Após um período em que os dramas de época pareciam ter perdido o fôlego no cenário televisivo global, o gênero vive um momento de revitalização notável. Com o sucesso estrondoso de produções como “Wuthering Heights”, a aguardada adaptação de “Pride and Prejudice” pela Netflix e a força contínua de “Bridgerton”, o público demonstra um apetite renovado por narrativas que exploram o passado com uma lente contemporânea. É neste contexto de abundância de corpetes e dramas sociais que surge “The Other Bennet Sister”, série limitada que estreou no dia 6 de maio na BritBox, após sua exibição inicial pela BBC no Reino Unido e na Irlanda.


Baseada no romance homônimo de Janice Hadlow, a série propõe um exercício de perspectiva fascinante: retirar o foco de Lizzie Bennet, a protagonista clássica, e colocá-lo sobre Mary Bennet, a irmã frequentemente descrita como a menos carismática e mais desajeitada da família. A trama acompanha a trajetória de Mary em sua tentativa de emergir da sombra de suas irmãs, buscando seu próprio lugar em um mundo que parece não ter sido desenhado para ela. A escolha de Ella Bruccoleri, conhecida por seu trabalho em “Call the Midwife”, para dar vida à protagonista, confere à personagem uma vulnerabilidade e uma estranheza que fogem dos padrões tradicionais das heroínas de época.
A visão estratégica de Jane Tranter
Por trás da produção está Jane Tranter, fundadora da Bad Wolf e uma das mentes mais influentes da televisão britânica atual. Em entrevista à Variety, Tranter discutiu a filosofia por trás da escolha de projetos que, à primeira vista, poderiam ser considerados arriscados. Segundo a produtora, quando o mercado insiste que um determinado tema não desperta interesse, é exatamente nesse ponto que ela encontra motivação para investir. “Eu gosto de ir na contramão quando todos estão seguindo a mesma direção”, afirma Tranter, destacando sua preferência por narrativas que desafiam o senso comum.
A semente para “The Other Bennet Sister” foi plantada há cerca de oito ou nove anos, quando Janice Hadlow apresentou a ideia a Tranter. Naquele estágio inicial, o projeto consistia apenas em algumas páginas de sinopse, mas a visão de Tranter foi imediata. Ela acreditava firmemente que o mundo precisava de uma história que colocasse uma personagem não convencional no centro da narrativa. Para a produtora, Mary Bennet oferece uma ressonância emocional e uma capacidade de identificação muito mais profundas para a geração atual de jovens mulheres do que a própria Elizabeth Bennet, cuja perfeição muitas vezes a torna distante.
Conexões com o passado e o toque de modernidade
Embora a série não se pretenda um drama de época clássico, ela é pontuada por referências lúdicas aos seus predecessores. A produção faz questão de dialogar com os fãs de longa data da obra de Jane Austen, especialmente aqueles que guardam com carinho a icônica adaptação de 1995 da BBC, estrelada por Colin Firth e Jennifer Ehle. Um dos “Easter Eggs” mais notáveis é a participação de Lucy Briers, que interpretou Mary na série de 1995, agora assumindo o papel da governanta Mrs. Hill em “The Other Bennet Sister”.
Tranter revela que houve um esforço consciente para incluir cenas que não estavam presentes no livro original, visando enriquecer a experiência visual e narrativa. Um exemplo curioso citado pela produtora envolve uma situação em que Mary se vê cortejada por dois pretendentes simultaneamente. Em uma clara alusão bem-humorada aos clichês do gênero, Tranter insistiu que ambos os pretendentes deveriam terminar em um lago, saindo da água com camisas brancas, em uma referência direta à cena que se tornou um marco cultural na televisão britânica.
O futuro das adaptações e o portfólio da Bad Wolf
A série, composta por dez episódios com lançamento semanal, abre precedentes para que a Bad Wolf explore outros personagens secundários de Jane Austen que, ao longo dos anos, foram negligenciados ou subestimados. Tranter sugere que a produtora está ativamente avaliando novas possibilidades dentro desse universo literário. O objetivo é continuar desenvolvendo histórias que permitam uma abordagem fresca, inovadora e que traga novas camadas de complexidade a figuras que, até então, serviam apenas como coadjuvantes na jornada de outros protagonistas.
Além de “The Other Bennet Sister”, a conversa com Tranter tocou no futuro de outras produções de peso da Bad Wolf. Sobre “Industry”, a produtora manteve o entusiasmo, prometendo que a temporada final trará desenvolvimentos narrativos significativos e saltos que manterão o público engajado. Em relação a “Doctor Who”, Tranter esclareceu a natureza do compromisso atual da produtora com a BBC e o Disney+, confirmando que o contrato de vinte e seis episódios foi cumprido, embora as discussões sobre um possível especial de Natal permaneçam em pauta, mantendo viva a expectativa dos fãs.
A trajetória de Jane Tranter e da Bad Wolf reflete a resiliência necessária para navegar em uma indústria marcada por fusões, mudanças constantes de estratégia e desafios econômicos. Para a produtora, o foco permanece inalterado: a criação de histórias que possuam impacto real e a busca incessante por novas formas de narrar. Ao dar voz a personagens como Mary Bennet, Tranter não apenas revisita o passado, mas também reafirma a importância de olhar para as margens da história em busca de novas verdades sobre a condição humana, garantindo que o legado de Jane Austen continue a evoluir e a dialogar com as novas gerações de espectadores ao redor do mundo.
A série, portanto, não é apenas um exercício de nostalgia, mas uma peça fundamental na estratégia de expansão da Bad Wolf, que busca equilibrar o respeito pela tradição literária com a necessidade de inovação televisiva. Ao colocar Mary Bennet no centro, a produção convida o público a questionar as narrativas estabelecidas e a encontrar valor naqueles que, por muito tempo, foram deixados de lado, provando que, mesmo em um gênero saturado, sempre há espaço para uma nova perspectiva, desde que contada com a sensibilidade e a audácia corretas.
Fonte: Variety