A série It: Welcome to Derry, produzida pela HBO Max, apresenta uma abordagem de terror que, embora compartilhe premissas com Stranger Things, consegue estabelecer um escopo narrativo significativamente mais amplo e imersivo. Enquanto a produção da Netflix começou como um mistério contido em uma pequena cidade, com a intenção original de ser uma minissérie independente, a obra baseada no universo de Stephen King já nasce com uma estrutura planejada que explora séculos de mitologia. A comparação entre as duas produções revela como a falta de um material de origem sólido pode impactar a coesão de uma narrativa de longo prazo.
Embora Stranger Things tenha alcançado um sucesso estrondoso, levando a Netflix a renovar a série para múltiplas temporadas e expandir o universo com livros e quadrinhos, muitos fãs apontam que o tom da produção mudou drasticamente ao longo dos anos. A quinta temporada, por exemplo, foi marcada por um orçamento recorde, mas parte do público sentiu que a série se afastou da mistura única de drama íntimo e horror sobrenatural que definiu o seu início, aproximando-se de um formato de blockbuster de ficção científica mais genérico. Em contrapartida, It: Welcome to Derry utiliza a densidade do material de Stephen King para construir uma história que se sente fundamentalmente maior e mais conectada.
A abordagem de antologia amplia a mitologia de Pennywise

A estrutura narrativa de It: Welcome to Derry é um dos seus pontos mais ambiciosos. Enquanto Stranger Things frequentemente parecia improvisar elementos de sua mitologia conforme novas temporadas eram desenvolvidas, resultando em arcos abandonados e inconsistências, a série da HBO Max se beneficia diretamente da obra literária de Stephen King. O livro original, conhecido por sua extensão, forneceu uma base rica que permitiu aos roteiristas explorar tramas que não foram totalmente abordadas nas adaptações cinematográficas anteriores. A série não apenas expande o conhecimento sobre o vilão, mas também mergulha nas origens amaldiçoadas da cidade de Derry, incluindo os primeiros ataques cometidos contra os habitantes locais.
A semelhança entre as duas produções é inegável no papel: ambas apresentam grupos de jovens adolescentes marginalizados enfrentando ameaças sobrenaturais em cenários nostálgicos. Além disso, ambas incorporam subtramas envolvendo autoridades militares que realizam experimentos secretos com a população. No entanto, a execução difere na forma como o horror é tratado. Enquanto a série da Netflix se tornou mais focada na ação e no espetáculo visual, a produção da HBO Max mantém uma atmosfera de horror lovecraftiano que se sustenta na mitologia pré-estabelecida, evitando a sensação de que a história está sendo inventada conforme avança.
Temporadas futuras prometem aprofundar o horror histórico

O anúncio de que a segunda temporada de It: Welcome to Derry irá retroceder mais três décadas para explorar um novo ciclo de alimentação de Pennywise reforça a ambição do projeto. A série planeja retornar 27 anos a cada nova temporada, o que torna o universo da obra progressivamente mais imersivo e detalhado. Esse planejamento estratégico contrasta com a trajetória de outras produções de streaming, como a recente adaptação de One Piece, que também busca fidelidade ao material original para manter a coesão narrativa. Ao estabelecer um cronograma claro, a série consegue manter a consistência que muitas vezes se perde em produções que dependem exclusivamente da audiência imediata.
Os filmes anteriores já haviam retratado a derrota final de Pennywise na década de 2010 e o confronto do Losers Club nos anos 80. A primeira temporada da série focou nos eventos dos anos 60, servindo como um prelúdio direto para a história que o público já conhece. Agora, a segunda temporada tem o desafio de explorar os anos 30, preenchendo lacunas importantes na cronologia da entidade. Essa estrutura de antologia permite que a série se mantenha fresca, evitando a estagnação de personagens e cenários, ao mesmo tempo em que aprofunda o impacto do horror na cidade de Derry.
A capacidade de It: Welcome to Derry em manter uma narrativa coesa enquanto expande seu escopo é um diferencial importante no cenário atual de séries de horror. Enquanto Stranger Things se tornou um fenômeno cultural que, por vezes, sacrificou sua essência em prol da escala, a nova série da HBO Max demonstra que é possível ser ambicioso sem perder a identidade. A fidelidade ao material de Stephen King e o planejamento de longo prazo garantem que a série não apenas conte uma história de terror, mas construa um legado que se sustenta por si só, independentemente das tendências passageiras do mercado de streaming.
Ao final, a comparação entre as duas obras destaca a importância do planejamento narrativo. Enquanto a série da Netflix enfrentou críticas pelo desvio de tom em suas temporadas finais, a produção da HBO Max se posiciona como uma alternativa mais estruturada e focada. Para os fãs de horror, a promessa de explorar as décadas passadas de Derry oferece uma experiência mais rica e consistente, provando que, quando se trata de contar histórias sobrenaturais de longa duração, ter um mapa claro do destino é tão importante quanto a qualidade da produção visual.
Fonte: ScreenRant