Slice ganha destaque no streaming como terror cult da A24

O longa de estreia de Austin Vesely mistura mistério, humor ácido e monstros em uma trama estilizada que conquista novos públicos.

O filme Slice, uma produção da A24, consolidou-se como uma opção de entretenimento noturno indispensável no streaming, oferecendo uma mistura peculiar e altamente estilizada de mistério, terror e comédia. O longa marca a estreia na direção de Austin Vesely, cineasta amplamente reconhecido por seu trabalho em videoclipes. Vesely aproveita sua vasta experiência visual para transpor a estética dinâmica dos clipes musicais para o cinema, criando uma atmosfera que é, ao mesmo tempo, visualmente sofisticada e deliciosamente sangrenta. A trama mergulha o espectador em um universo onde humanos e uma vasta gama de criaturas sobrenaturais coexistem em uma comunidade gloriosamente disfuncional e vibrante, entregando uma experiência tão viciante quanto o tema central sugere.

Um mundo vibrante de monstros e mistérios

A narrativa de Slice é deflagrada pelo assassinato de um entregador de pizza chamado Sean — interpretado pelo próprio diretor Austin Vesely —, evento que desestabiliza as tensões na peculiar cidade de Kingfisher. O crime desencadeia uma busca frenética por respostas, envolvendo um elenco eclético de personagens. Entre aqueles que buscam solucionar o mistério estão dois policiais atrapalhados, vividos por Tim Decker e Will Brill, uma repórter perspicaz interpretada por Rae Gray e seu dedicado fotógrafo, papel de Joe Keery. A trama também explora as conexões pessoais da vítima, destacando Astrid, ex-namorada de Sean, interpretada por Zazie Beetz, e o lobisomem entregador de pizza Dax, interpretado por Chance the Rapper, que se torna o principal suspeito e luta desesperadamente para limpar seu nome.

Além do mistério central, a pizzaria que serve como cenário principal é assombrada, integrando fantasmas que, de forma inusitada, trabalham no varejo durante o dia enquanto assombram cidadãos em seu tempo livre. A estética do filme é um dos seus pontos mais marcantes: a paleta de cores saturada, contrastada com sombras profundas, faz com que o espectador sinta que entrou em um mundo de fantasia sombria em technicolor. O uso de sequências de ação em câmera lenta e enquadramentos estilizados reforça a identidade visual única da obra, que se diferencia de produções convencionais do gênero ao abraçar o absurdo com convicção.

Personagens excêntricos e humor autoconsciente

O grande trunfo de Slice reside na consciência de sua própria natureza ridícula e em sua abordagem propositalmente não séria. Embora o roteiro tente tecer um comentário social mais amplo sobre a gentrificação — refletido na maneira como os fantasmas são tratados na cidade —, o filme constantemente redireciona o foco para o prazer puro de observar essas criaturas tão distintas interagindo entre si. Assistir ao filme assemelha-se a olhar através de um caleidoscópio, onde as arestas irregulares dos personagens se encaixam de formas inesperadas, criando um efeito de desorientação proposital através de cenas caóticas e disparatadas.

O elenco entrega atuações que acompanham o tom frenético e lúdico da produção. Embora Chance the Rapper seja tecnicamente o protagonista, ele só faz sua entrada triunfal na metade do filme, permitindo que o público se familiarize com a galeria de tipos excêntricos da cidade. O roteiro é repleto de diálogos autoconscientes, carregados de tiradas zombeteiras e frases espirituosas que mantêm o ritmo da investigação policial sempre em movimento. A dinâmica entre Rae Gray e Joe Keery conduz o espectador por uma caçada selvagem enquanto a contagem de corpos aumenta, enquanto a presença de Zazie Beetz confere uma eletricidade necessária à atmosfera. Quando o personagem de Chance finalmente entra em cena, ele surpreende com uma natureza carismática e travessa, consolidando a identidade do filme como uma celebração de conceitos extravagantes.

Em última análise, Slice é uma estreia ambiciosa que funciona como um passeio emocionante por um universo de monstros, unindo elementos de slasher, terror corporal, neo-noir e comédia sombria. O filme sabe exatamente o que é e entrega, com orgulho, uma fatia de diversão desenfreada. Para quem busca produções que ganham nova vida após o lançamento, vale lembrar que o mercado de streaming é dinâmico. O longa, que merecia muito mais reconhecimento do que obteve em seu lançamento original em 2018, encontra agora seu público fiel através de plataformas como o Tubi, onde permanece disponível para quem deseja se perder neste mundo peculiar.

Fonte: Collider