SAG-AFTRA aprova contrato de quatro anos com regras para IA

Os membros do SAG-AFTRA ratificaram um novo contrato de quatro anos com os principais estúdios de Hollywood. O acordo, que define os rumos da indústria para o próximo ciclo, inclui novas diretrizes sobre o uso de atores.

Os membros do SAG-AFTRA ratificaram um novo contrato de quatro anos com os principais estúdios de Hollywood. O acordo, que define os rumos da indústria para o próximo ciclo, inclui novas diretrizes sobre o uso de atores sintéticos e a fusão dos dois fundos de pensão do sindicato.

A votação contou com a participação de 19,3% dos membros elegíveis. Do total de votos computados, 91,4% foram favoráveis à proposta, enquanto 8,6% dos votantes se posicionaram contra o novo termo contratual.

Regras para uso de inteligência artificial

SAG-AFTRA em cena relacionada a Regras para uso de inteligência artificial
SAG-AFTRA em cena relacionada a Regras para uso de inteligência artificial. Crédito: RSSPRIME Superfeed via RSSPRIME Superfeed.

O contrato estabelece que os produtores só poderão utilizar atores gerados por inteligência artificial caso a tecnologia traga um valor adicional significativo em comparação a um ator real ou ao avatar digital de um intérprete. O SAG-AFTRA argumenta que essa redação, combinada com uma cláusula de arbitragem, limitará o uso de réplicas digitais a casos específicos e excepcionais.

Em entrevista realizada no mês passado, Sean Astin, presidente do sindicato, afirmou que a organização se sente confiante com o resultado. Segundo ele, o que foi alcançado coloca a categoria na vanguarda do que qualquer indústria busca conquistar em termos de proteção profissional.

Duncan Crabtree-Ireland, diretor executivo do sindicato, reforçou em comunicado oficial que o acordo expande as conquistas obtidas durante a greve dos atores de 2023. Naquele período, foi estabelecido que réplicas digitais só poderiam ser utilizadas com consentimento e pagamento. O novo contrato melhora os termos de resíduos e visa garantir que as tecnologias sintéticas permaneçam como exceção, e não como regra, no mercado audiovisual.

O executivo destacou que o acordo posiciona os membros para moldar o futuro do negócio, protegendo o valor da performance humana e da criatividade. A discussão sobre o impacto da tecnologia no setor é um tema recorrente, como visto em debates sobre como o Taormina Film Festival busca festival humano contra avanço da IA.

Críticas e preocupações internas

Apesar da aprovação, vozes dentro do sindicato alertam que os estúdios terão poucas restrições reais para utilizar atores sintéticos. Críticos do acordo argumentam que seriam necessárias limitações mais rígidas. Embora o sindicato tenha garantido o direito de ser notificado e a oportunidade de negociar caso os estúdios comecem a implementar atores sintéticos, a categoria não poderá convocar greve sobre este tema específico até 2030.

Outro ponto de debate é a duração do contrato. Alguns membros questionaram a decisão de firmar um termo de quatro anos, em vez do período habitual de três. A AMPTP (Alliance of Motion Picture and Television Producers) priorizou um período mais longo de paz laboral em todas as negociações deste ciclo, buscando evitar a repetição das paralisações que marcaram o ano de 2023.

Fusão dos fundos de pensão

A diretoria nacional do sindicato votou favoravelmente ao acordo com 89% de aprovação, embora tenha havido objeções pontuais quanto à fusão do SAG-Producers Pension Plan com o AFTRA Retirement Fund. Os fundos operavam de forma separada desde a fusão dos dois sindicatos, ocorrida há 14 anos, devido a receios de participantes do SAG sobre um possível resgate do plano do AFTRA.

O contrato prevê uma contribuição adicional de 1% por parte dos estúdios para os planos de pensão combinados. Líderes sindicais sustentam que o arranjo deixará os participantes de ambos os planos em uma situação financeira superior. Peter Antico, ex-candidato a secretário-tesoureiro, liderou a oposição à fusão, classificando a medida como uma receita para o desastre em publicações recentes.

Preocupações similares foram levantadas em 2017, durante a fusão dos planos de saúde do SAG e do AFTRA, que foi seguida por uma redução significativa nos benefícios anos depois. A liderança sindical argumenta que os cenários são distintos e que as projeções atuariais indicam a estabilidade do plano fundido a longo prazo.

Posicionamento dos estúdios

Seguindo o protocolo, a AMPTP parabenizou o SAG-AFTRA pela ratificação. Em nota, o grupo de estúdios afirmou que o acordo entrega melhorias significativas em salários, benefícios de saúde e pensão, resíduos de streaming e proteções aos artistas.

A organização destacou que a liderança do sindicato demonstrou compromisso com a parceria. Segundo a AMPTP, junto com o acordo do WGA, esses contratos demonstram o que é possível alcançar quando a indústria trabalha em prol de soluções práticas que suportem a estabilidade a longo prazo. O grupo afirmou que pretende construir sobre esse momento de estabilidade.

Enquanto isso, a AMPTP mantém negociações com o Directors Guild of America, cujo contrato tem vencimento previsto para 30 de junho. As questões centrais dessa negociação envolvem empregos, inteligência artificial e assistência médica, temas que continuam a pautar as discussões sobre o futuro da produção audiovisual, similar ao que ocorre em produções como NCIS que confirma mudanças no elenco para a 24ª temporada.

O impacto histórico da estabilidade laboral

A ratificação deste contrato marca um ponto de virada significativo para Hollywood após o ano de 2023, que foi definido por uma paralisia sem precedentes. A indústria cinematográfica e televisiva, que ainda tenta se recuperar dos prejuízos financeiros e logísticos causados pelas greves conjuntas do SAG-AFTRA e do WGA, vê neste acordo de quatro anos uma tentativa de normalização. Para o mercado brasileiro, que consome grande parte dessas produções via plataformas de streaming, a estabilidade é vista com cautela. A garantia de que não haverá novas paralisações de grande escala até 2030 oferece aos estúdios a segurança necessária para planejar calendários de lançamento a longo prazo, algo que tem sido volátil desde o início da pandemia.

A evolução da tecnologia e o mercado brasileiro

Embora o contrato limite o uso de inteligência artificial, o debate sobre a “performance humana” ressoa fortemente no Brasil, um país com uma indústria de dublagem e atuação extremamente robusta. A preocupação de que avatares digitais possam substituir talentos locais em versões dubladas ou em produções regionais é uma pauta constante entre sindicatos de artistas brasileiros. O precedente aberto pelo SAG-AFTRA serve como um termômetro para as negociações coletivas que ocorrerão em outros países, onde a legislação trabalhista pode ser mais ou menos protetiva do que a dos Estados Unidos. O monitoramento dessas cláusulas de arbitragem será essencial para entender como a tecnologia será integrada sem desvalorizar o trabalho artístico local.

Contexto das negociações e o futuro das produções

A decisão de fundir os fundos de pensão, embora controversa internamente, reflete uma necessidade de consolidação financeira diante de um modelo de negócios que mudou drasticamente com a ascensão do streaming. A receita dos estúdios, antes baseada em bilheteria e licenciamento de TV, agora depende de assinaturas, o que torna a gestão de resíduos e benefícios de aposentadoria mais complexa. A contribuição adicional de 1% dos estúdios é uma vitória tática para o sindicato, mas analistas do mercado financeiro de entretenimento observam que o custo operacional das produções continuará subindo, o que pode impactar o orçamento de futuras séries e filmes.

Disponibilidade e impacto no consumo

Para o público brasileiro, o impacto imediato deste contrato não é visível na tela, mas sim na continuidade dos conteúdos. Com a garantia de paz laboral, produções que estavam em compasso de espera ou com cronogramas incertos devem retomar o ritmo normal. A expectativa é que o fluxo de lançamentos em serviços como Netflix, Disney+, Max e Prime Video se estabilize, evitando os “buracos” na grade de programação que foram sentidos pelos espectadores brasileiros durante os meses de greve. A indústria agora se volta para o desafio de equilibrar a inovação tecnológica com a preservação da identidade cultural dos elencos, um tema que continuará sendo central em todas as futuras renovações contratuais de Hollywood.

Fonte: Variety