Quando Guillermo del Toro desembarcou em Cannes há duas décadas para a estreia de O Labirinto do Fauno, suas expectativas eram notavelmente baixas. Longe de antecipar um triunfo cinematográfico que definiria sua carreira, o cineasta mexicano preparava-se para o que ele acreditava ser uma recepção morna, ou pior, o completo silêncio da crítica e do público. O filme, uma fantasia sombria e visualmente deslumbrante ambientada na Espanha sob o regime franquista, foi o resultado de um processo de produção exaustivo. O projeto exigiu anos de esforços para garantir o financiamento necessário, enfrentou desafios brutais durante as filmagens e, em um esforço final de logística, foi concluído e enviado para a exibição no festival quase no limite do prazo.


A situação era agravada pelo cronograma do festival. O Labirinto do Fauno foi escalado como o último filme a ser exibido na competição oficial daquele ano. Del Toro recorda com clareza o clima de esvaziamento nos corredores do evento. “Grande parte da imprensa já estava partindo”, comentou o diretor em entrevista ao The Hollywood Reporter, durante seu retorno a Cannes em maio de 2026, onde apresentou uma nova restauração em 4K como o filme de abertura da prestigiada seleção Cannes Classics. O cineasta confessa que, na época, questionava-se sobre quantas pessoas estariam dispostas a comparecer a uma sessão no último dia do festival. No entanto, ao chegar ao local, a realidade superou qualquer previsão: a sala estava completamente lotada.
O que ocorreu após os créditos finais tornou-se parte indissociável da lenda do festival. O filme foi recebido com uma ovação que del Toro descreve como “uma explosão de aplausos, a mais intensa e emocional que já recebi em toda a minha vida”. O registro daquele momento permanece nos anais de Cannes como um recorde absoluto: 23 minutos ininterruptos de aplausos. “Vinte e três minutos é tempo suficiente para um deslocamento”, brincou o diretor durante a apresentação no Debussy Theatre, no dia 12 de maio de 2026, comparando a duração da ovação ao tempo que alguém leva para ir do escritório para casa.
Del Toro admite que não estava preparado para tamanha demonstração de afeto. “O Festival de Cannes costuma ser um ambiente muito circunspecto”, explicou. “Ou você não recebe reação alguma, ou recebe uma reação agressiva. É extremamente raro ver o público reagindo de forma tão sonora e emocional à tela, e sentir que essa energia cresce gradualmente.” Naquele momento, sob o peso daquela aclamação, o diretor sentiu-se incapaz de processar a magnitude do que estava acontecendo. “Apesar da minha aparência robusta, não estou acostumado à adulação; é muito difícil para mim aceitar o amor”, confidenciou ao público. Foi seu amigo e colaborador Alfonso Cuarón, presente na ocasião, quem o ajudou a ancorar-se no momento: “Deixe entrar. Deixe o amor entrar”, aconselhou Cuarón.
A trajetória até aquele instante de consagração foi, segundo o próprio del Toro, uma das mais árduas de sua trajetória profissional. “Esta foi a segunda pior experiência de filmagem da minha vida”, revelou durante o evento, fazendo uma comparação direta com a produção de Mimic, que ele descreveu como a pior de todas devido aos conflitos com os irmãos Weinstein. A pré-produção de O Labirinto do Fauno foi marcada por uma rejeição generalizada — “ninguém queria financiar o projeto” — e a produção em si foi um acúmulo de obstáculos técnicos e logísticos. “Foi um período difícil na pré-produção, difícil na produção e difícil na pós-produção. Tudo foi um desafio”, relembrou.
O filme que finalmente chegou a Cannes era uma obra singular, distinta de tudo o que competia naquele ano. Ambientado em 1944, logo após a Guerra Civil Espanhola, a trama acompanha Ofelia, uma jovem que se muda com sua mãe grávida para viver com seu novo padrasto, um capitão franquista de extrema brutalidade, interpretado por Sergi López. Nas florestas labirínticas que cercam o posto militar, Ofelia encontra um fauno que lhe revela sua verdadeira identidade como uma princesa de um reino encantado. Para retornar ao seu mundo, ela deve completar três tarefas perigosas. Del Toro entrelaça essas missões mágicas com a luta real e clandestina dos republicanos espanhóis, sugerindo — um tema recorrente em sua filmografia — que a imaginação não é apenas uma fuga, mas uma forma vital de resistência contra a opressão.
Ao retornar a Cannes duas décadas depois, a mensagem do filme parece ter ganhado uma nova camada de urgência. Em um mundo onde as tensões políticas e o ressurgimento de ideologias autoritárias ocupam o centro do debate público, a fábula de del Toro sobre a escolha entre a obediência cega e a autonomia criativa ressoa com uma força renovada. O diretor enfatiza que a restauração 4K não serve apenas para preservar a qualidade técnica da obra, mas para garantir que o diálogo entre a fantasia e a realidade histórica continue acessível às novas gerações. A restauração permite que os detalhes minuciosos do design de produção, a textura das criaturas e a fotografia sombria sejam apreciados com a clareza pretendida originalmente, reafirmando o valor do cinema como um espelho da condição humana.
A presença de del Toro em Cannes 2026, celebrando o legado de O Labirinto do Fauno, serve como um lembrete do poder transformador do cinema. O que começou como um projeto que ninguém queria financiar, marcado por dificuldades extremas e uma estreia incerta, transformou-se em um pilar da cultura cinematográfica mundial. A ovação de 23 minutos não foi apenas um reconhecimento de um filme bem feito, mas uma validação de uma visão artística que se recusou a ceder às pressões comerciais ou às expectativas convencionais. Ao revisitar o filme, o público é convidado a mergulhar novamente no labirinto de Ofelia, não apenas para testemunhar uma história de fantasia, mas para refletir sobre a coragem necessária para manter a humanidade e a criatividade vivas em tempos de escuridão.
O cineasta, ao olhar para trás, reconhece que a jornada de O Labirinto do Fauno é um testemunho da resiliência do artista. Ele destaca que, apesar de todos os contratempos, a visão central do filme permaneceu intacta, protegida pela convicção de que a arte deve ser um ato de desafio. A restauração, portanto, é mais do que um exercício técnico; é uma reafirmação de que as histórias que criamos possuem uma vida própria, capaz de sobreviver às dificuldades de sua criação e de continuar a inspirar, emocionar e provocar reflexões profundas décadas após sua primeira exibição. O retorno a Cannes, o palco onde tudo mudou, é o fechamento de um ciclo que consolida O Labirinto do Fauno não apenas como um clássico do cinema fantástico, mas como um documento histórico sobre a importância da imaginação como a última linha de defesa contra a tirania.
Fonte: THR