Winnipeg, Seeds of Hope narra a histórica viagem de refugiados

O longa de animação, que compete no Festival de Annecy, resgata a história real do navio fretado por Pablo Neruda para salvar refugiados da Guerra Civil Espanhola.

O longa-metragem de animação Winnipeg, Seeds of Hope, uma coprodução entre Espanha, Chile e Argentina, foi selecionado para competir na prestigiada seção Contrechamp do Annecy Animation Film Festival. O evento, que ocorre entre 21 e 27 de junho na cidade alpina francesa, destaca produções que exploram novas linguagens narrativas e temas de relevância social. A obra é dirigida por Beñat Beitia Urresti, conhecido por Mummy, I’m a Zombie, e Elio Quiroga, cineasta por trás de Fotos e The Mystery of the King of Kinema, sendo baseada na graphic novel de Laura Marte.

A trama acompanha a jornada de Víctor e sua filha, Julia, que fogem da Espanha após a queda de Barcelona para as forças do general Franco, em janeiro de 1939. Após escaparem para a França, pai e filha acabam confinados em um campo de concentração. A única esperança de sobrevivência surge com o Winnipeg, um navio de carga fretado pelo poeta chileno e vencedor do Prêmio Nobel, Pablo Neruda, e pela artista Delia del Carril. A embarcação foi organizada para oferecer aos sobreviventes da guerra a oportunidade de recomeçar a vida em Valparaíso, no Chile.

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Winnipeg, Seeds of Hope
Winnipeg, Seeds of Hope narra a histórica viagem de refugiados.

Resgate histórico e o papel de figuras culturais

Segundo Marco Urizzi, da MMM, responsável pelas vendas internacionais do filme, a obra traz à tona uma história real que permaneceu esquecida por décadas. O longa entrelaça a trajetória de Pablo Neruda com a de inúmeros homens e mulheres forçados a abandonar sua terra natal. O elenco de vozes conta com nomes de peso do cinema chileno, como Alfredo Castro, Paulina Garcia e Luis Gnecco. A dedicação desses artistas reflete o impacto cultural que a história do navio ainda exerce no Chile, onde é celebrada como um feito heroico de solidariedade.

O codiretor Beñat Beitia Urresti destacou em entrevista que, enquanto na Espanha a história foi silenciada pelo medo e pela dor, no Chile ela é amplamente reconhecida. O filme busca homenagear não apenas Neruda, mas também Delia del Carril, figura central na organização da viagem, e Salvador Allende, que, na época como Ministro da Saúde, apoiou a recepção dos refugiados em nome do presidente Pedro Aguirre Cerda. Assim como vemos em produções que exploram memórias complexas, como o sucesso de Flowers in the Attic vira sucesso de audiência na Netflix, o filme evita simplificações ao tratar de temas traumáticos.

Paralelos com crises humanitárias contemporâneas

Embora ambientado em 1939, o filme aborda questões que ressoam profundamente nos dias atuais. Beitia Urresti aponta que, apesar das mudanças nos contextos políticos e geográficos, o medo, a incerteza e a busca pela dignidade permanecem constantes. O cineasta menciona a crise dos centros de deportação e a perseguição a imigrantes como reflexos de uma realidade que o filme convida a confrontar. A obra não pretende criar paralelos simplistas, mas sim lembrar que, por trás de qualquer fenômeno migratório, existem problemas fundamentais que exigem atenção.

A produção, que conta com o envolvimento de estúdios como Dibulitoon Studio, El Otro Film, La Ballesta e Malabar Producciones, posiciona-se como um exercício de memória. Para o diretor, a história do Winnipeg representa um dos maiores exemplos de solidariedade do século XX. Em um cenário onde o cinema busca novas formas de engajamento, como visto em projetos onde Colman Domingo assume direção em The Four Seasons na Netflix, a animação se destaca pela sua carga emocional e compromisso com a verdade histórica. O filme reforça que, diante da barbárie, a solidariedade continua sendo uma das formas mais dignas de resistência humana.

Fonte: Variety

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