O cineasta Guillermo del Toro expressou uma preocupação profunda com o futuro da sétima arte durante um evento realizado em Hollywood na última segunda-feira. Em uma noite dedicada à celebração de sua nomeação como membro da BFI Fellowship, o diretor de obras como O Labirinto do Fauno e A Forma da Água utilizou seu discurso para alertar sobre os perigos da inteligência artificial e da consolidação empresarial que, segundo ele, ameaçam a liberdade criativa e a própria essência do cinema.
“Estamos à beira do analfabetismo de imagem. Estamos à beira do analfabetismo cinematográfico”, declarou Guillermo del Toro para a plateia de profissionais da indústria. O cineasta, que recentemente trabalhou na adaptação de Frankenstein, enfatizou que o processo de criação artística deve permanecer fundamentalmente humano, criticando a ideia de que máquinas possam substituir a sensibilidade necessária para conectar o público através de imagens.
A ameaça da inteligência artificial ao pacto humano
Para o diretor, a relação entre o espectador e a obra cinematográfica é sagrada. Ele descreveu a inteligência artificial como uma forma de “estupidez natural”, argumentando que a existência de uma imagem não serve apenas para preencher espaço, mas para promover a conexão humana e evocar a beleza. Em um cenário de crescente polarização política global, Guillermo del Toro defende que a arte é um dos poucos elementos capazes de unir as pessoas, um papel que ele vê como ameaçado pelas novas tecnologias.
O cineasta relembrou sua trajetória, mencionando que sua conexão com o British Film Institute começou ainda na adolescência, em Guadalajara. Naquela época, ele escrevia para a instituição solicitando cópias em 16mm de filmes de diretores como Carol Reed para exibir em seu clube de cinema. Essa relação de longa data culminou na honraria recebida agora, e o diretor se comprometeu a doar um terço de seus arquivos pessoais para o acervo da organização, reforçando seu compromisso com a preservação histórica.
O papel da indústria na preservação do cinema
O evento contou com a presença de nomes influentes, incluindo Ted Sarandos, co-CEO da Netflix, que apresentou o cineasta como um dos grandes mestres modernos. Ted Sarandos recordou o início de sua colaboração com o diretor na série animada Trollhunters, destacando a capacidade única de Guillermo del Toro de construir universos visuais complexos. A importância da preservação foi reforçada por Ben Roberts, CEO da BFI, que descreveu o arquivo nacional da instituição como uma das coleções mais valiosas do mundo.
A discussão sobre o futuro da indústria também tocou na responsabilidade dos cineastas. Guillermo del Toro afirmou que, nesta fase de sua carreira, seu objetivo é retribuir à comunidade, atuando como um guardião do cinema. Ele planeja ministrar aulas sobre a genialidade dos primeiros filmes de Alfred Hitchcock, reforçando que os realizadores não devem ser apenas gatekeepers, mas sim “guardiões dos portões” para permitir que mais pessoas acessem a experiência cinematográfica.
A permanência do cinema é, para ele, um milagre. Filmes como Viagem ao Passado, de Preston Sturges, continuam a ser entidades vivas que renascem a cada nova exibição. “Esses filmes nunca são do passado. Quando alguém os vê pela primeira vez, eles são presentes”, afirmou. O cineasta comparou a situação atual da indústria a um ônibus perigosamente próximo a um precipício, onde todos precisam se inclinar para o lado correto para evitar o desastre.
O evento, organizado pela BFI America, também serviu para apoiar o Film on Film Festival, que retornará a Londres no próximo ano. A iniciativa faz parte de um esforço maior para garantir que as condições de produção e exibição continuem favoráveis à arte. Como a Academia de Cinema elege Guillermo del Toro para conselho, sua voz ganha ainda mais peso na defesa de políticas que protejam a integridade do trabalho criativo contra as pressões de automação e cortes orçamentários que frequentemente ignoram o valor cultural das obras.
Enquanto o mercado debate o uso de novas ferramentas, a posição de Guillermo del Toro permanece clara: a tecnologia não deve substituir a alma do cinema. Ao defender a importância de manter o contato humano na criação, ele convoca a indústria a valorizar o legado e a proteger o futuro da experiência cinematográfica para as próximas gerações, garantindo que o cinema continue a ser um espaço de descoberta e conexão, tal como quando ele, ainda jovem, descobria os clássicos através de rolos de filme enviados pelo correio.
Fonte: Variety