A cineasta turca Belkis Bayrak, reconhecida por seu trabalho em Gülizar, prepara seu segundo longa-metragem, intitulado A Brighter Word Than Bright. O projeto está sendo apresentado esta semana no fórum de coprodução Transilvania Pitch Stop, parte integrante do Transilvania International Film Festival. A diretora, que estreou seu primeiro filme na mostra Discovery do Festival de Toronto e competiu na seção New Directors em San Sebastian, busca agora consolidar sua voz autoral com uma narrativa centrada em luto e resiliência.
A trama de A Brighter Word Than Bright acompanha um jovem professor de literatura que, em um gesto extremo para preservar a dignidade de uma mulher enlutada, assume a culpa por uma morte que não causou. Após cumprir cinco anos de prisão, ele descobre ao ser libertado que a verdade oficial distorceu seu sacrifício. O roteiro, assinado pela própria Bayrak, conta com a produção da Saba Film, da Turquia, em parceria com a Arizona Films, da França, e a Plan Bee Films, do Kosovo.
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O peso do sacrifício e a conexão com o passado
A história tem início em um quartel militar turco, onde Osman, um conscrito sensível, estabelece um vínculo profundo com seu superior, Ziya. Em um ambiente marcado pela rigidez e pelo comportamento masculino tradicional, os dois encontram refúgio na poesia e em conversas noturnas. Esse santuário é abruptamente destruído quando Ziya tira a própria vida. Ciente do estigma social que o suicídio carrega na sociedade turca, Osman decide assumir a responsabilidade pelo ato para poupar a noiva grávida de Ziya da vergonha e do isolamento público.
Para proteger a mulher e o futuro da criança, Osman aceita uma sentença de cinco anos de prisão. O filme explora o reencontro dos personagens após sua soltura, momento em que ele tenta reconstruir sua vida através da literatura e do ensino. A narrativa aborda as consequências emocionais de um sacrifício silencioso e a dificuldade de retornar à normalidade após uma experiência traumática, um tema que ressoa com o interesse da diretora em explorar histórias de personagens que vivem à margem da sociedade.
Inspirações pessoais e a visão sobre a masculinidade
Em entrevista concedida durante o festival, Bayrak descreveu o longa como uma obra sobre dois homens cujas presenças e ausências marcaram profundamente sua trajetória pessoal. O filme é inspirado em um episódio trágico de sua própria família: o suicídio de seu tio, que serviu nas Forças Armadas Turcas ao lado de seu pai. A diretora revelou que foi a primeira em seu círculo familiar a falar abertamente sobre o ocorrido, quebrando um silêncio que ainda reverberava entre seus parentes.
A cineasta vê o filme como um gesto de memória e um ato de empatia para com os familiares deixados para trás. Ela afirma que o cinema funciona como uma ferramenta de resiliência. O título da obra deriva de um poema de John Keats e foi parcialmente inspirado no drama biográfico Bright Star, de Jane Campion. Bayrak recorda ter se emocionado com a forma como Campion retratou o poeta, enxergando nele traços de seu próprio pai, um homem que, assim como o protagonista Osman, enfrentava os desafios da vida com uma natureza contida e gentil.
Reconstrução histórica e crítica social
Para ambientar o filme nos anos 1990, Bayrak mergulhou em arquivos familiares, utilizando fotos e cartas antigas para recriar a atmosfera da época. Embora tenha encontrado momentos de beleza nessa jornada nostálgica, a diretora admite que a sensação de perda de seu tio permanecia presente em cada detalhe. Além da carga emocional, o filme propõe uma reflexão sobre a masculinidade contemporânea, questionando a rigidez dos papéis de gênero.
A diretora critica a forma como o cinema, especialmente em contextos militares, frequentemente glorifica o heroísmo e uma visão limitada do que significa ser homem. Ela defende que a definição atual de masculinidade é problemática e impõe um fardo desnecessário, deixando pouco espaço para a percepção e a empatia. Ao focar em Osman, Bayrak busca oferecer uma representação masculina que valoriza a fragilidade como uma forma de resistência e endurance, distanciando-se dos clichês de força bruta que dominam as telas.

Fonte: Variety