Após duas décadas de colaboração constante, o renomado jornalista Anderson Cooper oficializou sua despedida do programa 60 Minutes, da CBS News, neste último domingo. A saída marca o encerramento de um capítulo significativo na carreira do apresentador, que integrou o time do icônico noticiário por 20 anos. Em uma entrevista concedida ao 60 Minutes Overtime, Cooper aproveitou o momento para enfatizar o valor da independência editorial que sempre norteou o programa, bem como a relação de profunda confiança que a atração cultivou com seus espectadores ao longo de gerações.



Ao refletir sobre o futuro da produção, Cooper expressou um desejo sincero: que o 60 Minutes consiga preservar sua essência fundamental. “Espero que o 60 Minutes permaneça sendo o 60 Minutes“, declarou. O jornalista ressaltou que, embora a evolução seja um processo natural e, por vezes, necessário para qualquer veículo de comunicação, a integridade do formato original é o que sustenta sua longevidade. “Existem pouquíssimas coisas que estão no ar há tanto tempo quanto o 60 Minutes e conseguem manter o nível de qualidade que ele possui. Acredito que as coisas devam evoluir e mudar, e isso é fantástico, mas espero que o núcleo do que o programa representa permaneça inalterado”, pontuou.
A decisão de Cooper de se afastar não foi tomada de forma leviana e, segundo o próprio jornalista, foi influenciada por dois fatores principais: a logística exaustiva de conciliar múltiplas funções e a priorização de sua vida familiar. Cooper explicou que, durante todo o período em que contribuiu para o 60 Minutes, seu emprego em tempo integral permaneceu sendo na CNN. Conciliar as demandas de ambos os veículos tornou-se um desafio logístico complexo. “Tem sido muito difícil realizar o tipo de trabalho que o programa exige”, admitiu, revelando que frequentemente utilizava seus períodos de férias na CNN para se dedicar às reportagens da CBS, trabalhando em horários que deveriam ser de descanso.
O segundo motivo, e talvez o mais pessoal, envolve seus dois filhos, de quatro e seis anos. “Eu tenho um filho de quatro anos e outro de seis, e quero passar o máximo de tempo possível com eles enquanto ainda desejam minha companhia. O relógio está correndo”, afirmou, demonstrando a consciência de que a infância é uma fase passageira. Ele confessou que a realidade de não estar mais envolvido com a produção ainda não havia se consolidado totalmente em sua mente, especialmente por ser um espectador fiel do programa desde a infância.
Cooper compartilhou memórias de sua juventude, descrevendo-se como uma “criança estranha” que nutria um interesse genuíno pelo telejornalismo. Ele relembrou que, após a morte de seu pai, o silêncio em sua casa era preenchido pelo hábito de assistir ao noticiário durante o jantar, acompanhando os lendários correspondentes da CBS. Essa admiração inicial transformou-se em uma carreira onde ele teve a oportunidade de trabalhar ao lado de ícones como Morley Safer, Mike Wallace e Bob Simon. Cooper relembrou com emoção o fato de ter ocupado o escritório de Bob Simon após o falecimento do veterano, descrevendo o 60 Minutes como um espaço onde se podia “entrar no lugar de outra pessoa”, ver o mundo através de olhos alheios e compreender as lutas e desafios enfrentados por diferentes indivíduos.
A saída de Cooper ocorre em um momento de turbulência e transição para a CBS News, que agora opera sob a nova propriedade de David Ellison. A gestão tem sido marcada por decisões editoriais que geraram repercussão pública, incluindo a contratação da editora-chefe Bari Weiss. Recentemente, o programa esteve no centro de polêmicas, como o cancelamento de uma reportagem que abordaria as condições “brutais e torturantes” em uma prisão de El Salvador, para onde o governo Trump enviou deportados. A justificativa oficial foi a necessidade de “reportagem adicional”. Além disso, o programa enfrentou críticas por supostamente marginalizar a veterana Lesley Stahl em favor de Major Garrett para uma entrevista com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, após negociações diretas entre Weiss e o gabinete do premiê.
Outro ponto de tensão recente envolveu o ex-presidente Donald Trump, que obteve uma vitória judicial após processar a emissora pela edição de uma entrevista com a candidata democrata Kamala Harris. O caso resultou em um acordo de 16 milhões de dólares pago pela Paramount Global, empresa controladora da CBS. Como parte do acordo, a emissora concordou em liberar as transcrições das entrevistas com candidatos presidenciais após a exibição. Apesar desse cenário complexo, Cooper manteve seu discurso focado na importância do tempo, paciência e investimento financeiro necessários para produzir as reportagens de qualidade que definiram a história do 60 Minutes, expressando o desejo de que o programa continue existindo para que seus filhos possam, um dia, assisti-lo com seus próprios descendentes.