O renomado diretor belga Lukas Dhont, cuja sensibilidade artística já conquistou plateias ao redor do mundo, está prestes a estrear seu mais novo e ambicioso projeto cinematográfico: Coward. O filme, que marca uma mudança significativa em sua trajetória, é um drama romântico ambientado no cenário devastador das trincheiras da Primeira Guerra Mundial. A gênese deste projeto ocorreu de forma curiosa e inesperada, quando Dhont se deparou com uma série de fotografias históricas em preto e branco. Nelas, soldados apareciam encenando espetáculos teatrais para seus companheiros de farda, uma tentativa de manter a sanidade e o espírito em meio ao horror do conflito. Nessas apresentações, os homens assumiam papéis diversos, desde dançarinos de can-can até esposas apaixonadas ou mães em luto, utilizando o crossdressing como uma ferramenta de expressão e alívio cômico.


Um olhar inédito sobre a história
Em entrevista realizada via Zoom pouco antes da estreia mundial do filme no Festival de Cannes, Dhont compartilhou o impacto que essas imagens tiveram em sua visão criativa. “É uma parte da história que eu nunca tinha visto retratada antes”, afirmou o cineasta. Essa descoberta foi o ponto de partida para que suas ideias começassem a fluir. O diretor confessa ter ficado fascinado com a dualidade da cena: a imagem de homens criando uma peça de teatro enquanto, ao fundo, o som de explosões e a presença constante da morte definiam a realidade da guerra. Essa justaposição entre a arte efêmera e a brutalidade permanente é o coração pulsante de Coward.
A jornada de Pierre e Francis
A trama central do filme segue a jornada de Pierre, interpretado por Emmanuel Macchia. Pierre é um soldado belga que ingressa no exército com um idealismo que, rapidamente, é corroído pela brutalidade extrema e pela desumanização do campo de batalha. À medida que sua fé na guerra se desintegra, ele encontra em Francis, vivido por Valentin Campagne, uma conexão profunda. Francis é um colega de batalhão que, de forma resiliente, dedica-se a encenar peças teatrais de gênero fluido para elevar o moral dos soldados. O relacionamento entre os dois homens floresce como um ato de resistência emocional em um ambiente onde a vida é constantemente ameaçada.
Escala e intimidade: O desafio de Dhont
Para o cineasta de 34 anos, Coward representa um salto em termos de escopo. Conhecido por obras intimistas e focadas na psicologia dos personagens, como o drama Girl — que narra a história de uma jovem trans em busca de se tornar bailarina — e o aclamado Close, que explora a amizade entre dois adolescentes e rendeu ao diretor uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional, Dhont admite que este novo longa-metragem foi o mais desafiador de sua carreira. “Eu estava fazendo um filme de guerra, mas precisava encontrar uma maneira de manter a intimidade que eu amo nos meus trabalhos anteriores”, explica o diretor. O projeto tornou-se um exercício complexo de equilibrar elementos de produção ambiciosos com a verdade emocional dos personagens. O filme não ignora a violência, mostrando homens destruindo ou sendo destruídos, mas, ao mesmo tempo, oferece um espaço para o romance e a ternura.
Desconstruindo o conceito de heroísmo
O título do filme, Coward (Covarde), é propositalmente carregado de ambiguidade. Em um nível narrativo, o termo refere-se aos soldados que, exaustos pela carnificina e pelo caos, decidem abandonar seus postos de combate, mesmo sabendo que tal ato de deserção poderia resultar em execução sumária. Dhont questiona se esses homens seriam realmente covardes, ou se a decisão de se retirar da violência exigiria, na verdade, uma forma superior de coragem. “Eu queria examinar nossas noções de heroísmo”, reflete o diretor. Ele argumenta que, nos filmes de guerra tradicionais, a masculinidade é frequentemente retratada de forma estreita, onde lutar pelo país é visto como o único objetivo nobre, e o medo de ser rotulado como covarde tornou-se um peso que quebrou inúmeras vidas.
Relevância contemporânea
Embora o filme se passe há mais de um século, Lukas Dhont acredita que as discussões levantadas em Coward são mais urgentes do que nunca. Com conflitos ativos em regiões como a Ucrânia e o Oriente Médio, o debate sobre o serviço militar obrigatório e o dever patriótico voltou a ocupar o centro das atenções na Europa e no mundo. “Estou falando sobre o passado, mas há uma sensação de que estou contando uma história sobre algo no presente”, observa Dhont. O filme provoca o espectador a se colocar no lugar dos personagens: diante de uma guerra, qual seria a sua escolha? Você lutaria pelo seu país ou tentaria resistir ao ciclo de violência? O cineasta sugere que a resposta não é simples, mas que o questionamento é essencial para a compreensão da nossa própria humanidade.
A quebra de normas em tempos extremos
Um dos aspectos mais fascinantes de Coward é como a guerra, apesar de toda a sua destruição, cria um ambiente de isolamento onde as normas sociais rígidas da época perdem parte de seu poder constritivo. Pierre e Francis só conseguem viver seu romance porque foram lançados em uma situação tão extrema e perigosa que as convenções culturais sobre a homossexualidade, que na época eram extremamente repressivas, acabam sendo temporariamente suspensas ou ignoradas em prol da sobrevivência emocional. O filme, portanto, não é apenas um registro histórico, mas uma exploração profunda sobre como o amor pode persistir, e até mesmo florescer, nos lugares mais improváveis e hostis. Ao final, Coward se estabelece como uma obra que desafia o público a repensar o que significa ser corajoso em um mundo que, muitas vezes, exige que sejamos apenas soldados.
Fonte: Variety