As Ilhas Canárias, arquipélago espanhol conhecido por suas paisagens naturais, estão se posicionando como a nova fronteira para a produção de documentários de alcance global. Durante o evento Sunny Side of the Doc, representantes locais destacaram uma combinação estratégica de incentivos fiscais agressivos, locações diversificadas e um catálogo crescente de histórias locais com potencial de universalidade para atrair produtoras internacionais.
A iniciativa faz parte de um esforço de 17 anos para diversificar a economia regional, que historicamente dependeu do turismo, integrando-a ao setor de produção audiovisual. Segundo Pablo Hernández, presidente da Canary Islands Special Zone (ZEC), o arquipélago funciona como uma verdadeira mina de ouro de narrativas ainda inexploradas. O objetivo é que produtoras se estabeleçam na região não apenas para filmar, mas para gerenciar a propriedade intelectual de projetos desde a sua concepção.
Leia tambem: Curry Barker fecha novo contrato com Universal e Blumhouse
Crescimento do setor e incentivos fiscais
O setor de não-ficção nas ilhas vive um momento de maturação acelerada. Se há poucos anos a maioria dos projetos contava com orçamentos modestos, hoje é comum encontrar produções que alcançam a casa dos milhões de euros, com distribuição em plataformas como HBO, Amazon Prime Video, Movistar+, ESPN e Disney+. Pilar Guerrero, da Videoreport Canarias, aponta que a indústria experimentou um crescimento exponencial nos últimos cinco anos.
O atrativo financeiro é um dos pilares dessa expansão. O pacote de incentivos inclui um rebate que varia entre 45% e 54%, além de uma taxa corporativa de apenas 4%, o que, segundo Hernández, pode aumentar os lucros das produtoras em até 40%. Para ele, os documentários são organicamente mais eficientes, entregando resultados de alta qualidade com orçamentos mais enxutos do que as produções de ficção tradicionais.
Diversidade de gêneros e histórias locais
O portfólio que as Ilhas Canárias apresentam ao mercado global é vasto e abrange gêneros que despertam interesse internacional. Na área de história, a série Insulae: Crónica de nuestra historia, da Las Hormigas Negras, busca reinterpretar o papel do arquipélago na história do Atlântico. Já no campo da natureza e ciência, produções como The Last Volcano, sobre a erupção em La Palma em 2021, demonstram a capacidade técnica da região em registrar eventos de grande impacto.
O esporte também ganha destaque através da Wakai, selo da WAP Media Group, responsável pelo documentário Dream, Play, Win, sobre o time feminino do FC Barcelona, que obteve distribuição mundial. O gênero de crimes reais também está em desenvolvimento, com projetos como The Sensei’s Web, que aborda um dos maiores escândalos de abuso sexual da Europa. A diversidade temática é um reflexo de uma indústria que busca equilibrar a identidade local com as exigências das cadeias globais de valor.
Infraestrutura e desafios futuros
Apesar do otimismo, o setor reconhece que ainda enfrenta desafios. Produtores apontam que a falta de uma infraestrutura industrial consistente e a percepção de que as ilhas são apenas um cenário de filmagem, e não um polo de criação editorial, são obstáculos a serem superados. Além disso, o acesso aos incentivos fiscais ainda é visto como um desafio para muitos produtores independentes, conforme ressaltado pelo festival DOCanarias.
Para mitigar essas questões, o arquipélago tem investido na formação de talentos locais. A produtora Buendía Estudios, por exemplo, estabeleceu parcerias com escolas técnicas para mentorar estudantes em produções reais, fortalecendo a mão de obra em áreas como cinematografia, som e pós-produção. Esse movimento de capacitação é essencial para garantir que o crescimento do setor seja sustentável a longo prazo.
O futuro da produção documental nas Ilhas Canárias parece promissor, especialmente considerando a base científica robusta da região, que inclui centros de astrofísica e estações da NASA. Essas instituições oferecem um vasto material para narrativas que vão além do entretenimento, podendo resultar em obras de relevância histórica e científica. Enquanto o mercado de tecnologia audiovisual lida com debates sobre o uso de ferramentas automatizadas, como visto em discussões recentes sobre o uso de IA em festivais, as Ilhas Canárias apostam na autenticidade de suas histórias para se consolidar como um hub de produção de prestígio internacional.
Fonte: Variety