No cenário cinematográfico contemporâneo, poucas vozes conseguem dissecar as tensões sociais e geográficas com a precisão de Valeska Grisebach. Com o seu mais recente longa-metragem, The Dreamed Adventure, a cineasta alemã retorna ao Festival de Cannes, desta vez integrando a prestigiada competição oficial, para apresentar uma obra que desafia as convenções do gênero Western. O filme, que teve sua estreia mundial na sexta-feira, não apenas presta homenagem aos tropos clássicos do cinema de fronteira, mas os utiliza como uma lente crítica para examinar a realidade complexa e, por vezes, dolorosa da região que divide a Bulgária e a Turquia.


A gênese de um Western moderno
A premissa de The Dreamed Adventure é deliberadamente familiar para os entusiastas do cinema: um homem de traços marcantes e passado enigmático, conhecido como Said, chega a uma cidade poeirenta na fronteira. O local, que ele não visitava há anos, sofreu transformações profundas, assim como o próprio protagonista. Grisebach, em entrevista à Variety, admite que essa estrutura narrativa não é acidental. A diretora explica que a inspiração para o projeto nasceu diretamente de sua experiência anterior com o filme Western, rodado na Bulgária. Ao explorar aquele território, ela percebeu que a linguagem do gênero — com seus heróis solitários, paisagens áridas e a tensão constante entre a civilização e a barbárie — era a ferramenta ideal para investigar as feridas abertas daquela nação específica.
O filme vai além da estética, mergulhando nas raízes dos problemas contemporâneos da região. Grisebach traça um paralelo direto com a década de 1990, um período que ela descreve como uma espécie de “Velho Oeste” búlgaro. Após a queda do comunismo, o país enfrentou um vácuo de poder significativo, onde figuras ligadas ao crime organizado, os chamados Mafiosi, ocuparam o espaço deixado pelos antigos burocratas do Partido Comunista. Essa era de transição caótica moldou a infraestrutura social e econômica que o filme retrata hoje, onde a modernização, simbolizada por novas rodovias que conectam a Europa à Turquia, acabou por deixar cidades inteiras à margem do progresso, isoladas e esquecidas pelo fluxo do capital global.
Uma mudança de foco: O olhar de Veska
Embora a narrativa se inicie com a figura arquetípica do pistoleiro solitário, The Dreamed Adventure reserva uma surpresa estrutural ao público. Após a chegada de Said, o filme toma um rumo inesperado: o protagonista desaparece, e a lente da câmera se volta para Veska, uma amiga de juventude de Said. Veska é uma arqueóloga que retorna à sua cidade natal com o objetivo de escavar ruínas de uma civilização antiga. É através do olhar dela que o espectador é convidado a observar a cidade e seus habitantes — uma galeria de personagens marcados pela dureza da vida, que tentam sobreviver em um ambiente onde a economia transnacional simplesmente os ignorou.
A escolha de Veska como protagonista não é apenas uma mudança de perspectiva, mas uma decisão política e narrativa. Como arqueóloga, ela está literalmente escavando o passado, o que serve como uma metáfora para a própria investigação do filme sobre as camadas de história e trauma que compõem a identidade daquela região. Enquanto Said representa o mito do forasteiro, Veska representa a conexão com a terra e a realidade cotidiana. Ela observa como a cidade foi contornada pela nova infraestrutura rodoviária, tornando-se um lugar de passagem onde ninguém mais para, apenas transita, deixando os moradores em um estado de estagnação econômica e social.
A dualidade entre o dia e a noite
Grisebach constrói o filme sobre uma dicotomia clara entre o dia e a noite. Durante o dia, o filme revela a monotonia e a burocracia de uma vida que parece ter parado no tempo. A luz do sol expõe a decadência das estruturas e a rotina dos habitantes que tentam, sem sucesso, se adaptar a um mundo que não os inclui. Já a noite, em The Dreamed Adventure, é um espaço de perigo, mistério e poder. É o momento em que as figuras que dominam as sombras, como o mafioso Iliya, emergem para exercer controle sobre a comunidade.
A diretora reflete sobre como, nos anos 90, esse ambiente noturno era predominantemente masculino, um jogo de poder onde dinheiro, sexualidade e violência se entrelaçavam. No entanto, o filme também explora como as mulheres tentam navegar e, em alguns casos, subverter essas dinâmicas de poder. Personagens como Maria, uma adolescente que se encontra sob a tutela de Veska, servem como um contraponto à nostalgia tóxica que muitos dos homens locais sentem em relação àquela década. Enquanto os homens frequentemente romantizam os anos 90 como uma “Era de Ouro” de liberdade desenfreada, o filme mostra, através das lentes de Veska e Maria, o custo humano e a opressão que sustentavam esse mito.
Subvertendo os tropos do gênero
Um dos aspectos mais fascinantes de The Dreamed Adventure é a forma como Grisebach evita deliberadamente os clichês do Western. Não espere encontrar duelos de armas, tiroteios coreografados ou a resolução violenta dos conflitos. A diretora opta por uma abordagem mais contemplativa e psicológica. A tensão no filme é construída através de diálogos carregados de subtexto, olhares e a constante busca pela verdade em um ambiente onde todos têm algo a esconder. A força, no universo de Grisebach, não é medida pela capacidade de disparar uma arma, mas pela resiliência em enfrentar as verdades desconfortáveis do passado e do presente.
Essa subversão é o que torna o filme uma das obras mais instigantes da competição oficial de Cannes. Ao despojar o Western de seus elementos de espetáculo, a diretora força o público a confrontar a essência do gênero: o isolamento, a luta pela sobrevivência e a busca por um lugar em um mundo em constante mudança. O filme questiona o que significa ser um “estrangeiro” em sua própria terra e como as fronteiras, sejam elas geográficas ou temporais, definem quem somos.
Produção e impacto internacional
O projeto é uma coprodução internacional robusta, envolvendo a Komplizen Film, com o trabalho de produção de nomes de peso como Jonas Dornbach, Janine Jackowski e Maren Ade. A distribuição internacional está sob a responsabilidade da The Match Factory, garantindo que a obra alcance um público global. A escolha de Cannes para a estreia mundial reforça o status de Grisebach como uma das cineastas europeias mais importantes da atualidade. O filme não apenas dialoga com a tradição do cinema europeu, mas a expande, trazendo uma sensibilidade moderna para temas que, embora locais, possuem uma ressonância universal.
Em última análise, The Dreamed Adventure é um convite para olhar além da superfície. Ao misturar a arqueologia com a narrativa contemporânea, Valeska Grisebach nos lembra que a história não é algo que fica enterrado no solo; ela vive nas pessoas, nas cidades e nas fronteiras que ainda tentamos compreender. É um filme sobre o que sonhamos, o que perdemos e o que, apesar de tudo, decidimos preservar. Com uma cinematografia que captura a aridez da paisagem com a mesma intensidade com que registra a melancolia dos rostos de seus personagens, a obra se consolida como um marco na carreira da diretora e um dos pontos altos do festival deste ano.
O filme também levanta questões sobre o papel do cinema na preservação da memória coletiva. Ao revisitar os anos 90 na Bulgária, Grisebach não está apenas contando uma história sobre uma região específica, mas está documentando um momento de transição global que muitas sociedades ainda estão tentando processar. A forma como ela integra elementos de suspense, drama social e reflexão histórica faz de The Dreamed Adventure uma experiência cinematográfica completa, que desafia o espectador a pensar sobre a natureza do poder, da justiça e da identidade em um mundo cada vez mais interconectado, mas, paradoxalmente, cada vez mais dividido por fronteiras invisíveis.
A recepção em Cannes tem sido um reflexo da complexidade da obra. Críticos e público têm destacado a habilidade da diretora em manter o ritmo, mesmo em um filme que prioriza a atmosfera e a introspecção sobre a ação frenética. A performance dos atores, muitos dos quais trazem uma autenticidade crua para seus papéis, complementa a visão de Grisebach, criando um universo que parece palpável, real e, ao mesmo tempo, profundamente mítico. É, sem dúvida, um filme que continuará a gerar debates e análises muito tempo após o encerramento do festival, reafirmando o poder do cinema de autor em transformar o gênero em um espelho da condição humana.
Fonte: Variety