Muito além de uma simples produção de super-herói, Spider-Noir abriu uma janela para um gênero cinematográfico tradicionalmente distante do universo ocupado pelos personagens da Marvel. Existe uma divisão clara entre o mundo dos heróis fantasiados e a estética sombria do cinema noir, mas a série do Prime Video, estrelada por Nicolas Cage, conseguiu unir esses dois mundos ao reimaginar o Spider-Man em um cenário inspirado por uma era clássica da história do cinema. O sucesso da produção, que mantém uma aprovação de 91% no Rotten Tomatoes, deve-se em grande parte à novidade do conceito, já que poucas histórias de super-heróis em live-action se comparam ao material de base da série.
Embora o público possa ter dificuldade em encontrar séries exatamente iguais a Spider-Noir, o gênero que inspirou sua criação é vasto e repleto de opções interessantes para explorar. Muitos dos elementos que tornam a série do Prime Video tão eficaz, como os diálogos afiados, a atmosfera densa, os temas sombrios e os arquétipos de personagens — desde a cantora de boate misteriosa até o detetive particular cínico —, estão presentes em uma longa lista de filmes clássicos. Conhecer essas obras é um passo natural após finalizar a primeira temporada da série, como detalhado em Spider-Noir conquista público e lidera audiência no Prime Video.
The Big Heat traz detetive em busca de vingança

Com uma carga de ação superior à maioria dos filmes do gênero, The Big Heat, de 1955, é uma recomendação certeira para quem gostou da estética de Spider-Noir. No filme, Glenn Ford interpreta um detetive comum que vê sua vida desmoronar após o assassinato de sua esposa, uma retaliação por ele insistir na investigação de um caso de suicídio suspeito. O evento transforma a narrativa, elevando o longa de um filme de investigação para uma história de vingança implacável.
Glenn Ford entrega uma atuação poderosa como um homem consumido pelo ódio. Assim como ocorre com o protagonista de Spider-Noir, o detetive Dave Bannion não se vê como um herói tradicional, nem age como tal, mas a audiência acaba torcendo por ele em sua busca por justiça. Apesar da postura endurecida, o filme deixa claro que ainda existe humanidade em suas motivações, um traço que ressoa com a complexidade moral vista na série atual.
The Maltese Falcon é a referência máxima do gênero
Entre todos os filmes que provavelmente influenciaram o processo criativo de Spider-Noir, nenhum se destaca tanto quanto The Maltese Falcon. Não é surpresa, considerando que o longa de 1941 é visto por historiadores como o santo graal do cinema noir. Dirigido por John Huston, o filme acompanha o detetive particular Sam Spade, interpretado por Humphrey Bogart, enquanto ele investiga a morte de seu parceiro e se envolve na busca por um artefato valioso.
Segundo Nicolas Cage, sua interpretação de Ben Reilly foi inspirada em cerca de 70% pelo estilo de Humphrey Bogart. Essa influência é evidente na forma como o ator conduz seus papéis, especialmente em The Maltese Falcon. A ironia e a confiança de Bogart como Sam Spade geraram diálogos memoráveis, como o monólogo sobre a responsabilidade de um detetive após a morte de um parceiro: “Quando o parceiro de um homem é morto, ele deve fazer algo a respeito. Não importa o que você pensava dele. Ele era seu parceiro, e é um mau negócio deixar o assassino escapar”. A interação de Ben Reilly em Spider-Noir ecoa diretamente essa postura de Bogart.
Key Largo reúne ícones do cinema clássico

The Maltese Falcon é apenas um dos clássicos estrelados por Humphrey Bogart. O humor seco e a propensão do ator para interpretar personagens sombrios fizeram dele um pilar do gênero. Outro exemplo notável é Key Largo, onde ele contracena com Lauren Bacall em uma trama sobre um grupo de pessoas feitas reféns por um gângster durante uma tempestade. Além de Bogart, o elenco de Key Largo impactou diretamente a construção de Spider-Noir.
A persona de Lauren Bacall foi citada como influência para a personagem Cat Hardy, enquanto Edward G. Robinson, um dos maiores atores de papéis de gângster da história, brilha como o vilão do filme. Nicolas Cage, inclusive, faz uma imitação impressionante de Robinson em cenas de Spider-Noir ao interrogar policiais. Em Key Largo, o espectador tem a oportunidade de ver três ícones do cinema noir em plena forma, consolidando o filme como uma aula de atuação e atmosfera.
Laura e a complexidade do mistério noir

O filme Laura traz Dana Andrews como o detetive Marc McPherson, encarregado de investigar o assassinato de uma socialite popular chamada Laura Hunt, interpretada por Gene Tierney. O que começa como um mistério de assassinato padrão rapidamente se torna complexo quando se descobre que, embora alguém tenha morrido, Laura está viva. McPherson precisa encontrar o verdadeiro assassino antes que ele tente corrigir o erro e eliminar a vítima real.
O longa também conta com o ícone do horror Vincent Price em um de seus primeiros papéis, interpretando Shelby Carpenter, um dos suspeitos. Laura é considerado um dos maiores filmes noir de todos os tempos, não apenas pelo roteiro, mas pelo cinismo dos personagens. Frases como “Eu ficaria sinceramente triste em ver os filhos dos meus vizinhos devorados por lobos” exemplificam o tom ácido da obra. Esse mesmo cinismo é um componente essencial do charme de Spider-Noir, provando que as raízes do gênero continuam vivas na cultura pop atual, como discutido em Marvel’s Wolverine confirma universo compartilhado com Spider-Man.
Onde assistir aos clássicos do Noir no Brasil

Para os espectadores brasileiros que desejam mergulhar nas referências que moldaram a estética de Spider-Noir, a disponibilidade desses títulos no mercado nacional varia conforme as plataformas de streaming. Filmes como The Maltese Falcon e Key Largo frequentemente integram o catálogo de serviços especializados em cinema clássico ou locadoras digitais como Apple TV e Google Play, que permitem o aluguel individual de obras da era de ouro de Hollywood. A Warner Bros.., detentora de grande parte desse acervo, costuma rotacionar esses títulos em plataformas como Max, sendo essencial verificar a disponibilidade atualizada no catálogo local.
Impacto cultural e o futuro da franquia
A aposta do Prime Video em um tom noir para o universo do Homem-Aranha sinaliza uma mudança estratégica na forma como a Marvel gerencia suas propriedades intelectuais fora do MCU tradicional. Ao distanciar-se da fórmula de ação frenética e adotar o ritmo investigativo e a paleta de cores dessaturada, a produção não apenas atrai um público mais maduro, mas também revitaliza o interesse por gêneros que pareciam confinados aos arquivos da história do cinema. Esse movimento de curadoria cultural, que convida o espectador a revisitar clássicos como Laura e The Big Heat, fortalece a marca Spider-Noir como um produto de prestígio, capaz de dialogar com cinéfilos e fãs de quadrinhos simultaneamente, garantindo uma longevidade baseada na qualidade narrativa e na profundidade temática.
Fonte: ScreenRant