O cineasta Zack Snyder é amplamente reconhecido por seus filmes inspirados em quadrinhos, que frequentemente combinam visuais altamente estilizados com representações gráficas de violência e temas adultos. Não surpreende, portanto, que o filme favorito de Snyder seja uma fantasia épica que compartilha essa estética expressionista e uma abordagem visceral: Excalibur, lançado em 1981 pelo diretor John Boorman. O cineasta descreveu essa releitura condensada da lenda do Rei Arthur como uma obra incrivelmente comovente e o ponto de encontro perfeito entre o cinema e a mitologia, tendo emulado seu estilo visual ao longo de toda a sua filmografia.

Excalibur é lembrado por suas sequências de batalha sangrentas, cinematografia deslumbrante e uma trilha sonora que incorpora composições clássicas de Richard Wagner e Carl Orff. Além de seu impacto visual, o longa foi fundamental para impulsionar a carreira de diversos atores britânicos e irlandeses que se tornariam nomes de peso na indústria, incluindo Ciarán Hinds, Patrick Stewart, Gabriel Byrne e até mesmo Liam Neeson. O ator teve um papel pequeno, porém memorável, como o imprudente, mas corajoso, Sir Gawain, um dos Cavaleiros da Távola Redonda a serviço do Rei Arthur, interpretado por Nigel Terry.
Antes de Game of Thrones, existia Excalibur
Como o título sugere, a narrativa de Excalibur concentra-se na espada mágica que um jovem Arthur retira da pedra, revelando seu destino como soberano. No entanto, o filme foge do padrão de contos de fadas onde todos vivem felizes para sempre. Pelo contrário, a obra reconta a lenda de uma maneira muito mais crua, retratando Camelot e as terras ao redor como um cenário repleto de traições, alianças frágeis, cadáveres em decomposição e violência explícita. A atmosfera é densa e reflete uma visão madura sobre o poder e a corrupção.
Grande parte do filme foi rodada em locações na zona rural da Irlanda, banhando cada cena externa em um tom cinza-esverdeado que é, simultaneamente, belo e melancólico. O uso de luzes filtradas por gel verde pelo diretor John Boorman conferiu à paisagem irlandesa uma qualidade luminosa e onírica, especialmente nos momentos em que a lâmina mágica é desembainhada. Esse verde cristalino contrasta fortemente com o vermelho vivo do sangue derramado nas batalhas, demonstrando visualmente como a ganância e o orgulho dos personagens corrompem o mundo natural. A fotografia rendeu ao filme uma indicação ao Oscar de Melhor Cinematografia.
Embora Excalibur contenha uma trilha sonora original composta por Trevor Jones, o filme reserva seus momentos mais impactantes para peças de dois dos compositores alemães mais aclamados da história. Nas cenas em que Arthur remove a espada da pedra e reúne seus cavaleiros pela primeira vez, a trilha utiliza a Marcha Fúnebre de Siegfried, da ópera de Wagner, o que serve como um presságio da destruição que marcará seu reinado. Perto do final, quando um Arthur recém-curado convoca seus soldados para a batalha contra seu filho, Mordred, a música O Fortuna, de Carl Orff, é utilizada para elevar a tensão e a grandiosidade do confronto.
Por que Zack Snyder admira tanto Excalibur
Zack Snyder respeita Excalibur por adotar uma abordagem madura ao gênero de fantasia, que na época era frequentemente descartado como algo voltado apenas para o público infantil. O diretor comparou a abordagem de Boorman à violência com a sua própria em Watchmen, de 2009. Segundo Snyder, a verdade sobre ser um super-herói é que pessoas morrem, e Excalibur é violento porque essa era a realidade daquele contexto. Dado que o cineasta é conhecido por incluir níveis de violência superiores ao esperado em adaptações de quadrinhos, é compreensível que ele valorize a honestidade brutal do filme.
Além disso, Snyder admira a estética onírica e pictórica da obra. Ele destaca como a iluminação ajuda a estabelecer as duas realidades, a da vida e a da morte, e como o filme consegue tornar as florestas reais da Irlanda algo saído de um conto de fadas. Para o diretor, o filme cria uma versão estilizada da Inglaterra medieval que parece existir fora do tempo, como se fosse outro planeta. Essa visão de transformar um mito em algo real é um dos pilares que Snyder buscou em seus próprios projetos, como quando Zack Snyder assume direção de novo filme de Fuga de Nova York, buscando sempre essa conexão entre o histórico e o fantástico.
A reverência de Snyder por Excalibur é tão profunda que ele incluiu homenagens explícitas em pelo menos dois de seus filmes: 300 e batman v. Superman: A Origem da Justiça. Em ambos os casos, o herói é empalado por uma lança ou cajado empunhado pelo inimigo, mas consegue se aproximar do oponente ao se mover pelo cabo da arma para desferir um golpe final antes de sucumbir aos ferimentos. Essa imagem de um guerreiro que, mesmo ferido mortalmente, derrota seus inimigos, é um tropo que o diretor considera catártico e visualmente poderoso.
O início da carreira de Liam Neeson
Mesmo que Excalibur não agrade a todos os espectadores, há um motivo importante para os fãs de cinema serem gratos pela existência do filme: ele foi o responsável por impulsionar a carreira de Liam Neeson. Em entrevista ao portal ComingSoon.net, o ator reconheceu que não tinha praticamente nenhuma experiência atuando diante de uma câmera antes dessa produção. Ele destacou que John Boorman foi um mentor maravilhoso, trazendo os atores para trás das câmeras para explicar o que estava sendo capturado e como a cena funcionava no contexto da narrativa.
Se a recomendação de Zack Snyder não for suficiente para convencer o público a assistir ao filme, talvez o fato de que ele contribuiu indiretamente para a formação de diversos talentos e estilos que moldaram o cinema moderno possa servir de incentivo. A influência de Excalibur pode ser sentida em produções que variam de A Lista de Schindler a Star Wars: A Ameaça Fantasma e Batman Begins. O legado do filme, portanto, vai muito além de sua estética, consolidando-se como uma peça fundamental na história da fantasia cinematográfica e um marco na trajetória de grandes nomes de Hollywood. Enquanto Zack Snyder assume direção e roteiro de remake de Fuga de Nova York, o impacto de clássicos como Excalibur continua a ecoar em suas escolhas criativas e na forma como ele constrói seus próprios mundos mitológicos no cinema contemporâneo.
Fonte: Movieweb