O universo de RuPaul’s Drag Race expande suas fronteiras criativas com o lançamento de Stop That Train, uma comédia que aposta no gênero de paródia de filmes de desastre para conquistar o público nos cinemas. A produção, realizada em uma parceria entre a Bleecker Street Films e a World of Wonder, entrega 92 minutos de uma narrativa propositalmente absurda e bem-humorada. Sob a direção de Adam Shankman e com a produção dos fundadores da World of Wonder, Fenton Bailey e Randy Barbato, o longa coloca RuPaul no papel central da Madame President Gagwell, uma líder que precisa lidar com uma crise nacional iminente enquanto tenta desesperadamente melhorar seus índices de aprovação popular.
A trama ganha contornos de urgência quando o trem de alta velocidade conhecido como Glamazonian Express é atingido por um raio e entra em uma rota de colisão catastrófica, enfrentando um fenômeno climático ameaçador chamado de stormaganza. A partir desse ponto, a presidente Gagwell é colocada à prova em uma série de situações que misturam o absurdo com o entretenimento clássico de produções de desastre. O elenco conta ainda com nomes conhecidos da franquia Drag Race, incluindo Ginger Minj e Jujubee, que interpretam as comissárias de bordo Tess e DeeDee. Elas deixam para trás seus turnos monótonos na Stank Rail para embarcar na luxuosa, porém perigosa, jornada do Glamazonian Express, onde encontram o grupo rival A-Squad, formado por Ayshleiygh, Alli e Amber, interpretadas respectivamente por Symone, Marcia Marcia Marcia e Brook Lynn Hytes.
Bastidores e a longa jornada até as telas
O desenvolvimento de Stop That Train não foi um processo rápido. Segundo Fenton Bailey e Randy Barbato, a ideia original começou a ser gestada há 11 anos. Durante esse período, a dupla manteve o foco em projetos documentais e produções sem roteiro, mas a vontade de realizar um longa-metragem ficcional sempre esteve presente. Para os produtores, o momento atual é ideal para a estreia de uma comédia que não se leva a sério, oferecendo um alívio necessário diante de um cenário global frequentemente marcado por notícias tensas. Como afirma Bailey, a risada funciona como uma forma de ativismo e resistência contra a opressão, tornando a figura da Presidente Gagwell um símbolo de diversão em tempos difíceis.
A escolha de RuPaul para o papel principal foi natural para os produtores, que acompanham a carreira do artista desde a década de 1980. Barbato destaca que RuPaul foi construído para o estrelato cinematográfico, demonstrando uma eficiência notável durante as filmagens. O produtor ressalta que, daqui a centenas de anos, estudiosos poderão analisar os microgestos de RuPaul na tela para compreender a precisão de sua atuação. O roteiro, assinado por Christina Friel e Connor Wright, foi refinado com a ajuda de Adam Shankman, que sugeriu a mudança de cenário de um avião para um trem, mantendo a tensão e o humor característicos do gênero de desastre.
Produção independente e o legado de Drag Race
O filme foi rodado em 19 dias em Los Angeles, utilizando o mesmo estúdio onde são gravadas as temporadas de Drag Race. A produção, financiada de forma independente, gerou cerca de 200 empregos para a equipe local. Para Barbato, o longo tempo de desenvolvimento do projeto reflete a trajetória da própria World of Wonder, que prioriza produções independentes e autênticas. Ele descreve o longa como um filme independente que se veste com a estética de uma grande produção de estúdio, mantendo a essência que a produtora sempre buscou imprimir em seus trabalhos.
A inspiração para o estilo narrativo da World of Wonder remonta aos dias em que Bailey e Barbato frequentavam shows de drag no Pyramid, em Nova York. A conexão com o público é o pilar central de todos os seus projetos, desde o DragCon até os programas de TV. O objetivo principal, segundo os produtores, é proporcionar uma experiência de cura através do riso. Bailey comenta, em tom de brincadeira, que o público deve sair da sala de cinema com o rosto dolorido de tanto rir, o que representa uma mudança bem-vinda em relação ao estresse diário causado pelo ciclo de notícias. Assim como em Iron Man and His Awesome Friends ganha novos episódios no Disney+, o foco aqui é expandir o alcance de personagens icônicos para novos formatos.
Elenco e participações especiais
Além das estrelas de Drag Race, o filme conta com participações especiais de nomes como Nicole Richie, Lisa Rinna, Raven Symone, Matt Rogers e Sarah Michelle Gellar. A habilidade das drag queens em atuar é um ponto que Bailey faz questão de enfatizar, observando que, ao subir em um palco ou passar por uma passarela, elas já estão interpretando papéis e dominando a arte da performance. Essa naturalidade diante das câmeras facilitou o trabalho de direção e garantiu que o humor do roteiro fosse entregue com precisão.
A recepção do público e a possibilidade de novos projetos no campo da ficção já estão sendo discutidas pelos produtores. Barbato admite que o sucesso de Stop That Train pode abrir portas para que a World of Wonder explore outros gêneros, incluindo o terror, uma área que Bailey já demonstrou interesse em investigar. Por enquanto, o foco permanece em levar alegria aos espectadores e garantir que a experiência cinematográfica seja um momento de descontração e celebração. A produção reafirma o compromisso da equipe em criar conteúdos que, além de divertidos, possuam uma identidade visual e narrativa forte, consolidando o papel da World of Wonder como uma força criativa no entretenimento contemporâneo.
A estrutura narrativa de Stop That Train, embora siga os tropos clássicos dos filmes de desastre, subverte as expectativas ao injetar a energia e o carisma característicos da cultura drag. A transição do cenário de um avião para um trem, sugerida por Shankman, permitiu uma exploração mais dinâmica dos espaços e das interações entre os personagens. A dinâmica entre as stewardesses Tess e DeeDee e o grupo A-Squad cria um conflito central que impulsiona a trama, mantendo o ritmo acelerado e o tom satírico que o público espera de uma paródia desse porte. A produção, que se orgulha de sua independência, demonstra que é possível realizar um filme com escopo de grande espetáculo sem perder a essência artística que define a trajetória de seus criadores.
Ao olhar para o futuro, Bailey e Barbato mantêm o otimismo. A esperança é que o público saia do cinema sentindo-se mais leve e feliz do que quando entrou. A risada, como medicina para a alma, continua sendo o norte de suas produções. Seja em um documentário sobre a história da cultura drag ou em uma comédia absurda sobre um trem desgovernado, a World of Wonder permanece fiel à sua missão de entreter e conectar pessoas através de histórias que celebram a diversidade e a criatividade. Stop That Train é, portanto, mais do que uma simples paródia; é um reflexo da visão de mundo de seus produtores, que acreditam no poder transformador da alegria e da performance em todas as suas formas.
A produção também serve como um lembrete da importância de apoiar o cinema independente, que muitas vezes consegue arriscar mais e entregar propostas inovadoras que fogem do padrão dos grandes estúdios. Com um elenco talentoso e uma equipe criativa que entende profundamente a linguagem do entretenimento, o filme se posiciona como uma adição interessante ao catálogo de produções que buscam dialogar com o público de forma direta e sem pretensões excessivas. A expectativa é que, com o lançamento, o filme encontre seu público e se torne uma referência dentro do gênero de comédia, provando que a criatividade, quando aliada a uma boa dose de humor, pode superar qualquer obstáculo, inclusive um trem em alta velocidade prestes a descarrilar.
Por fim, a colaboração entre Bleecker Street Films e World of Wonder mostra que parcerias estratégicas podem potencializar o alcance de projetos que, inicialmente, poderiam ser vistos apenas como nicho. Ao trazer o universo de Drag Race para o cinema, a produção não apenas atende aos fãs da franquia, mas também convida um público mais amplo a conhecer a versatilidade e o talento dos artistas envolvidos. A trajetória de Stop That Train, desde a ideia inicial até a tela grande, é um testemunho da persistência e da paixão de seus criadores, que nunca desistiram de ver essa história ganhar vida. O resultado é um filme que, acima de tudo, celebra a capacidade humana de rir diante das adversidades, transformando o caos em uma experiência compartilhada de alegria e entretenimento.
Fonte: Variety