Quentin Tarantino, um dos cineastas mais influentes da atualidade, expressou recentemente sua visão crítica sobre o estado da indústria cinematográfica moderna. Em um artigo publicado na revista Sight & Sound, o diretor de Once Upon a Time… in Hollywood descreveu o cenário atual de Hollywood como uma “fábrica de salsichas sem sabor”, manifestando um descontentamento profundo com a qualidade das produções lançadas nos últimos seis anos. Segundo o cineasta, a maioria dos filmes contemporâneos sofre com falhas de roteiro, escolhas equivocadas de elenco e uma tendência ao que ele define como “pandering” ao público, elementos que, em sua visão, comprometem a integridade artística das obras.



A exceção de The Rip no catálogo da Netflix
Apesar de suas críticas severas, Quentin Tarantino abriu uma exceção notável para o thriller policial The Rip, disponível na Netflix. O filme, dirigido por Joe Carnahan e estrelado por Ben Affleck e Matt Damon, conseguiu prender a atenção do diretor durante toda a sua duração. Tarantino destacou a premissa inovadora da trama, que acompanha dois policiais do Miami-Dade Police Department envolvidos em um caso de corrupção ligado a US$ 20 milhões em dinheiro de cartel. Para o cineasta, o longa-metragem é um exemplo de como o gênero policial ainda pode ser executado com inteligência e eficácia.
O diretor não poupou elogios à equipe técnica e ao elenco de The Rip. Ele ressaltou o trabalho de direção de Joe Carnahan, a fotografia de Juan Miguel Azpiroz e, especialmente, o roteiro assinado por Carnahan e Michael McGrale. Para Tarantino, o filme representa um pacote completo que entrega entretenimento de qualidade, algo que ele raramente encontra em lançamentos recentes. O sucesso de audiência do título na plataforma, que registrou 41,6 milhões de visualizações em sua estreia, reforça o interesse do público por produções de gênero bem estruturadas, como visto em outros filmes de ação subestimados na Netflix.
A visão de Tarantino sobre a crise criativa em Hollywood
A insatisfação de Quentin Tarantino com o mercado vai além de um filme específico. O diretor afirmou que, atualmente, o conceito do que define um filme chega a inspirar mais desprezo do que generosidade em sua visão. Ele comparou a produção dos últimos seis anos de forma desfavorável, sugerindo que, em comparação, a década de 1980 parece tão distante e clássica quanto a década de 1930. Essa percepção de declínio criativo levou o cineasta a preferir a leitura de livros em vez de acompanhar as novidades das salas de cinema ou do streaming.
Apesar do tom pessimista, Tarantino reconheceu algumas exceções pontuais. Além de The Rip, ele mencionou ter apreciado West Side Story (2021), de Steven Spielberg, e os dois primeiros capítulos de Horizon: An American Saga, de Kevin Costner. No entanto, ele enfatizou que nada disso conseguiu proporcionar a mesma sensação de imersão e prazer que ele costumava encontrar no cinema, o que o levou a se distanciar da indústria como espectador regular. A recepção crítica de West Side Story, que conquistou 91% de aprovação no Rotten Tomatoes e um prêmio de atuação para Ariana DeBose, contrasta com a trajetória mais conturbada de Horizon, que enfrentou desafios de bilheteria e questões legais.
Futuros projetos e o legado de Once Upon a Time… in Hollywood
Enquanto mantém suas críticas ao sistema, Quentin Tarantino segue focado em seus próprios projetos. O diretor está trabalhando em uma peça de teatro intitulada The Popinjay Cavalier, descrita como uma comédia de capa e espada ambientada na Europa dos anos 1930. A obra tem estreia prevista para 2027 no West End, em Londres. Quanto à sua carreira no cinema, o projeto anteriormente anunciado como seu décimo e último filme, The Movie Critic, foi cancelado, e não há informações oficiais sobre qual será o seu próximo longa-metragem.
Paralelamente, o universo de Once Upon a Time… in Hollywood continua a se expandir. Uma sequência, intitulada The Adventures of Cliff Booth, está programada para chegar à Netflix ainda este ano. Embora Tarantino tenha escrito o roteiro e atuado como produtor, a direção ficou a cargo de David Fincher. O elenco traz de volta Brad Pitt e Timothy Olyphant, reprisando seus papéis originais, acompanhados por novos nomes como Elizabeth Debicki, Scott Caan, Yahya Abdul-Mateen II, Carla Gugino e Holt McCallany. A expectativa em torno desse lançamento é alta, especialmente considerando o histórico de produções de qualidade que a plataforma tem buscado, como observado em outros filmes mais assistidos da década na Netflix.
A postura de Quentin Tarantino reflete uma preocupação crescente entre cineastas veteranos sobre a padronização e a perda de identidade autoral no cinema contemporâneo. Ao apontar falhas estruturais e defender obras que ainda mantêm uma visão artística clara, o diretor reafirma seu papel como uma voz influente que, mesmo em meio a críticas ácidas, continua a buscar e valorizar o que há de melhor na sétima arte. Sua preferência por The Rip serve como um lembrete de que, apesar das críticas ao sistema, o cinema de gênero ainda possui espaço para surpreender e cativar até os críticos mais exigentes.
O impacto de The Rip no cenário de streaming
A recepção de The Rip na Netflix não é apenas um sucesso comercial, mas um fenômeno que chama a atenção pela forma como o filme se distancia das fórmulas de blockbusters atuais. Com 41,6 milhões de visualizações em sua estreia, o longa se tornou a melhor abertura da plataforma desde Happy Gilmore 2. Para analistas de mercado, esse desempenho reforça que, embora Tarantino critique o ‘pandering’ (o ato de ceder excessivamente aos desejos do público), existe uma demanda latente por thrillers policiais que respeitem a inteligência do espectador, algo que o filme de Joe Carnahan conseguiu entregar com uma nota de 77% de aprovação no Rotten Tomatoes.
A relação de Tarantino com o gênero policial
Não é surpresa que o cineasta tenha se identificado com a obra. Ao longo de sua carreira, Tarantino consolidou sua reputação através de narrativas de crime e suspense, como visto em Reservoir Dogs e Pulp Fiction. Sua afinidade com The Rip demonstra que, mesmo em um período de desencanto com a indústria, ele ainda busca a excelência técnica e a força do roteiro que marcaram o cinema de gênero das décadas passadas. O fato de ele destacar o trabalho de Juan Miguel Azpiroz na fotografia e a escrita de Carnahan e Michael McGrale sublinha sua preferência por produções que priorizam a construção de atmosfera e a precisão narrativa em vez de efeitos visuais excessivos ou tramas simplistas.
Fontes: ScreenRant Variety