O Festival de Cannes vive momentos de grande efervescência nesta edição de 2026, com a exibição de duas produções que dominaram as conversas na Croisette. O drama familiar Fjord, dirigido pelo aclamado cineasta romeno Cristian Mungiu, e o novo longa de Nicolas Winding Refn, intitulado Her Private Hell, foram recebidos com longas e intensas ovações pelo público presente no Palais des Festivals, consolidando-se como os grandes destaques do momento.



Fjord: O drama que paralisou a plateia
O sétimo longa-metragem de Cristian Mungiu a estrear no prestigiado festival, Fjord, surge com força total na corrida pela Palma de Ouro. O filme narra a trajetória de um casal, interpretado por Sebastian Stan e Renate Reinsve, que assume o papel de figuras religiosas evangélicas e pais de cinco filhos. A trama se desenrola a partir de um pesadelo burocrático e angustiante envolvendo o serviço social norueguês, que coloca a estrutura familiar em xeque.
Durante a exibição oficial no Grand Théâtre Lumière, a plateia permaneceu em um silêncio absoluto, capturada pela tensão da narrativa. Em contraste, na sessão de imprensa realizada duas horas antes, jornalistas foram ouvidos reagindo com suspiros e risos de descrença diante de cada nova camada de burocracia que ameaçava o casal protagonista. Ao final da exibição, o público explodiu em uma ovação de quase dez minutos, a recepção mais entusiasmada registrada até o momento no festival.
O momento foi marcado por emoção, com Sebastian Stan visivelmente comovido, alternando entre a incredulidade e lágrimas. A aclamação foi tão intensa que o diretor do festival, Thierry Frémaux, teve dificuldades em encerrar as homenagens para dar início à sessão seguinte, a estreia de Her Private Hell. Em um discurso, Mungiu, que já venceu a Palma de Ouro em 2007 com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, afirmou: “Este é o momento da verdade para cada filme. É quando saberemos, daqui a 20 anos, se o filme é bom”. A plateia, que incluía nomes de peso como Sharon Stone, Carla Bruni, Demi Moore e Stellan Skarsgard, respondeu com gritos de “Bravo!” e até manifestações políticas, como pedidos por “Palestina Livre”.
Her Private Hell e a expectativa em Cannes
Paralelamente, a estreia de Her Private Hell, de Nicolas Winding Refn, também atraiu olhares atentos. O filme, que traz elementos de assassinatos brutais e conflitos familiares intensos, foi recebido com uma ovação de sete minutos. O longa conta com a presença de Charles Melton, que tem sido um dos nomes mais comentados do cinema recente, em uma performance que reforça sua ascensão meteórica após o sucesso de May December.
A logística para assistir a essas obras foi um desafio à parte. Estudantes portadores dos crachás “Three Days in Cannes” enfrentaram filas desde as 10h da manhã, sob a primeira tempestade de chuva do festival, para garantir um lugar nas sessões. O esforço coletivo do público e a qualidade das produções apresentadas reafirmam o papel de Cannes como o epicentro da cultura cinematográfica mundial. Com Fjord, Mungiu busca agora se juntar ao seleto grupo de diretores que conquistaram a Palma de Ouro por duas vezes, um feito que será definido no encerramento do evento no próximo sábado.