The Meltdown explora mistérios e segredos no Chile pós-ditadura

O novo longa de Manuela Martelli acompanha uma criança em um hotel isolado nos Andes, onde o desaparecimento de uma hóspede revela tensões políticas.

O filme The Meltdown (ou El Deshielo) inicia sua narrativa com uma sequência de imagens de arquivo que capturam um evento peculiar: um gigantesco bloco de gelo antártico sendo içado de águas gélidas. Este fragmento de geleira, destinado a ser a peça central do pavilhão chileno na Feira Mundial de 1992, em Sevilha, serve como uma metáfora poderosa para o momento histórico do país. Após 17 anos sob o regime militar de Augusto Pinochet, o Chile buscava se reinventar perante o mundo, e o transporte desse gelo simbolizava uma engenhosidade nacional que, embora inusitada, representava um salto de fé necessário para uma nação em busca de uma nova identidade. Esse cenário de transição é o ponto de partida perfeito para a diretora e roteirista Manuela Martelli, que constrói uma história onde verdades submersas emergem brevemente, apenas para serem novamente ocultadas.

The Meltdown film still Les Films du Losange Ronda Cine
The Meltdown film still Les Films du Losange Ronda Cine

Após o sucesso de seu longa de estreia, 1976 (também conhecido como Chile ’76), que foi selecionado para a Quinzena dos Realizadores em 2022 e explorava o período da ditadura, Martelli retorna com uma obra ambientada apenas dois anos após o fim do regime. A protagonista, Inés, é uma menina de nove anos nascida nos anos finais da ditadura. Com uma alma madura e um olhar atento, ela observa os adultos ao seu redor moldando suas ações e discursos para se adaptarem a um mundo em constante transformação. Para Inés, a lição mais valiosa que ela aprende é que a verdade é menos importante do que a capacidade de prever como os outros reagirão a ela. Ela descobre que, em um ambiente de incertezas, o silêncio e a discrição são ferramentas de sobrevivência.

A trama se desenrola em um hotel de montanha nos Andes, um estabelecimento datado e rigorosamente operado, localizado próximo a uma estação de esqui. Enquanto seus pais estão na Espanha, integrando a delegação chilena responsável pela entrega do iceberg na Expo ’92, Inés desfruta de uma liberdade incomum para sua idade. Ela circula pelo hotel como uma observadora silenciosa, interagindo com os avós, Techa e Ricardo, que estão ocupados em entreter investidores em potencial. A menina transita entre os funcionários, como a recepcionista Sonia, o barman Genaro e a camareira Paty, a quem ela recorre quando a solidão da noite se torna insuportável, desafiando as ordens da avó.

A curiosidade de Inés é despertada por uma hóspede específica: Hanna, uma jovem esquiadora alemã cerca de cinco anos mais velha que ela. Hanna é a estrela de sua equipe de treinamento, mas sua motivação parece estar em declínio, o que gera frustração em seu treinador, Alexander. A relação entre Hanna e Alexander é retratada como complexa e perturbadora, com o roteiro sugerindo tensões que vão além do esporte. Inés, movida por uma necessidade de conexão, aproxima-se da adolescente com um presente feito à mão. Apesar da diferença de idade, as duas criam um vínculo baseado na solidão compartilhada de estarem longe de seus pais, utilizando o inglês como língua franca. Hanna revela detalhes sobre sua vida, incluindo sua relação conturbada com a mãe, uma ex-campeã de patinação da Alemanha Oriental — um país que, como ela mesma descreve, “não existe mais”.

O contexto da reunificação alemã, que ocorreu pouco tempo após a queda de Pinochet, serve como um espelho para as mudanças que Inés observa no Chile. A performance de Maya O’Rourke é fundamental para o sucesso do filme; ela interpreta Inés com uma vigilância precocemente madura, evitando qualquer traço de ingenuidade infantil. A menina torna-se uma espécie de detetive amadora, movendo-se pelos corredores do hotel e observando as dinâmicas de poder entre os adultos. A atmosfera do filme é descrita como assombrada e inquietante, capturando a essência de um período onde o passado ainda exercia uma influência pesada sobre o presente.

A produção, que teve sua exibição no Festival de Cannes, na mostra Un Certain Regard, destaca-se pela construção de um suspense que não depende de grandes explosões, mas sim do desconforto psicológico. O elenco, que inclui nomes como Saskia Rosendahl, Maia Rae Domagala, Jakub Gierszal, Paulina Urrutia e Mauricio Pešutić, entrega atuações que sustentam a tensão narrativa. Com uma duração de 1 hora e 48 minutos, o filme de Martelli é um estudo sobre o amadurecimento em um ambiente onde a transparência é um luxo que poucos podem se permitir. A diretora utiliza o isolamento geográfico dos Andes para isolar também as emoções de seus personagens, forçando-os a confrontar segredos que, assim como o iceberg do início do filme, correm o risco de derreter e desaparecer se não forem devidamente protegidos.

Em última análise, The Meltdown é uma obra que reflete sobre a natureza da verdade em tempos de mudança política. Ao focar na perspectiva de uma criança, Martelli consegue expor as hipocrisias e as estratégias de adaptação dos adultos, que tentam manter uma fachada de normalidade enquanto o mundo ao redor deles se reconfigura. A habilidade da diretora em equilibrar o mistério pessoal de Inés com as implicações históricas mais amplas consolida o filme como uma peça essencial para compreender o cinema chileno contemporâneo, que continua a investigar as feridas e as transformações de sua própria história recente.

Fonte: THR