Califórnia propõe incentivo fiscal para salvar setor de pós-produção

Legisladores da Califórnia buscam aprovar incentivos fiscais de US$ 100 milhões para manter o setor de pós-produção competitivo frente a outros mercados.

A indústria cinematográfica da Califórnia, historicamente reconhecida como o epicentro global do entretenimento, enfrenta um desafio estrutural significativo que ameaça a manutenção de milhares de empregos especializados. Após a aprovação de uma expansão expressiva nos incentivos fiscais para produções no ano passado, os legisladores de Sacramento agora voltam suas atenções para o setor de pós-produção, que tem sofrido com a migração de postos de trabalho para outras jurisdições. O projeto de lei Assembly Bill 2319, que já obteve aprovação na Assembleia Estadual e aguarda votação no Senado, propõe a criação de uma alocação orçamentária de US$ 100 milhões destinada a fortalecer a competitividade local.

A proposta estabelece que produções que realizarem seus processos de pós-produção no estado poderão obter uma isenção fiscal base equivalente a 35% dos gastos qualificados. O incentivo pode chegar a 50% para projetos vindos de fora do estado ou que incluam serviços de trilha sonora, visando reverter a tendência de fuga de talentos. O governador Gavin Newsom manifestou apoio à medida, reforçando um esforço contínuo de dois anos para garantir que o suporte governamental acompanhe as necessidades do mercado de cinema e televisão. A iniciativa é vista como um passo essencial para preservar a infraestrutura de trabalho que, por décadas, consolidou a região como líder absoluta em edição, design de som e efeitos visuais.

A perda de competitividade frente a outros mercados

Durante décadas, os estúdios de Hollywood mantiveram a totalidade do processo de finalização de filmes na Califórnia, independentemente de onde as filmagens ocorressem. No entanto, o cenário mudou drasticamente nas últimas duas décadas. Jurisdições como Nova York, Canadá e o Reino Unido implementaram pacotes de incentivos agressivos que não apenas atraem as filmagens, mas exigem que todo o ciclo de produção, incluindo a pós-produção, seja realizado localmente. Essa estratégia tem drenado sistematicamente a força de trabalho qualificada da costa oeste americana.

F. Hudson Miller, presidente da Motion Picture Editors Guild (IATSE Local 700), destacou a gravidade da situação. Segundo o dirigente, a organização está empenhada em garantir um incentivo que honre a tradição de noventa anos de valorização dos profissionais de pós-produção. O objetivo central é manter empregos sindicalizados e de classe média no estado que historicamente serviu como o coração global dessas atividades. A necessidade de ação é urgente, especialmente considerando que muitos profissionais da área, como os que trabalham em produções similares a Every Year After aguarda renovação para segunda temporada, dependem da estabilidade desses postos de trabalho para sustentar suas carreiras.

O impacto nas empresas e a necessidade de mudança

Empresas como a Trevanna Post, que opera em Los Angeles, Nova York e Londres, ilustram o declínio observado. A fundadora Jennifer Freed, que participou ativamente da criação de um crédito fiscal para pós-produção em Nova York em 2010, relata que a força do setor em Los Angeles diminuiu consideravelmente desde que abriu seu escritório local. Mesmo com a contratação de novos talentos em outras cidades, a equipe teve que reduzir o tamanho de suas operações na Califórnia devido à falta de competitividade fiscal.

Freed observa que, embora diretores preocupados com a equipe de produção possam pressionar estúdios a filmar na Califórnia, a decisão sobre onde realizar a pós-produção é quase exclusivamente guiada por incentivos fiscais. O autor do projeto de lei, o deputado Nick Schultz, de Glendale, tem recebido relatos semelhantes de diversos setores, desde sindicatos até gigantes como a Industrial Light and Magic (ILM), da Lucasfilm. A ILM, uma das empresas pioneiras em efeitos visuais, reduziu drasticamente sua presença na Califórnia ao expandir operações para o Canadá, Inglaterra e Austrália, levando consigo postos de trabalho de alta remuneração.

Estratégia para aprovação e o papel da California Post Alliance

Jennifer Freed, fundadora da Trevanna Post e da California Post Alliance
Jennifer Freed, fundadora da Trevanna Post e da California Post Alliance.

Para articular a defesa do projeto, foi criada a California Post Alliance (CAPA), que lançou uma campanha em fevereiro para impulsionar a aprovação do AB 2319. Um estudo encomendado pela organização junto à CVL Economics aponta que, desde 2011, o estado perdeu 4.400 empregos no setor, resultando em um prejuízo de US$ 500 milhões em renda e US$ 1,6 bilhão em crescimento econômico. A CAPA e os sindicatos da IATSE defendem a tramitação acelerada, dado que o impacto real da medida deve levar entre seis meses a um ano para se materializar na economia local.

O deputado Schultz está utilizando uma estratégia de duas frentes para garantir o sucesso da proposta. Além da tramitação legislativa, ele busca incluir a alocação de US$ 100 milhões na proposta orçamentária que deve ser finalizada com o governador Newsom até o final de junho. Caso essa tentativa não seja bem-sucedida, o prazo final para a aprovação do projeto no Senado se estende até agosto, ao final do ano legislativo. A urgência é clara: quanto mais cedo o incentivo for aprovado, mais rapidamente ele poderá ser oferecido a produções em fase de planejamento.

O futuro da pós-produção em Hollywood

A esperança de profissionais como Jennifer Freed é que o crédito fiscal permita que grandes produções de Hollywood voltem a realizar ao menos parte de sua finalização no estado. Mesmo que filmagens de grande escala, como as da trilogia O Senhor dos Anéis, continuem ocorrendo em locais como a Nova Zelândia, ou em complexos de estúdios britânicos como o Pinewood Studios, a pós-produção oferece uma flexibilidade maior. O processo de edição, finalização de filme e trilha sonora não precisa estar vinculado ao local de filmagem.

A indústria de pós-produção é inerentemente móvel. As dez primeiras semanas, dedicadas ao corte do diretor, podem ser realizadas em qualquer lugar. A decisão estratégica ocorre no momento de definir onde será feita a finalização sonora e os acabamentos técnicos. Se produções de grande porte, como as da franquia Vingadores, não podem ser filmadas inteiramente na Califórnia devido a limitações de espaço físico e infraestrutura de estúdios, o estado pode, ao menos, recuperar o trabalho de pós-produção, que é altamente qualificado e rentável.

Freed planeja retornar a Sacramento nas próximas semanas para advogar pela inclusão do crédito fiscal no orçamento estadual. Ela enfatiza que o movimento não é uma oposição a Nova York ou Londres, mas uma necessidade de sobrevivência para os trabalhadores de Los Angeles. A existência de uma vasta reserva de talentos na região, que permanece ativa apesar das dificuldades, é o principal argumento para a implementação do programa. A expectativa é que, com o apoio correto, a Califórnia possa retomar seu protagonismo e garantir que a excelência técnica que define o cinema mundial continue sendo produzida em casa.

Fonte: TheWrap

Este conteúdo foi produzido pela Redação Máquina Nerd com apoio de inteligência artificial e passa por curadoria editorial.