O lendário ator John Wayne, ícone absoluto do gênero Western, completaria 119 anos nesta data. Embora sua trajetória tenha sido interrompida por complicações de saúde, o legado deixado pelo artista permanece como um dos pilares fundamentais da história do cinema. Entre as dezenas de produções que estrelou, sua última performance em O Pistoleiro, lançado em 1976 e dirigido por Don Siegel, destaca-se não apenas pelo encerramento de uma carreira de cinco décadas, mas por conter uma das falas mais emblemáticas da sétima arte.





Baseado no romance homônimo de Glendon Swarthout, publicado em 1975, o filme narra a história de J.B. Books, um famoso pistoleiro que chega a Carson City, em Nevada, no início do século XX. O personagem, interpretado por John Wayne, descobre que está com câncer terminal, uma situação que espelha, em certa medida, a própria realidade enfrentada pelo ator na época. A narrativa explora o declínio do Velho Oeste, um período em que o estilo de vida dos pistoleiros começava a ser substituído por inovações tecnológicas como automóveis e telefones.
A filosofia de vida de J.B. Books em O Pistoleiro
Ao se instalar em uma pensão administrada por Bond Rogers, vivida por Lauren Bacall, e seu filho Gillom Rogers, interpretado por Ron Howard, o protagonista estabelece limites claros para sua convivência. É nesse momento que o roteiro entrega uma das frases mais memoráveis do cinema: “Eu não serei injustiçado. Eu não serei insultado. Não permitirão que coloquem a mão em mim. Eu não faço essas coisas com outras pessoas e exijo o mesmo delas”.
Essa declaração não apenas define a personalidade de J.B. Books, mas sintetiza o código moral presente em praticamente todos os heróis interpretados por John Wayne ao longo de sua carreira. Seja como soldado, homem da lei ou fazendeiro, o ator sempre encarnou figuras que agiam com retidão e que, quando forçadas a recorrer à violência, o faziam apenas como resposta a uma perturbação da paz. Personagens como Ethan Edwards, de Rastros de Ódio, ou o xerife John T. Chance, de Onde Começa o Inferno, compartilham essa mesma ética inabalável.
Bastidores da produção e a escolha de John Wayne
A escolha de John Wayne para o papel principal em O Pistoleiro não foi imediata. Antes de chegar ao ator, o projeto foi oferecido a nomes como Paul Newman, Charles Bronson, Gene Hackman e Clint Eastwood, que recusaram o convite. Segundo o livro John Wayne: American, de Randy W. Roberts, o próprio Wayne expressou um forte desejo de interpretar o personagem, sentindo uma conexão pessoal com o roteiro e lamentando ter recusado o papel principal em O Pistoleiro, de 1950, que tinha semelhanças temáticas.
A dedicação de Wayne ao cinema ia além da atuação. Em O Álamo, por exemplo, o ator investiu 1,5 milhão de dólares do próprio bolso para garantir a realização do projeto, chegando a hipotecar suas casas e usar seus carros como garantia para obter empréstimos, após o presidente da Republic Pictures, Herbert Yates, se recusar a financiar a produção integralmente. Esse comprometimento demonstra a crença inabalável do artista em suas visões criativas, mesmo diante de grandes riscos financeiros.
A luta pessoal de John Wayne contra o câncer
A trajetória de John Wayne foi marcada por uma batalha pública contra o câncer. Diagnosticado com câncer de pulmão em 1964, o ator passou por uma cirurgia para remover o pulmão esquerdo e duas costelas. Contrariando conselhos de amigos e associados que temiam que a revelação da doença pudesse prejudicar sua carreira, Wayne tornou o diagnóstico público. Ele chegou a ser declarado livre da doença cinco anos depois, participando inclusive de estudos sobre vacinas contra o câncer, mas a enfermidade retornou na década de 1970, levando ao seu falecimento em 11 de junho de 1979.
Essa resiliência pessoal refletia-se em sua postura no set de filmagem. Mesmo enfrentando dores e limitações físicas, o ator manteve o profissionalismo e a confiança que marcaram sua carreira. Em momentos de conflito, como durante as filmagens de No Tempo das Diligências ou outros dramas de guerra, Wayne não hesitou em defender sua dignidade, chegando a abandonar sets quando sentia que estava sendo desrespeitado por colaboradores, como ocorreu em episódios envolvendo o diretor John Ford.
O legado duradouro de um ícone do Western
A recepção crítica de O Pistoleiro foi positiva, resultando em indicações ao Oscar e ao BAFTA, o que consolidou o filme como uma despedida digna para um dos maiores nomes da história de Hollywood. A obra permanece como um testemunho da capacidade de Wayne em transitar entre o espetáculo visual e a profundidade narrativa, características que definiram o gênero Western durante décadas.
Para os fãs do gênero, a obra é um lembrete de como o cinema pode capturar a essência de um homem e de uma era. A performance final de John Wayne não é apenas uma atuação, mas uma reflexão sobre a mortalidade, a honra e a integridade. O ator, que começou sua carreira na era do cinema mudo em 1926, deixou um legado que continua a influenciar gerações de cineastas e espectadores, mantendo viva a chama de um estilo de narrativa que, embora tenha evoluído, ainda encontra eco nas produções contemporâneas que buscam explorar a complexidade humana em cenários de fronteira.
A importância de O Pistoleiro reside na forma como o filme lida com o fim de uma era. Assim como J.B. Books, John Wayne enfrentou o ocaso de sua vida com coragem, sem nunca abrir mão de seus princípios. A trajetória do ator, marcada por sucessos, polêmicas e uma dedicação incondicional ao trabalho, permanece como um objeto de estudo fascinante para historiadores do cinema e admiradores de sua obra, garantindo que o nome de John Wayne continue sendo sinônimo de força e determinação nas telas.
Fonte: Movieweb