Embora os filmes de Hercule Poirot dirigidos por Kenneth Branagh sejam produções que entregam entretenimento, eles raramente conseguem capturar a faceta sombria presente em algumas obras de Agatha Christie com a mesma eficácia que a minissérie estrelada por Sam Neill. A maioria dos filmes e séries de mistério costuma destacar sua dívida criativa com a autora, e é inegável que os livros de Poirot e Miss Marple possuem um charme peculiar. No entanto, é fundamental notar que essa visão não representa a totalidade da obra da escritora. Grande parte da produção literária de Christie é surpreendentemente obscura, misantrópica e brutal, com reviravoltas que revelam uma perspectiva pessimista sobre a natureza humana.


Para cada livro como as charmosas histórias de Tommy e Tuppence, onde um casal bem entrosado soluciona crimes em conjunto, existem romances como o livro de fase tardia de Poirot, Hallowe’en Party. O enredo desta obra é tão desolador e carente de personagens cativantes que a adaptação cinematográfica de Kenneth Branagh, A Haunting in Venice, alterou praticamente todos os elementos da história, aproveitando apenas detalhes menores após modificar o cenário, o desenvolvimento da trama e a revelação do assassino. Da mesma forma, a minissérie da BBC de 2015, And Then There Were None, adaptou o romance de 1939 de mesmo nome sem economizar na atmosfera sombria, oferecendo finalmente ao público uma versão que compartilhava o niilismo presente no material original.
And Then There Were None é mais sombria que os filmes de Poirot

Ambientada na fictícia ilha inglesa de Soldier Island, And Then There Were None começa com oito pessoas que não se conhecem chegando a uma mansão remota e luxuosa, onde o anfitrião não aparece. Após uma refeição servida pelos cuidadores da mansão, uma gravação sinistra em um gramofone acusa cada um dos habitantes da ilha de cometer um assassinato. Uma sequência de mortes elimina os convidados um a um enquanto eles tentam identificar o algoz ou planejar uma fuga. Se parece que este resumo omite algo presente na maioria das adaptações de Agatha Christie, é porque realmente falta: não há um detetive heroico, profissional ou amador, para solucionar os crimes.
And Then There Were None permanece como o livro mais vendido de Christie, mas também foi o que ela apontou como o mais difícil de escrever justamente pela ausência de uma figura central de investigação. Os personagens são deixados para tatear no escuro, o que resulta em uma contagem de corpos muito superior à média das adaptações da autora. O clima de tensão constante lembra produções de suspense paranoico, como The Terminal List consolida suspense paranoico no Prime Video, onde a sobrevivência é o único objetivo real em um ambiente hostil e isolado.
Mesmo a versão de Sam Neill não é a adaptação mais sombria

Apontada como uma grande influência para filmes de terror clássicos como Bay of Blood e o original Friday the 13th de 1980, And Then There Were None é um livro sombrio e implacável, e sua adaptação de 2015 faz justiça a esse tom. A série se assemelha mais a Mindhunter ou a um suspense psicológico do que a um mistério de domingo à tarde. Mesmo um elenco estelar que inclui Sam Neill, Charles Dance, Toby Stephens, Burn Gorman e Douglas Booth não consegue aliviar o clima pesado que permeia a produção. Contudo, isso não significa que seja a adaptação mais obscura de Christie até hoje.
A produção de 2018, The ABC Murders, adaptada do romance de 1936 de Poirot, é tão sombria e desanimadora quanto possível. Assim como And Then There Were None, esta produção da BBC conta com um elenco de peso, incluindo John Malkovich como Poirot e Rupert Grint, e a série também compartilha a roteirista Sarah Phelps com o sucesso de 2015. Entretanto, a abordagem extremamente sombria para esta adaptação não foi tão eficaz quanto no caso anterior. O tom da série parece colidir com a caracterização inerentemente leve e peculiar de Poirot, tornando a experiência menos coesa.
Enquanto And Then There Were None consegue manter uma atmosfera de horror psicológico consistente, The ABC Murders sofre ao tentar forçar um detetive conhecido por sua excentricidade em um cenário de desespero absoluto. A comparação entre as duas obras demonstra que, embora Agatha Christie tenha escrito histórias de naturezas distintas, nem todas as tramas se beneficiam de uma desconstrução sombria. O sucesso de And Then There Were None reside na sua capacidade de abraçar o niilismo do material original sem precisar alterar a essência dos personagens, já que nenhum deles foi concebido como um herói infalível. Essa fidelidade ao tom original é o que torna a minissérie de 2015 uma referência superior dentro do vasto catálogo de adaptações da autora, superando as tentativas mais recentes de modernizar o detetive belga através de uma lente excessivamente pessimista.
Fonte: ScreenRant