Rodrigo Sorogoyen explora novos limites visuais em The Beloved

O diretor espanhol detalha o uso experimental de diferentes formatos de imagem e a colaboração intensa com Javier Bardem em seu novo longa-metragem.

O cineasta espanhol Rodrigo Sorogoyen, reconhecido por sua capacidade de criar tensões psicológicas profundas, está prestes a apresentar ao mundo seu trabalho mais audacioso. ‘The Beloved’ (‘El ser querido’), que tem sua estreia mundial marcada para o dia 16 de maio na competição oficial do Festival de Cannes, não é apenas um novo capítulo em sua filmografia, mas um experimento cinematográfico completo. Em uma conversa realizada em sua produtora, a Caballo, em Madri, poucos dias antes de embarcar para o festival, Sorogoyen não hesitou em descrever o processo de criação do longa como uma exploração técnica e narrativa sem precedentes em sua carreira.

Riccardo Ghilardi copy
Riccardo Ghilardi copy
lazyload fallback

O desafio do silêncio e a direção de atores

O filme abre com uma sequência de vinte minutos situada em um luxuoso restaurante madrilenho. Esta cena, que serve como o ponto de partida para toda a trama, estabelece o tom de realismo cru que o diretor buscava. Nela, o renomado diretor de cinema Esteban Martínez, interpretado por Javier Bardem, reencontra sua filha, vivida por Victoria Luengo, após um hiato de treze anos. O objetivo de Esteban é oferecer a ela um papel em seu próximo projeto, um gesto que carrega o peso de mais de uma década de ausência.

Para garantir que a tensão entre os dois personagens fosse palpável e genuína, Sorogoyen tomou uma decisão drástica: a cena foi filmada logo no primeiro dia de produção. Mais do que isso, ele impôs uma regra estrita a Bardem e Luengo: eles não poderiam se encontrar, conversar ou realizar qualquer tipo de ensaio antes de estarem diante das câmeras. O diretor explicou que, além das dez páginas de roteiro que os atores precisavam executar, eles foram instruídos a manter conversas reais — ou o silêncio — durante a hora e meia que o encontro duraria na vida real. O resultado, segundo Sorogoyen, são vinte minutos de cenas que ele descreve como “ouro puro”. Os silêncios, as hesitações e os olhares trocados entre os dois atores capturam uma realidade que ele afirma nunca ter conseguido filmar anteriormente com tanta precisão.

Um experimento visual e narrativo

Ao discutir a gênese do projeto, Sorogoyen enfatiza que a palavra que mais repetiu para si mesmo durante a direção de ‘The Beloved’ foi, inequivocamente, “experimento”. Para ilustrar a complexidade da estrutura visual do filme, o diretor utilizou um quadro branco em seu escritório para esboçar a progressão técnica da obra. O prólogo, ambientado no restaurante, foi capturado inteiramente em formato digital, estabelecendo uma estética contemporânea e limpa.

No entanto, a narrativa sofre uma transformação drástica quando a personagem de Emilia aceita a oferta de Esteban. O filme dentro do filme entra em fase de produção nas áridas paisagens da ilha de Fuerteventura, que na trama serve como cenário para representar o Saara Ocidental de 1932. É neste momento que Sorogoyen decide romper com a linearidade estética. À medida que o conflito nos bastidores entre Emilia e Esteban se intensifica, o diretor começa a misturar deliberadamente diferentes suportes: filme digital, 35 mm, 16 mm e 8 mm. Além disso, ele alterna entre formatos de tela widescreen e o formato box, além de transitar entre cenas coloridas e em preto e branco.

Essa colagem de estilos culmina em um caleidoscópio visual que reflete o estado psicológico dos personagens. Sorogoyen explica que essa mistura não é gratuita; ela serve para sublinhar o momento em que Esteban, durante a direção de uma cena, explode em fúria. Essa erupção. Esse surto de violência verbal e física, que Emilia reconhece de sua infância, é amplificado pela mudança constante de texturas visuais, criando uma experiência sensorial que espelha o trauma e a instabilidade da relação entre pai e filha.

A liberdade criativa e o apoio da indústria

Refletindo sobre a ousadia técnica de ‘The Beloved’, Sorogoyen admite que a maturidade profissional foi um fator determinante. “Se este tivesse sido meu primeiro filme, eu não teria corrido tantos riscos”, confessa o diretor. A capacidade de experimentar com formatos e estruturas narrativas tão distintas só foi possível devido à confiança absoluta depositada por seus parceiros de produção, a Movistar Plus+ e a distribuidora francesa Le Pacte. O suporte financeiro e a liberdade artística concedidos por essas instituições permitiram que ele levasse a visão experimental ao limite, sem as pressões comerciais que geralmente restringem produções de grande escala.

A colaboração com Javier Bardem também foi fundamental para que o projeto atingisse esse nível de complexidade. O ator, conhecido por sua entrega total, abraçou a proposta experimental de Sorogoyen, permitindo que o diretor explorasse nuances de um personagem que transita entre a genialidade artística e a falha humana profunda. A dinâmica entre os dois, aliada à performance de Victoria Luengo, forma o núcleo emocional que sustenta as escolhas estéticas arriscadas do filme.

O impacto da narrativa no espectador

Ao abordar temas como o patriarcado, a memória e a natureza da criação cinematográfica, ‘The Beloved’ se posiciona como uma obra que exige atenção plena do espectador. Sorogoyen não busca oferecer respostas fáceis sobre o comportamento de Esteban ou as reações de sua filha. Em vez disso, ele constrói um espelho onde o público pode observar as feridas deixadas pelo tempo e a dificuldade de reconciliação. O uso de diferentes formatos de imagem atua como uma metáfora para a própria memória: fragmentada, mutável e, por vezes, distorcida pela dor ou pela necessidade de reescrever o passado.

A escolha de Fuerteventura como cenário, com sua aridez e isolamento, reforça o sentimento de confinamento emocional que os personagens enfrentam. O contraste entre a sofisticação do restaurante em Madri e a crueza do deserto cinematográfico serve para destacar a dualidade na vida de Esteban: o homem público, aclamado e bem-sucedido, e o homem privado, cujas ações causaram danos irreparáveis àqueles que ele mais deveria proteger. A transição entre esses mundos, marcada pela mudança de película e formato, é o que torna ‘The Beloved’ uma peça central na filmografia de Sorogoyen.

À medida que o filme se aproxima de sua estreia em Cannes, a expectativa em torno da recepção crítica é alta. O trabalho de Sorogoyen tem sido consistentemente elogiado por sua capacidade de fundir o cinema de gênero com um drama humano visceral, e ‘The Beloved’ parece ser o ápice dessa trajetória. Ao desafiar as normas de produção e edição, o diretor não apenas expande sua própria linguagem cinematográfica, mas também convida o público a questionar a forma como as histórias são contadas e como elas definem quem somos. A ousadia de misturar formatos, que poderia ser vista como um exercício de estilo por cineastas menos experientes, em ‘The Beloved’ torna-se uma ferramenta narrativa essencial, provando que, para Sorogoyen, a forma e o conteúdo são inseparáveis na busca pela verdade emocional.

O filme, portanto, não é apenas sobre um diretor e sua filha, mas sobre o próprio ato de filmar como uma forma de enfrentar os fantasmas do passado. Ao colocar Javier Bardem em um ambiente de experimentação constante, Sorogoyen extrai uma performance que é, ao mesmo tempo, vulnerável e aterrorizante, consolidando o longa como um marco importante no cinema contemporâneo. A confiança dos produtores e a coragem do diretor em abraçar o desconhecido resultaram em uma obra que, sem dúvida, será debatida e analisada muito além das exibições no festival francês.

Em última análise, ‘The Beloved’ é um testemunho da evolução de um cineasta que, após consolidar seu nome no cenário internacional, sente-se confortável o suficiente para quebrar as regras que ele mesmo ajudou a estabelecer. A jornada de Esteban Martínez, da sala de jantar em Madri às dunas de Fuerteventura, é uma metáfora poderosa para a própria jornada de Sorogoyen como artista: uma busca constante por autenticidade, mesmo que o caminho para alcançá-la exija a destruição de todas as convenções anteriores.

Fonte: Variety