A indústria cinematográfica chinesa enfrenta desafios estruturais significativos com a rápida integração da inteligência artificial no processo criativo. Durante o painel “Smart Tech, Immersive Worlds, The Next Film Revolution”, realizado no Shanghai International Film Festival, especialistas debateram como a computação de alto desempenho, a distribuição de conteúdo e a necessidade de ferramentas de IA mais precisas moldarão o futuro do setor.
Segundo Yan Yijun, vice-presidente da MiniMax, empresa focada em modelos fundamentais de IA, o poder computacional é o fator mais crítico para o avanço tecnológico. O executivo descreveu a infraestrutura de computação como o “núcleo absoluto” necessário para que modelos de vídeo generativo alcancem maior fidelidade. Para ele, a capacidade de repetir experimentos e treinar aspectos específicos de forma eficaz depende diretamente da escala de infraestrutura disponível para cada iteração do modelo.
A questão da distribuição também ocupa o centro das preocupações dos profissionais. Com a possibilidade de produzir filmes de fantasia épicos em poucos dias, o mercado se vê diante de uma inundação de conteúdo sem precedentes. Li Tingwei, da Bauhinia Films, destacou que o setor vive um conflito comercial real ao tentar redefinir o valor do produto em um cenário de produção quase ilimitada. O desafio, segundo o executivo, não reside apenas na criação, mas em como comercializar e distribuir esse volume massivo de obras.

Outro ponto de tensão é a natureza imprevisível da IA generativa. Nina Zheng, vice-gerente geral da ASUS China, argumentou que os cineastas não buscam apenas uma IA mais potente, mas uma ferramenta mais “obediente”. Diretores possuem visões cinematográficas completas, com exigências específicas de iluminação, emoção e estética pessoal. Quando a IA falha em executar essas instruções de forma precisa, o processo exige ajustes frequentes, o que pode frustrar a visão artística original.
Apesar das preocupações com a automação, os painelistas mantiveram um tom otimista em relação ao mercado de trabalho. A transformação nos fluxos de trabalho está criando novas funções, como assistentes de direção especializados em engenharia de prompts. Para Zheng, quanto mais avançadas se tornam as ferramentas, mais críticas se tornam as pessoas que as operam. Esse sentimento foi compartilhado por Huang Jianxin, diretor e reitor da Escola de Cinema da Universidade de Xiamen, que ressaltou a dificuldade de automatizar a arte.
Huang comparou a indústria cinematográfica a outros setores, como a produção de chá, onde a IA já substituiu milhares de funcionários com ganhos em precisão e segurança. No entanto, ele enfatizou que a criação artística é inerentemente individualista e avessa à padronização. Assim como o Monte-Carlo Television Festival reúne astros em fórum de negócios para discutir o futuro, o evento em Xangai reforçou que o choque entre artistas e máquinas é um processo natural de evolução.
O diretor defendeu que a IA está intrinsecamente ligada ao cinema, uma arte que nasceu da tecnologia e sintetiza diversas formas de expressão, como teatro, poesia e dança. Huang argumentou que, historicamente, o alto custo de produção restringiu a participação de 99% das pessoas no cinema. Nesse contexto, a IA atua como um equalizador, permitindo que jovens talentos participem da criação artística. Assim como o Steam Next Fest libera milhares de demos gratuitas na plataforma para democratizar o acesso ao desenvolvimento de jogos, a tecnologia de vídeo generativo promete abrir novas portas para a próxima geração de cineastas chineses, desde que os desafios de infraestrutura e distribuição sejam superados.
Fonte: Variety