O Tribeca Festival, um dos eventos culturais mais prestigiados do mundo, prepara-se para celebrar seu 25º aniversário com uma programação que revisita suas origens dramáticas e seu papel fundamental na revitalização de Nova York. Como parte das festividades, o festival promoverá uma conversa exclusiva com seus cofundadores, o lendário ator Robert De Niro e a renomada produtora Jane Rosenthal. O painel, que promete ser um dos pontos altos do evento, será moderado pelo aclamado cineasta Matt Tyrnauer, conhecido por dirigir documentários de impacto como “Where’s My Roy Cohn?” e “Valentino: The Last Emperor”.


A gênese de um festival como ato de resistência
A discussão entre De Niro e Rosenthal não será apenas uma retrospectiva técnica, mas um mergulho nos eventos que moldaram o nascimento do festival. O Tribeca não foi planejado em condições convencionais; ele surgiu em um cenário de extrema vulnerabilidade. Lançado em um prazo recorde de apenas 120 dias, o festival foi concebido como uma resposta direta aos ataques de 11 de setembro, com o objetivo claro de trazer vida e esperança de volta ao centro de Manhattan, uma área que, na época, estava deserta e sob forte vigilância militar.
Jane Rosenthal recordou, em entrevistas anteriores, a atmosfera daquele período: “Ninguém queria vir ao centro da cidade após o 11 de setembro. Havia tanques na Canal Street”. Apesar do cenário desolador, a dupla utilizou sua vasta rede de contatos na indústria cinematográfica para viabilizar o projeto. O apoio institucional foi crucial, com o então prefeito Mike Bloomberg cedendo os degraus da prefeitura para eventos, e a presença de figuras como o ex-presidente Bill Clinton e o ator Hugh Grant — que promovia o filme “Um Grande Garoto” (About a Boy), produzido pela dupla — ajudaram a dar visibilidade ao esforço de reconstrução comunitária.
Humanidade e cinema como elo
Um dos momentos mais marcantes da história do festival, frequentemente citado por seus fundadores, envolveu uma reflexão sobre o poder do cinema. Rosenthal relembrou uma fala de Nelson Mandela sobre o período em que esteve preso em Robben Island. Segundo o líder sul-africano, mesmo em condições extremas, os prisioneiros e seus carcereiros encontravam pontos de convergência ao assistir filmes juntos. O riso e o choro compartilhados diante da tela serviam como um lembrete da humanidade comum que une as pessoas, independentemente de suas posições. Essa filosofia tornou-se a espinha dorsal do Tribeca: o uso da arte como ferramenta de cura e coesão social.
Expansão e novas experiências para o público
Desde sua primeira edição em 2002, o Tribeca Festival percorreu um longo caminho. O que começou como uma iniciativa local de bairro transformou-se em uma potência cultural que abrange os cinco distritos de Nova York. A programação atual é vasta e diversificada, incluindo não apenas cinema tradicional, mas também televisão, experiências de realidade virtual e narrativas em áudio, refletindo as mudanças tecnológicas e comportamentais do consumo de mídia.
Para o aniversário de 25 anos, o festival introduziu inovações significativas para o público. Além das tradicionais exibições ao ar livre em locais icônicos como Hudson Yards, o evento abrirá, pela primeira vez na história, um número limitado de ingressos para o público geral na cerimônia de premiação do Tribeca Festival, marcada para o dia 11 de junho. Nesta ocasião, De Niro e Rosenthal apresentarão o prestigiado Founders Award, o prêmio máximo do festival, que reconhece excelência na narrativa cinematográfica.
O legado de um desafio
Ao refletir sobre a trajetória do evento, Robert De Niro descreveu o início do festival como um verdadeiro “ato de desafio”. Sem dinheiro, sem um plano de negócios estruturado e contando com a força de 1.300 voluntários, o Tribeca provou que uma ideia forte, aliada a um propósito comunitário, pode superar obstáculos aparentemente intransponíveis. O festival não apenas sobreviveu, mas prosperou, tornando-se um pilar indispensável da cultura nova-iorquina.
A edição de 2026, portanto, não é apenas uma celebração de um quarto de século de existência, mas uma reafirmação do compromisso do Tribeca com a inovação e a inclusão. Ao olhar para o futuro, o festival continua a ser um espaço onde cineastas emergentes e veteranos consagrados se encontram, mantendo vivo o espírito de resiliência que o definiu em seus primeiros dias. A curadoria deste ano promete honrar esse legado, garantindo que o Tribeca continue a ser um farol de criatividade e um ponto de encontro essencial para a comunidade global de amantes do cinema.
Fonte: Variety