Xavier Becerra propõe cúpula para reverter crise de empregos em Hollywood

Candidato ao governo da Califórnia busca unir estúdios, sindicatos e líderes de tecnologia para enfrentar a perda de 51 mil postos de trabalho no setor.

Xavier Becerra, o principal nome democrata na corrida pelo governo da Califórnia, apresentou na última sexta-feira uma proposta contundente para enfrentar a crise que assola a indústria do entretenimento. Em um momento em que Hollywood enfrenta um declínio acentuado na oferta de trabalho, Becerra defendeu a convocação imediata de uma cúpula de alto nível, reunindo líderes de estúdios, representantes sindicais e executivos do setor de tecnologia. O objetivo central é diagnosticar as causas da perda de 51 mil postos de trabalho na produção cinematográfica e televisiva nos últimos três anos e traçar um plano de ação robusto para reverter esse cenário.

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Xavier Becerra em evento público
Xavier Becerra busca soluções para a crise no setor de entretenimento da Califórnia.

A iniciativa de Becerra surge como uma resposta direta à crescente pressão sobre os candidatos ao governo estadual para que apresentem soluções concretas para a economia criativa. Ao se posicionar sobre o tema, o candidato prometeu expandir o programa de incentivos fiscais do estado, uma ferramenta que tem sido objeto de intenso debate político. No entanto, Becerra adotou uma postura distinta de outros concorrentes ao evitar o compromisso de eliminar o teto atual de 750 milhões de dólares do programa. Em vez de uma promessa de expansão ilimitada, ele enfatizou a necessidade de uma gestão mais criteriosa e focada em resultados mensuráveis.

“Onde a demanda é real, onde os empregos seguem o fluxo e onde o retorno para a Califórnia justifica o investimento, eu pretendo aumentar a escala, a capacidade e o acesso ao programa”, afirmou Becerra. Em uma entrevista posterior, o candidato detalhou que sua intenção é convocar os stakeholders da indústria logo após ser empossado, caso vença o pleito. Para ele, a falta de coordenação é um dos maiores obstáculos atuais. “Quando saímos da reunião, todos precisam saber qual é a sua função”, declarou. “A primeira ordem do dia é colocar nossa casa em ordem e garantir que tenhamos um plano de jogo claro e executável.”

O candidato ressaltou que sua abordagem para a expansão dos créditos fiscais será cirúrgica. Ele expressou o desejo de direcionar os recursos para as áreas que apresentam maior necessidade, evitando medidas genéricas que não garantem o retorno esperado para o estado. “Não quero atirar para todos os lados. Se podemos ser estratégicos, devemos ser. Vamos tentar garantir que o paciente esteja realmente doente e atacar os problemas reais. A cúpula logo no início do mandato ajudará a expor onde está a verdadeira dor da indústria”, explicou.

A proposta de Becerra coloca mais lenha na fogueira em uma disputa eleitoral que já conta com propostas variadas. Seu principal rival democrata, o bilionário Tom Steyer, foi o primeiro a defender a expansão dos incentivos fiscais ainda em março. Por outro lado, figuras como o prefeito de San Jose, Matt Mahan, e o ex-prefeito de Los Angeles, Antonio Villaraigosa, elevaram o tom do debate em abril, ao prometerem a eliminação total do teto de incentivos. O cenário se repete no campo republicano, onde o candidato Steve Hilton também defende a remoção do limite, propondo ainda a inclusão de salários de atores e produtores na lista de despesas elegíveis para o benefício fiscal. Até mesmo os principais candidatos à prefeitura de Los Angeles aderiram ao coro pela eliminação do teto, sinalizando uma pressão política crescente sobre o governo estadual.

Ao discutir o histórico recente, Becerra fez questão de pontuar sua trajetória política. Ele lembrou que o atual governador, Gavin Newsom, assinou em 2025 uma expansão que mais do que dobrou o incentivo estadual, que permaneceu estagnado em 330 milhões de dólares anuais por mais de uma década. Contudo, Becerra reivindicou o pioneirismo em sua atuação legislativa, afirmando que já trabalhava nessas questões durante seu tempo no Congresso, nos anos 2000, muito antes de o tema se tornar uma prioridade para a gestão atual. “Nós entramos nessa briga de faca sem uma arma, e agora as pessoas estão trazendo armas de fogo”, disse ele, enfatizando a necessidade de preparação para os desafios futuros. “Temos que estar prontos para o que vem pela frente.”

A necessidade de cautela também foi mencionada por especialistas e líderes do setor, que sugeriram observar os efeitos da expansão assinada por Newsom antes de implementar novas mudanças drásticas. A cúpula proposta por Becerra serviria, portanto, como um fórum de análise crítica sobre a eficácia dessas medidas recentes. O candidato enfatizou que, embora a indústria esteja passando por uma transformação profunda, a Califórnia não pode se dar ao luxo de perder sua posição de liderança global. A ideia de que “nossos trabalhadores não devem lutar sozinhos” tornou-se o mantra de sua campanha para a área, refletindo uma preocupação com a proteção da força de trabalho local frente à concorrência internacional e aos desafios impostos pela tecnologia e pela mudança nos modelos de distribuição de conteúdo.

O debate sobre a crise em Hollywood não é apenas uma questão de números, mas de identidade cultural e econômica para o estado. Com a perda de 51 mil postos de trabalho, a economia local sente o impacto direto na arrecadação e no bem-estar das famílias que dependem da produção audiovisual. Becerra acredita que, ao reunir os diferentes elos da cadeia produtiva — desde os grandes estúdios até os sindicatos que representam os trabalhadores de base e as empresas de tecnologia que estão redefinindo o consumo de mídia —, será possível encontrar um caminho que preserve a viabilidade da produção na Califórnia. A estratégia de “ataque aos problemas reais” sugere que o candidato pretende usar a cúpula não apenas como um evento político, mas como uma ferramenta de governança técnica.

Enquanto a campanha avança, a questão dos incentivos fiscais permanece como um divisor de águas. De um lado, a defesa de um mercado livre de amarras, com a eliminação de tetos; de outro, a visão de Becerra, que busca um equilíbrio entre o apoio estatal e a responsabilidade fiscal, focando em resultados que justifiquem o investimento público. A expectativa é que, nos próximos meses, o debate se intensifique, com os candidatos sendo pressionados a detalhar como pretendem financiar essas expansões sem comprometer o orçamento do estado em outras áreas críticas. A proposta de Becerra, ao focar na cúpula como primeiro passo, tenta ganhar tempo para uma análise mais profunda, ao mesmo tempo em que sinaliza aos eleitores e ao setor de entretenimento que ele possui uma visão de longo prazo para a recuperação da indústria.

A complexidade do problema, que envolve desde a ascensão do streaming até a automação e a globalização da produção, exige, segundo Becerra, uma resposta que vá além de simples ajustes fiscais. A cúpula deverá abordar, portanto, questões estruturais que vão além do custo de produção, como a retenção de talentos e a manutenção da infraestrutura de estúdios no estado. Ao se colocar como um mediador capaz de unir diferentes interesses, Becerra tenta se diferenciar como um gestor pragmático, capaz de navegar nas águas turbulentas da política de Hollywood. A promessa de “conhecer o plano de jogo” antes de agir reflete sua experiência como ex-procurador-geral, onde a precisão jurídica e a estratégia eram fundamentais para o sucesso das ações. Com a eleição se aproximando, a capacidade de Becerra em transformar essa proposta de cúpula em um compromisso concreto será testada, tanto pela oposição quanto pelo próprio setor, que clama por soluções urgentes para estancar a sangria de empregos que tem marcado os últimos anos na Califórnia.

Fonte: Variety