérios. Com 13 temporadas, a série permanece viva e afiada, sendo um crime cultural que ela não seja mais discutida no cenário global.
3. Counterpart (2017 – 2019)
Em Counterpart, J.K. Simmons entrega uma performance dupla magistral. Ele interpreta duas versões de Howard Silk: um burocrata humilde da ONU e um operativo de inteligência frio e calculista. Eles estão separados por dimensões paralelas e por trinta anos de escolhas divergentes. A série é um thriller de ficção científica disfarçado de um drama de espionagem lento e tenso, reminiscentes da Guerra Fria. Cada episódio é construído com uma precisão cirúrgica, onde a linha entre as realidades se torna cada vez mais tênue. Após duas temporadas no canal Starz, a série simplesmente desapareceu, deixando um vazio para quem aprecia tramas de espionagem que exigem atenção total do espectador.
4. Farscape (1999 – 2003)

Farscape narra a odisseia de um astronauta perdido em uma nave alienígena, lutando para sobreviver em um canto desconhecido do universo. A série é famosa por sua colaboração com a The Jim Henson Company, o que garantiu efeitos práticos e criaturas animatrônicas que conferem uma presença física e uma textura única aos personagens alienígenas, algo que o CGI moderno raramente consegue replicar. A jornada de John Crichton, interpretado por Ben Browder, é acompanhada pelo arco de desenvolvimento de Aeryn Sun, vivida por Claudia Black, que se destaca como um dos arcos de personagem mais bem construídos e orgânicos de toda a ficção científica televisiva.
5. Space: Above and Beyond (1995 – 1996)

Criada por Glen Morgan e James Wong, Space: Above and Beyond foca em um esquadrão de pilotos de elite em meio a uma guerra brutal contra uma espécie alienígena. A série foi pioneira em abordar os horrores do combate espacial com um realismo cru e uma visão moralmente ambígua sobre o serviço militar. Embora tenha sido cancelada precocemente após apenas uma temporada, a produção deixou um legado duradouro como um drama de guerra que não tinha medo de sacrificar seus personagens ou questionar a ética de seus líderes, influenciando diversas obras que vieram na década seguinte.
6. Torchwood (2006 – 2011)
Como um spin-off de Doctor Who, Torchwood tomou um caminho distinto, adotando um tom muito mais maduro, sombrio e, por vezes, perturbador. A série explorou as consequências diretas de viver em um mundo onde alienígenas são uma ameaça constante. A minissérie Children of Earth é frequentemente citada como o ponto alto da produção, apresentando uma narrativa densa, sem concessões e emocionalmente devastadora. O destaque vai para a atuação de Peter Capaldi, que entregou uma performance memorável, consolidando a série como um dos experimentos mais corajosos do universo expandido de Doctor Who.
7. The 100 (2014 – 2020)

Embora tenha iniciado sua trajetória como um drama adolescente na rede The CW, The 100 passou por uma transformação radical ao longo de suas sete temporadas. A série evoluiu de uma premissa de sobrevivência pós-apocalíptica para uma exploração complexa e, muitas vezes, brutal sobre ética, liderança e o custo da moralidade em cenários extremos. A performance de Eliza Taylor como Clarke Griffin é o pilar que sustenta a série, questionando constantemente até onde alguém deve ir para salvar seu povo. A série não tem medo de tomar decisões difíceis, tornando-se uma reflexão necessária sobre a natureza humana sob pressão.
8. 12 Monkeys (2015 – 2018)

Baseada no filme de Terry Gilliam, a série 12 Monkeys, exibida pelo canal Syfy, expandiu o conceito de viagem no tempo em uma saga épica de quatro temporadas. Diferente de muitas produções que se perdem em suas próprias regras temporais, esta série se destaca por um roteiro intrincado, porém extremamente coeso, que consegue amarrar todos os seus mistérios de forma satisfatória no final. Com atuações marcantes, como a de Emily Hampshire, a obra se consolidou como uma das melhores produções de ficção científica da década de 2010, merecendo ser redescoberta por qualquer fã que valorize uma narrativa bem planejada do início ao fim. O fato de ter conseguido manter a qualidade e o foco narrativo durante toda a sua execução é um feito raro que merece ser celebrado.
Em última análise, essas oito séries representam o que há de melhor no gênero: a capacidade de nos transportar para mundos distantes enquanto nos fazem refletir sobre a nossa própria realidade. Seja através da comédia satírica de Red Dwarf, da tensão política de Counterpart ou da jornada emocional de Warehouse 13, todas elas possuem algo valioso a oferecer. É hora de tirar essas produções do esquecimento e dar a elas o lugar de destaque que merecem na história da televisão.
Fonte: Movieweb