O desfecho de The Boys, a aclamada e controversa série do Prime Video, entrega uma conclusão que pode ser descrita como uma verdadeira colcha de retalhos de sentimentos para os fãs. Enquanto certos momentos do episódio final alcançam um nível de satisfação narrativa imenso — como o confronto derradeiro entre Butcher e Homelander, que finalmente coloca frente a frente as duas forças motrizes da série —, outros aspectos da resolução deixam um gosto amargo, como o destino clichê de Hughie e Annie, que optam por uma vida doméstica tradicional após anos de caos. A série, que ao longo de cinco temporadas dissecou a corrupção corporativa, o fanatismo e a natureza destrutiva do poder absoluto, encerra sua jornada com decisões que, embora definitivas, levantam questionamentos sobre o desenvolvimento de seus personagens principais.




Hughie retorna às origens: um retrocesso narrativo?
Em uma decisão que tem gerado debates intensos entre a audiência, Hughie opta por abandonar completamente a vida de combate aos superseres. O personagem, que foi o ponto de entrada do espectador no universo de The Boys, recusa uma posição de prestígio e poder dentro do governo, onde poderia supervisionar o departamento de combate a superseres. Em vez disso, ele escolhe retornar ao seu passado, assumindo a gestão da loja de eletrônicos onde trabalhava no episódio piloto. A comparação feita por críticos é inevitável: assim como Rick Sanchez criticou Morty por retornar ao emprego em uma loja de carpetes após viver uma vida inteira em uma simulação, o retorno de Hughie à loja de eletrônicos soa como uma negação de seu crescimento. Não se trata apenas de uma decisão financeiramente questionável no cenário de 2026, mas de um passo atrás narrativo. Embora seja compreensível o desejo de Hughie por uma vida normal, longe da violência e do trauma que definiram seus últimos anos, o fato de ele buscar exatamente a mesma vida que tinha antes de conhecer Butcher e os outros membros do grupo parece uma escolha criativa que ignora a evolução do personagem.

O destino de Sister Sage: a genialidade em Orlando
Outro ponto que gerou estranheza foi o desfecho de Sister Sage. A personagem, que foi apresentada como a pessoa mais inteligente do mundo, decide se retirar da trama principal logo no início do episódio final. Após instigar Kimiko a utilizar seu poder de explosão torácica, Sage perde sua superinteligência, revelando que tudo fazia parte de um plano arquitetado por Butcher. A importância de Sage na derrota de Homelander é inegável, já que ela foi a peça-chave para desbloquear a habilidade de Kimiko, que acabou sendo o fator determinante para retirar os poderes do vilão. No entanto, após ser libertada das amarras de sua mente hiperativa, Sage escolhe se mudar para Orlando. O roteiro utiliza essa mudança como uma piada ácida sobre a reputação da Flórida, sugerindo que uma pessoa recém-tornada comum se sentiria em casa ali. Para muitos fãs, esse final para uma personagem tão complexa e central na trama parece um desperdício, oferecendo um arco de redenção subutilizado e um destino que não faz jus à sua importância estratégica.
Kimiko e a busca por um novo propósito
Kimiko, por sua vez, termina a série na França. Embora a cena seja visualmente poética e tente honrar o legado de sua conexão com Frenchie, muitos espectadores sentiram que o desfecho foi insuficiente. Após ser a responsável direta por neutralizar os poderes de Homelander, Kimiko merecia um encerramento mais robusto, talvez algo que refletisse sua força como guerreira, em vez de um final que remete a um papel secundário. A sensação é de que, enquanto alguns personagens tiveram finais grandiosos, outros foram relegados a conclusões que parecem mais convenientes para o roteiro do que orgânicas para a trajetória que percorreram.

Starlight e o ciclo de abuso
A conclusão de Starlight (Annie) é marcada pela revelação de sua gravidez. Embora o uso da gravidez como um encerramento de arco seja um tropo recorrente em séries de televisão, no contexto de The Boys, ele serve como uma ferramenta para que a personagem finalmente rompa o ciclo de abuso imposto por sua mãe. A maternidade, aqui, é apresentada como a oportunidade de Annie criar uma vida diferente da que ela teve, longe da manipulação corporativa da Vought. Ainda assim, a previsibilidade dessa escolha narrativa reforça a sensação de que o final da série buscou caminhos mais seguros e tradicionais, contrastando com a subversão que sempre foi a marca registrada da produção.

O fim de Ashley e The Deep
A série não poupou seus personagens secundários de finais irônicos. Ashley, que passou a série inteira tentando manter o controle de uma situação impossível, acaba destituída de seu cargo e detida pelo FBI, um fim que reflete a instabilidade de sua posição na Vought. Já o destino de The Deep é talvez um dos mais brutais e, ao mesmo tempo, poéticos da série. Ele é atacado pelas próprias criaturas marinhas que ele alegava proteger e com as quais mantinha uma relação de exploração e abuso. É o pagamento final por sua lealdade cega a Homelander e por sua hipocrisia constante, fechando seu arco com a ironia que a série sempre cultivou.

Butcher e Homelander: o confronto final
O ponto alto, e talvez o mais satisfatório de todo o encerramento, é a queda definitiva de Homelander. Ver o vilão, que durante cinco temporadas foi a personificação do poder inquestionável e da crueldade, reduzido a um estado patético e impotente, implorando pela vida aos pés de Butcher, é o clímax que a série prometeu desde o início. Butcher, mantendo sua natureza implacável e movido por um ódio que consumiu sua vida, acaba encontrando seu fim após um confronto final com Hughie. A intervenção de Hughie para impedir que Butcher cometesse um genocídio de superseres adiciona uma camada de complexidade moral ao desfecho, encerrando o ciclo de violência que definiu a relação entre os dois protagonistas desde o primeiro episódio. É um final que, apesar das críticas aos arcos individuais, entrega a catarse necessária para o embate principal da série.

Em suma, o final de The Boys é uma mistura de acertos e decepções. Enquanto a série consegue entregar um desfecho impactante para seus antagonistas e protagonistas, a escolha de caminhos mais convencionais para outros personagens deixa uma sensação de que o potencial para uma conclusão mais ousada foi, em parte, desperdiçado. A série deixa um legado de crítica social e subversão, mas seu encerramento será lembrado tanto pelos momentos de glória quanto pelas escolhas narrativas que, para muitos, não alcançaram a altura da jornada que a precedeu.
Fonte: ScreenRant