The Last One for the Road domina o David di Donatello 2026

O longa de Francesco Sossai conquista oito estatuetas na premiação italiana, consolidando-se como o grande destaque da edição deste ano.

O cenário cinematográfico italiano viveu uma noite de consagração e reflexão durante a entrega do David di Donatello Awards, a mais prestigiada premiação da indústria audiovisual do país. O grande protagonista da edição de 2026 foi o longa-metragem “The Last One for the Road”, dirigido por Francesco Sossai. O filme, que teve sua trajetória iniciada com sucesso na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, dominou a cerimônia ao conquistar oito estatuetas, estabelecendo-se como a obra mais celebrada do ano pelo júri especializado.

The Last One for the Road
The Last One for the Road
lazyload fallback

Uma narrativa de encontros e desencontros

A trama de “The Last One for the Road” é descrita como um drama peculiar que explora as nuances da marginalidade e da amizade. O enredo acompanha dois homens na casa dos cinquenta anos, ambos vivendo em condições financeiras precárias e envolvidos em pequenos delitos, cujas vidas tomam um novo rumo ao cruzarem o caminho de um tímido estudante de arquitetura. A partir desse encontro, o trio embarca em uma jornada caótica e transformadora pelas planícies da região do Vêneto. A força da narrativa, que equilibra o tom cômico com o peso dramático, foi reconhecida pela Academia Italiana, que premiou o filme nas categorias de melhor filme, direção, ator, edição, roteiro, produção, elenco e canção original.

Ao subir ao palco para receber o prêmio máximo da noite, o diretor Francesco Sossai aproveitou o momento para compartilhar uma reflexão sobre o processo criativo e a resiliência necessária para fazer cinema. “Liberdade significa ser destemido”, declarou o cineasta, encerrando seu discurso com um brinde descontraído, que ecoou o espírito da obra. A vitória de Sossai não apenas valida sua visão artística, mas também marca a ascensão de um nome que já havia chamado a atenção da crítica internacional em Cannes.

O impacto da premiação no mercado internacional

A relevância de “The Last One for the Road” ultrapassa as fronteiras da Itália. O filme iniciou sua jornada comercial nos Estados Unidos no dia 1º de maio de 2026, com exibições estratégicas no Lincoln Center e no IFC Center, em Nova York. A expectativa da distribuidora Music Box Films é que o sucesso no David di Donatello impulsione a expansão do longa para outras cidades norte-americanas, consolidando a presença do cinema italiano no mercado global.

Tensões políticas e o futuro do financiamento

Apesar da celebração artística, a edição de 2026 do David di Donatello foi permeada por um clima de insatisfação política. A comunidade cinematográfica italiana manifestou, ao longo dos meses que antecederam o evento, uma profunda indignação contra o governo. O motivo central do descontentamento foi a interrupção, por quase dois anos, do fluxo de financiamento público e dos incentivos fiscais destinados à produção local, o que colocou diversos projetos em risco de paralisação. Embora uma proposta de boicote à premiação tenha circulado nos bastidores como forma de protesto, a classe artística optou por comparecer ao evento, utilizando a visibilidade da cerimônia para cobrar soluções definitivas.

Os números revelam a gravidade da situação enfrentada pelo setor. O governo italiano reduziu drasticamente o orçamento disponível para o cinema: de um total de 700 milhões de euros (aproximadamente 822 milhões de dólares) em 2025, o montante caiu para 610 milhões de euros (716 milhões de dólares) em 2026. A previsão para 2027 é ainda mais preocupante, com o valor fixado em 500 milhões de euros (585 milhões de dólares). Essa redução progressiva tem gerado debates acalorados sobre a sustentabilidade da indústria cultural italiana diante das prioridades orçamentárias do atual governo.

Resiliência e novos talentos

Em meio às incertezas financeiras, o mercado de exibição na Itália oferece um contraponto otimista. Dados recentes indicam que o público tem retornado às salas de cinema com maior frequência. Nos primeiros quatro meses de 2026, as admissões cresceram 18,9% em comparação ao mesmo período de 2025, um sinal de que, apesar das dificuldades na produção, o interesse do espectador pelo cinema local permanece sólido.

A premiação também reservou espaço para novos talentos e outras produções de destaque. O prêmio de melhor primeiro trabalho foi entregue a Margherita Spampinato pelo filme “Gioia Mia” (“Sweetheart”). A obra narra a história de Nico, um menino perspicaz criado em uma família conectada à tecnologia, que é forçado a passar o verão em uma cidade litorânea na Sicília sob os cuidados de sua tia idosa, uma mulher rabugenta e profundamente religiosa. A atriz Aurora Quattrocchi, que dá vida à Zia Gela, foi reconhecida com o prêmio de melhor atriz por sua atuação marcante no filme.

Outro destaque da noite foi o longa “The Tasters”, dirigido por Silvio Soldini. O filme, que reconstrói a história real das mulheres recrutadas para atuar como provadoras de comida de Adolf Hitler, foi amplamente premiado. Além de levar o troféu de melhor roteiro — assinado por uma equipe composta por Doriana Leondeff, Silvio Soldini, Lucio Ricca, Cristina Comencini, Giulia Calenda e Ilaria Macchia —, a produção também conquistou o Youth David, prêmio concedido por um júri formado por estudantes, e o prêmio de melhor maquiagem. A diversidade de temas abordados pelos vencedores deste ano demonstra a vitalidade do cinema italiano, que continua a explorar tanto dramas contemporâneos quanto reconstruções históricas complexas, mantendo sua relevância cultural mesmo sob pressão econômica.

A cerimônia também confirmou o prestígio internacional de produções estrangeiras, com o David de melhor filme internacional sendo entregue a “One Battle After Another”, de Paul Thomas Anderson. Ao final da noite, o sentimento que predominava entre os profissionais presentes era de uma mistura de orgulho pelas conquistas alcançadas e vigilância constante em relação às políticas públicas que moldarão o futuro do cinema no país. O sucesso de “The Last One for the Road” serviu como um lembrete poderoso de que, mesmo em tempos de escassez e incerteza, a criatividade italiana encontra meios de florescer e conquistar o reconhecimento que merece.

Fonte: Variety