Joan Collins e Isabella Rossellini estrelam o drama My Duchess

As atrizes veteranas discutem carreira, moda e a sobrevivência feminina no cinema ao apresentarem o novo filme sobre os anos finais de Wallis Simpson no Festival de Cannes.

A atmosfera do Festival de Cannes de 2026 foi inegavelmente elevada pela presença de duas das figuras mais emblemáticas da história do cinema mundial: Joan Collins e Isabella Rossellini. As atrizes, que representam diferentes épocas e estilos da sétima arte, uniram forças para o lançamento de My Duchess, um drama que levou décadas para ser concretizado e que explora os anos finais, frequentemente trágicos e solitários, da vida de Wallis Simpson, a mulher que mudou o curso da monarquia britânica ao se casar com o Rei Eduardo VIII.

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O Brilho da Era de Ouro em Cannes

Joan Collins, aos 92 anos, protagonizou um momento de pura nostalgia e elegância no tapete vermelho. Em um festival que, segundo observadores, parecia carecer de seu brilho habitual, a atriz trouxe uma energia que remete ao auge de Hollywood. Vestindo um deslumbrante traje customizado da Stéphane Rolland Haute Couture — um vestido de orquídea branca com uma cauda dramática, complementado por luvas pretas de ópera e joias de diamantes —, Collins provou que a sofisticação é atemporal. O visual, que incluía sapatos de salto agulha incrustados, evocava a inesquecível Alexis Carrington, a vilã icônica de Dynasty que, nos anos 80, definiu o vocabulário de moda de toda uma geração.

“Foi extremamente emocionante. Minha equipe de beleza cuidou de tudo, do cabelo à maquiagem”, comentou Collins sobre a experiência. A atriz, que mantém uma postura impecável, não se deixou intimidar pela pressão do evento. Ao contrário de muitas estrelas contemporâneas que dependem de empréstimos de joalherias sob rígida vigilância de seguranças, Collins fez questão de usar suas próprias peças. “Eu usei minhas próprias joias na noite passada. Não queria um segurança me seguindo por toda parte, que é o que acontece quando eles te emprestam algo para usar”, explicou, reforçando sua independência e autonomia.

Isabella Rossellini: O Contraponto Boêmio

Enquanto Collins abraçou o glamour clássico, Isabella Rossellini optou por uma abordagem mais contida e boêmia. Vestindo um conjunto de padrões em preto e branco com detalhes em laranja vibrante e mantendo seu característico corte de cabelo curto, Rossellini trouxe uma perspectiva diferente sobre a fama. Diferente de sua colega de elenco, ela optou por não desfilar pelo tapete vermelho principal.

“Eu realmente acho muito intimidador”, confessou Rossellini. “É uma produção gigantesca hoje em dia. Não é como quando minha mãe, Ingrid Bergman, ia ao Oscar. Ela usava suas próprias joias, talvez algo especial que meu pai tivesse comprado para ela.” Essa honestidade sobre a evolução da indústria cinematográfica e o espetáculo em que se transformaram as estreias reflete a visão de uma artista que, embora pertença a uma linhagem cinematográfica lendária, prefere a autenticidade à performance exigida pelo marketing moderno.

Uma Conexão Histórica e Profissional

A química entre Collins e Rossellini durante as entrevistas em Cannes revelou uma amizade genuína, apesar de My Duchess ser a primeira colaboração formal entre as duas. A conversa entre elas fluiu naturalmente, atravessando décadas de histórias de bastidores. Em um momento revelador, Collins relembrou uma conexão quase esquecida com o pai de Isabella, o renomado cineasta Roberto Rossellini.

“Seu pai e eu quase trabalhamos juntos”, revelou Collins, mergulhando em uma anedota sobre o drama de 1957, Sea Wife, no qual ela contracenou com Richard Burton. Roberto Rossellini havia sido contratado originalmente para dirigir o projeto. Segundo Collins, houve um conflito criativo significativo entre o diretor e o lendário produtor Darryl Zanuck. “Roberto brigou com Zanuck por causa da minha personagem, que era uma freira. Ele queria que ela tivesse uma relação sexual com o personagem de Richard Burton. Ele dizia que isso traria humanidade à trama, mas os estúdios da época tinham visões muito mais conservadoras”, relembrou a atriz, ilustrando as dificuldades enfrentadas por mulheres e cineastas visionários em uma era de censura rígida.

A Essência de ‘My Duchess’

O filme My Duchess não é apenas um projeto de prestígio; é o resultado de uma persistência notável. Joan Collins perseguiu a ideia de contar a história de Wallis Simpson por trinta anos. A narrativa foca no período pós-morte do Duque de Windsor, em 1972, quando a Duquesa, já fragilizada, tornou-se prisioneira de sua própria advogada, Suzanne Blum. O filme explora temas de isolamento, manipulação e a sobrevivência feminina em um mundo que, após a perda de seu status real, passou a vê-la apenas como um objeto de curiosidade mórbida.

A performance de Collins é descrita por críticos e pela própria Rossellini como despida de vaidade. A atriz, que construiu uma carreira baseada na imagem de mulher forte e glamorosa, aceitou o desafio de interpretar a decadência física e mental de Simpson, um papel que exige vulnerabilidade extrema. Rossellini, que interpreta a advogada controladora, elogiou a entrega de sua colega, destacando que a ausência de artifícios na atuação de Collins é o que torna o filme uma obra visceral e necessária.

Reflexões sobre a Longevidade

A presença de ambas em Cannes serve como um lembrete poderoso da longevidade no cinema. Em uma indústria que frequentemente marginaliza atrizes à medida que envelhecem, Collins e Rossellini continuam a ditar o ritmo, escolhendo projetos que desafiam as expectativas do público. Para Collins, o papel de Wallis Simpson é uma forma de confrontar a imprensa e o público que, durante décadas, a rotularam negativamente devido aos seus papéis de “mulher fatal”.

“Eu não vou dizer como eu estava, mas você pode ler o que escreveram”, brincou Collins ao ser questionada sobre sua aparência no festival, demonstrando que, mesmo aos 92 anos, ela mantém o controle total sobre sua narrativa. Enquanto o mercado de cinema internacional, representado pela Embankment Films, busca por produções que tragam substância e profundidade, My Duchess surge como um farol, provando que as histórias de mulheres complexas, contadas por atrizes que viveram a história do cinema, possuem um valor inestimável. A colaboração entre Collins e Rossellini não é apenas um evento de Cannes; é um testemunho da resiliência artística e da capacidade de reinvenção que define as verdadeiras lendas da tela grande.

Fonte: THR