O filme Ad Astra, dirigido pelo cineasta James Gray, permanece como uma das obras mais ambiciosas e subestimadas da ficção científica contemporânea. Embora Gray não seja um nome onipresente no grande público, ele é amplamente respeitado por sua filmografia consistente, que transita entre dramas criminais independentes, como The Yards, e narrativas semi-autobiográficas de amadurecimento, como Armageddon Time. Lançado em 2019, o longa estrelado por Brad Pitt representa o ápice do reconhecimento do diretor, que obteve um orçamento de grande estúdio para realizar esta epopeia espacial. Para fãs de produções como Interstellar, a obra funciona como um complemento temático essencial, focando na solidão humana diante da vastidão do cosmos e em uma jornada intergaláctica autêntica.
Bastidores e a visão do diretor
Apesar de sua qualidade inegável, a produção foi prejudicada desde o início, sendo lançada em setembro — um período historicamente considerado um depósito para filmes de menor expectativa comercial. Com um orçamento de 90 milhões de dólares, o desempenho nas bilheterias foi decepcionante, embora o filme tenha recebido aclamação da crítica especializada. Contudo, o processo de criação deixou um gosto amargo para James Gray. Em entrevista à Vulture em 2022, o diretor foi enfático ao culpar a fusão entre a Disney e a 20th Century Studios pelo comprometimento de sua visão original. Segundo Gray, a tomada de controle pela Disney causou uma desordem corporativa que afetou profundamente o resultado final, sendo sua maior crítica a inclusão de uma narração em voz off do protagonista Roy McBride, que ele considerou desnecessária.
Para espectadores que veem a narração como uma muleta narrativa que subestima a inteligência da audiência, a voz constante de Brad Pitt pode soar intrusiva. Em uma aventura espacial operística, seria preferível que a cinematografia imersiva e a atmosfera gélida do espaço falassem por si. O recurso evoca a infame narração da versão original de Blade Runner com Harrison Ford, parecendo, por vezes, cansativa. No entanto, sob outra perspectiva, a narração é profundamente pungente, intensificando a solidão e o pavor que permeiam a obra, funcionando mais como um personagem do que como um dispositivo de auxílio ao espectador.
Excelência técnica e narrativa
Visualmente, Ad Astra eleva o padrão do gênero, superando outros dramas espaciais contemporâneos em seu design de produção imersivo. A textura das naves, uniformes e equipamentos mecânicos confere ao filme uma estética tão tátil e realista que remete a um documentário da NASA. Essa abordagem permite que a história opere em um nível fundamentado, onde o grão e o desgaste dos materiais contam sua própria história. As vistas de Roy McBride observando a Terra enquanto viaja pelo espaço provocam um sentimento de reverência, elevando os riscos da trama ao mostrar um planeta que clama por socorro.
A missão de McBride, que envolve investigar uma ameaça fatal ao universo, serve como pano de fundo para a descoberta da verdade sobre o desaparecimento de seu pai, interpretado com gravidade por Tommy Lee Jones. No mesmo ano em que conquistou um Oscar por Once Upon a Time… in Hollywood, Brad Pitt entrega uma performance assombrosa como um astronauta amaldiçoado por traumas familiares. O filme dialoga diretamente com clássicos como 2001: A Space Odyssey e Solaris, utilizando o espetáculo da ficção científica para examinar conceitos de destino e mortalidade.
Um híbrido de drama e ação
Além do tom meditativo, o longa demonstra a evolução de James Gray como cineasta ao construir sequências de ação eletrizantes, como uma perseguição na Lua que funciona como uma versão espacial de The French Connection. Ao lado de obras como The Martian, Arrival e o sucesso de 2026, Project Hail Mary, Ad Astra se consolida como uma entrada digna no cânone das epopeias espaciais. É um híbrido perfeito de espetáculo visual e drama psicológico, pronto para conquistar um público fiel que valoriza a profundidade autoral em meio ao entretenimento de grande escala.
Fonte: Collider