Pussy Riot protesta contra pavilhão da Rússia na Bienal de Veneza

Grupo ativista e membros do FEMEN tentam bloquear a abertura do espaço russo em protesto contra a invasão da Ucrânia e a política de participação do evento.

O grupo de ativismo artístico Pussy Riot, em uma ação conjunta com integrantes da organização feminista ucraniana FEMEN, realizou na última quarta-feira um protesto contundente para tentar impedir a abertura oficial do pavilhão da Rússia na Bienal de Veneza. A manifestação, que ocorreu na área dos Giardini, foi marcada por uma performance carregada de simbolismo político, onde as ativistas utilizaram fumaça nas cores rosa, azul e amarelo para criar um ambiente de tensão e visibilidade em torno da presença russa no prestigiado evento internacional de artes.

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O impacto da manifestação no evento

Durante a performance, as integrantes do grupo entoaram slogans de forte teor crítico, como “A arte da Rússia é sangue” e “Aproveite o show, ignore a guerra”. A ação, que incluiu a execução da canção “Disobey”, foi planejada para interromper o fluxo de visitantes e autoridades que se dirigiam ao pavilhão. Como resultado direto da intervenção, a abertura do espaço russo sofreu um atraso de aproximadamente 30 minutos, tempo durante o qual a polícia italiana precisou intervir, bloqueando o acesso ao local para conter o avanço das manifestantes e garantir a segurança da área.

Contexto de tensões geopolíticas

Este protesto não é um evento isolado, mas sim o ápice de um descontentamento que vinha se acumulando nos bastidores da Bienal. A decisão da fundação que organiza o evento — a mesma entidade responsável pelo Festival de Cinema de Veneza — de autorizar a participação da Rússia na primeira edição da Bienal de artes desde o início da invasão da Ucrânia em 2022, tem gerado intensos debates. A Rússia havia se retirado voluntariamente da edição de 2022 e optou por não comparecer em 2024, tornando o seu retorno este ano um ponto de fricção diplomática e cultural.

Pussy Riot protesta em Veneza
Membros do Pussy Riot e FEMEN realizam protesto contra a presença russa na Bienal de Veneza.

Defesa da fundação e o embate com o governo

O presidente da Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, tem sido o principal defensor da permanência russa no evento. Em suas declarações, Buttafuoco sustenta que as regulamentações da Bienal de Arte são claras e determinam que qualquer nação que mantenha relações diplomáticas com a Itália possui o direito inalienável de participar. Essa postura, contudo, tem colocado a fundação em rota de colisão direta com o governo italiano, que detém a supervisão sobre a instituição. Embora tenha havido pressão para que a direção da Bienal recuasse, o governo, até o momento, optou por não intervir diretamente, evitando a demissão de Buttafuoco ou a reversão da decisão de inclusão.

Incertezas sobre o futuro e financiamento

A situação levanta dúvidas significativas sobre como a Bienal de Veneza lidará com a Rússia em outros braços de sua organização. No caso do Festival de Cinema de Veneza, a política adotada desde o início da guerra na Ucrânia tem sido rigorosa, com a proibição de aceitar filmes que possuam vínculos diretos com o governo russo. Ainda não está claro se o mesmo princípio de “neutralidade” aplicado à Bienal de Artes será estendido ao festival de cinema, criando uma expectativa sobre possíveis mudanças de diretrizes.

Além das questões políticas, a participação russa traz consequências financeiras concretas. A Bienal de Veneza corre o risco de perder cerca de 2 milhões de euros (aproximadamente 2,5 milhões de dólares) em financiamento proveniente de fundos da União Europeia destinados às artes e à cultura. A fundação já iniciou um processo de apelação contra a decisão da UE, tentando reverter o corte de verbas que pode comprometer suas operações futuras.

Renúncias e o descontentamento do júri

A insatisfação com a presença russa não se restringe apenas aos grupos ativistas. Na semana anterior ao protesto, o júri responsável pela concessão dos prêmios Leão de Ouro da Bienal de Arte tomou uma decisão drástica: todos os membros renunciaram aos seus cargos. O motivo central foi o protesto contra a participação da Rússia e de Israel no evento. Em um comunicado oficial, os jurados foram enfáticos ao declarar que não estariam dispostos a conceder prêmios a países que, no momento, são alvos de investigações por violações de direitos humanos conduzidas pelo Tribunal Penal Internacional. Esse movimento de renúncia coletiva sublinha a profunda divisão que o cenário geopolítico atual impõe às instituições culturais, que se veem pressionadas a equilibrar a tradição de universalidade da arte com a responsabilidade ética diante de conflitos armados e crises humanitárias globais.

Fonte: Variety