Embora Stranger Things tenha consolidado a importância de um elenco de conjunto estelar na Netflix, foi uma produção de fantasia posterior que conseguiu superar a série em seu próprio jogo. A busca por um substituto ideal para a trama de mistério e ficção científica tem sido um desafio constante para a plataforma, dado que poucas obras conseguem equilibrar com sucesso o drama de personagens, o horror e o tom de cidade pequena que tornaram a produção original um fenômeno cultural.
Curiosamente, as produções que mais se aproximaram de ocupar esse espaço não foram necessariamente aquelas com premissas idênticas. Enquanto títulos como It: Welcome to Derry, da HBO Max, ou a curta I Am Not Okay With This, da própria Netflix, tentaram replicar elementos específicos, foram obras de maior orçamento e apelo familiar que alcançaram resultados comparáveis. Exemplos notáveis incluem Wednesday, a releitura de Tim Burton para a Família Addams, e a adaptação live-action de One Piece.
Lançada em 2023, One Piece funde fantasia, comédia e aventura, baseando-se na longeva franquia de mangá e anime criada por Eiichiro Oda. Embora a narrativa foque nas jornadas dos Piratas do Chapéu de Palha e de seu capitão, Monkey D. Luffy, a série apresenta um elenco tão vasto quanto o de Stranger Things. No entanto, a forma como a produção gerencia esse grupo de personagens revela uma vantagem estratégica clara em relação ao sucesso da Netflix.
A estratégia de elenco herdada e aprimorada

Tanto Stranger Things quanto One Piece contam com escalações precisas, um feito notável considerando que ambas as séries possuem mais de uma dezena de personagens centrais. Para a adaptação de One Piece, o desafio foi ainda maior, visto que os fãs acompanham esses ícones através do mangá e do anime há mais de duas décadas. A Netflix precisou ser extremamente cuidadosa para não descaracterizar figuras tão queridas pelo público global.
A franquia de Eiichiro Oda possui um universo tão expansivo que faz até mesmo o mundo de Game of Thrones parecer contido em termos de escala de personagens. O mangá detém o recorde mundial do Guinness por ser a série de quadrinhos com o maior número de cópias publicadas por um único autor, e a história continua em expansão. Enquanto a Netflix enfrenta dificuldades com produções que não conseguem manter o fôlego, como visto quando a Netflix cancela The Boroughs após apenas uma temporada, a longevidade de One Piece oferece uma base sólida para o desenvolvimento de seus personagens.
O custo do elenco fixo em Stranger Things

Apesar do carinho do público pelos protagonistas de Stranger Things, o tamanho do elenco acabou se tornando um obstáculo para a narrativa. Como uma série de horror que deveria apresentar riscos reais, o final da produção gerou críticas por manter praticamente todos os personagens principais vivos, incluindo Mike, Dustin, Will, Max, Lucas, Nancy, Steve, Jonathan, Robin, Joyce, Hopper e Murray. Até mesmo o destino de Eleven foi deixado em aberto, o que diminuiu a sensação de perigo.
A falta de um material de origem literário ou de mangá para guiar a série limitou a capacidade da produção de se renovar. Enquanto One Piece pode explorar novos horizontes e personagens devido à vastidão de sua fonte, Stranger Things ficou presa aos seus heróis originais. Essa previsibilidade contrasta com a dinâmica de outras obras que buscam inovar, como quando Blue Lock transforma o futebol em jogo de sobrevivência na Netflix, utilizando o esporte como ferramenta para desenvolver um elenco rotativo e competitivo.
A dificuldade de Stranger Things em expandir seu universo sem depender dos rostos conhecidos ficou evidente na recepção de projetos derivados. A série, portanto, serve como um estudo de caso sobre como a dependência de um elenco fixo pode limitar o futuro de uma franquia, enquanto One Piece demonstra que, com o material de base correto, é possível manter a relevância e o interesse do público através da constante evolução de seus personagens e cenários.
Fonte: ScreenRant