SNL UK adota formato de palco para aproximar elenco do público

A versão britânica do programa de esquetes aposta na proximidade com a plateia e na liberdade criativa para revitalizar o humor televisivo no Reino Unido.

O Saturday Night Live UK emergiu rapidamente como um dos desenvolvimentos mais observados e debatidos no cenário da comédia televisiva britânica. O projeto não atrai apenas a atenção do público, mas também de especialistas da indústria, consolidando-se como um experimento ambicioso que busca adaptar a fórmula de sucesso de 50 anos do original americano para a sensibilidade cultural do Reino Unido. Por trás dessa empreitada, o lendário Lorne Michaels, mentor do formato original, mantém uma colaboração estreita e constante com o showrunner James Longman, conhecido por seu trabalho em The Late Late Show with James Corden. Essa parceria visa garantir que o humor britânico, com suas nuances e referências específicas, seja sustentado pela estrutura robusta e testada do formato SNL.

A visão estratégica de Lorne Michaels e a geografia do palco

Durante uma conversa recente com o documentarista Morgan Neville — diretor do filme Lorne —, revelou-se um detalhe crucial sobre a orientação de Michaels para a equipe britânica. O criador do programa sugeriu uma mudança significativa na geografia do palco: a reconstrução de um grande cenário para aproximar fisicamente os artistas da plateia presente no estúdio. Michaels compreende que, embora o SNL precise evoluir para se conectar com as novas audiências britânicas, certos pilares de sua experiência e instinto permanecem inegociáveis. Ele acredita firmemente que o SNL é, em sua essência, um programa movido pelo público, e que o sucesso da atração depende de quão bem a produção abraça essa multidão.

A lógica por trás dessa nota sobre a disposição do palco é clara: a proximidade afeta diretamente a eficácia das esquetes. Quando a reação ao vivo é priorizada e o elenco sente a energia da sala, as piadas tendem a ter um impacto muito mais forte, inclusive para o espectador que assiste de casa. Exemplos dessa priorização de performance podem ser vistos no quadro Weekend Update, onde o comediante Paddy Young entrega suas manchetes com um sorriso cúmplice, e nas esquetes musicais, como a participação da atriz Annabel Marlow ao lado de Hannah Waddingham, abordando temas que vão desde os perigos do consumo excessivo de vinho até a vida de uma professora de teatro divorciada. Até mesmo uma versão temática de O Fantasma da Ópera, ambientada em uma loja Footlocker, exemplifica como a encenação e a entrega são fundamentais para o sucesso do formato.

Quebrando barreiras e desafiando o controle televisivo

A abordagem focada no palco também se manifesta nos monólogos dos apresentadores, que frequentemente rompem a quarta parede. Um exemplo notável foi a participação de Aimee Lou Wood, que realizou leituras espirituais para a plateia, alegando que membros do público teriam vivido vidas passadas como cães ou até mesmo como o Papa, culminando na aparição de um cachorro real que foi coroado como a reencarnação de Pablo Escobar. Tais momentos reforçam a crença de Michaels de que o programa funciona melhor quando é desenhado de fora para dentro, priorizando a experiência da audiência no estúdio.

Existe um contraste fundamental entre o SNL UK e a tradição da comédia britânica recente. Por décadas, a TV no Reino Unido foi dominada por programas de painel e formatos de estúdio altamente controlados, como Have I Got News For You e Would I Lie to You?. Nesses programas, os comediantes operam dentro de regras rígidas e estruturas fixas, muitas vezes sentados em posições imutáveis. Mesmo programas que se dizem ao vivo, como The Last Leg, operam em ambientes de baixa volatilidade, onde a comédia é entregue através de comentários em vez de performance física. Como a maioria desses programas é desenhada para ser reprisada indefinidamente, eles dependem de estabilidade e facilidade de reembalagem. Ao focar na performance e na imprevisibilidade, o SNL UK introduz um elemento de risco que tem tornado a comédia britânica emocionante novamente.

Flexibilidade criativa e o futuro do formato

O sucesso do SNL UK não reside apenas na importação de um formato americano, mas na combinação deliberada de dois sistemas. Michaels permitiu que a equipe de Longman desenvolvesse material enraizado na cultura britânica, desde referências a provadores da loja ZARA até menções à autora Enid Blyton. O humor não foi diluído para apelo internacional, mantendo sua especificidade local. A comunicação entre Michaels e Longman é intensa, com trocas frequentes de mensagens e notas semanais. Embora Michaels admita que, por vezes, abordaria certas esquetes de forma diferente, ele reconhece o valor da execução local, estabelecendo uma relação de trabalho onde o formato é protegido, mas a flexibilidade é garantida.

O processo de produção também reflete essa adaptação. Enquanto o modelo americano é famoso por sessões de escrita exaustivas que atravessam a madrugada de terça-feira, a versão britânica optou por um modelo mais flexível, sem a expectativa de que os roteiristas permaneçam acordados a noite toda. O processo de leitura de mesa ocorre mais cedo, às quartas-feiras, com cerca de 30 a 35 esquetes sendo desenvolvidas para que aproximadamente oito sejam selecionadas para o show ao vivo. Essas mudanças mostram uma produção que ainda encontra seu ritmo, mantendo-se alinhada à estrutura central do SNL, mas respeitando os diferentes processos criativos dos talentos britânicos. Em última análise, o SNL UK prova que o segredo da longevidade do formato está em entender o sistema de performance ao vivo, enquanto se dá liberdade total para que os criadores locais moldem o conteúdo de acordo com sua própria identidade cultural.

Fonte: Collider