Tribeca confirma estreia de filme feito inteiramente por IA

O Tribeca Festival oficializou a inclusão de Dreams of Violets em sua programação, marcando um momento histórico para o cinema ao exibir o primeiro longa-metragem produzido inteiramente por inteligência artificial em.

O Tribeca Festival oficializou a inclusão de Dreams of Violets em sua programação, marcando um momento histórico para o cinema ao exibir o primeiro longa-metragem produzido inteiramente por inteligência artificial em sua seleção principal. O filme, dirigido e produzido pelos irmãos Ash Koosha e Pooya Koosha, tem estreia mundial agendada para o dia 10 de junho no AMC Flat Iron Theatre, em Nova York. A obra é descrita como um docudrama de 75 minutos que utiliza tecnologias de ponta para narrar eventos sensíveis da resistência civil no Irã.

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Cena do filme Dreams of Violets, longa-metragem gerado por inteligência artificial.
Cena de Dreams of Violets, longa-metragem gerado por inteligência artificial.

Tecnologia como ferramenta de memória e resistência

A produção de Dreams of Violets foi motivada por um massacre de civis ocorrido em janeiro de 2026, perpetrado por forças do regime iraniano. Segundo Ash Koosha, cineasta que vive no exílio, a escolha pela inteligência artificial não foi um exercício tecnológico, mas uma necessidade prática diante da impossibilidade de acessar o território, as locações e as pessoas envolvidas no conflito. O diretor afirmou que, embora preferisse realizar o projeto com uma equipe tradicional e atores reais, a tecnologia permitiu criar um memorial para eventos que ocorreram atrás de uma barreira intransponível.

O filme acompanha cinco estranhos que se encontram em um beco sem saída em Teerã, observados por Amir, uma criança de dez anos com paralisia cerebral que testemunha a execução dos manifestantes de uma janela. A narrativa busca trazer uma urgência emocional aos protestos que, segundo a Human Rights Activists News Agency, resultaram em milhares de mortes e dezenas de milhares de prisões no país. Para Jane Rosenthal, cofundadora do Tribeca Festival, a obra demonstra como tecnologias emergentes podem servir como veículos para uma narrativa profundamente humana, indo além da simples inovação técnica.

Processo de produção e custos reduzidos

O longa-metragem foi desenvolvido ao longo de três meses, com um custo total de produção de aproximadamente US$ 2 mil. A equipe utilizou uma combinação de ferramentas de inteligência artificial para substituir elementos tradicionais como atores, cenários e câmeras. Entre as tecnologias empregadas estão o Kling AI para a geração de vídeos, o Claude AI para edição de diálogos, além do Google Gemini e o Nanobanana para pesquisa e criação de quadros base. A empresa Fountain 0, fundada pelos irmãos Koosha, foi a responsável por viabilizar o projeto, focando em integrar princípios criativos tradicionais com tecnologias de fronteira.

A aceitação de Dreams of Violets no Tribeca Festival difere de exibições anteriores de filmes gerados por IA, que geralmente ocorriam em eventos paralelos ou mercados de filmes, como foi o caso de Hell Grind no Festival de Cannes. Ao integrar a seleção oficial, o festival de Nova York sinaliza uma mudança na percepção da indústria sobre o uso de ferramentas generativas em produções de longa duração. O modelo de produção adotado pelos irmãos Koosha levanta questões éticas sobre a representação de vítimas reais em obras geradas por computador, um debate que o próprio diretor reconhece como central em seu processo criativo.

O impacto da IA no cenário cinematográfico

A trajetória de Ash Koosha e Pooya Koosha com a tecnologia não é recente. Os irmãos fundaram a Claigrid, uma empresa de personalização de IA em nuvem, e possuem experiência prévia com computação em nuvem. A Fountain 0 surge agora como um estúdio dedicado a produzir filmes e séries inteiramente gerados por IA, com a proposta de realizar projetos que seriam impossíveis ou proibitivos sob os métodos de produção convencionais. A estreia em um festival de grande porte como o Tribeca coloca a produtora no centro da discussão sobre o futuro do cinema independente.

Apesar das críticas e do ceticismo que cercam o uso de IA na arte, o diretor defende que a alternativa seria o silêncio e o esquecimento, resultados que ele considera preferidos pelo regime iraniano. Para Ash Koosha, a existência do filme é uma forma de garantir que as vítimas sejam testemunhadas e que as famílias que permanecem no Irã, impossibilitadas de falar, tenham alguém no exterior que se recuse a esquecer o ocorrido. O filme, portanto, posiciona-se como um documento de memória, utilizando a tecnologia como um meio para contornar a censura e a repressão política.

A recepção do público e da crítica em Nova York será um teste importante para a viabilidade de produções de baixo custo e alta dependência tecnológica em festivais de prestígio. Enquanto o mercado de cinema continua a debater a regulamentação e o impacto ético da inteligência artificial, Dreams of Violets oferece um caso de estudo sobre como a necessidade de contar histórias urgentes pode impulsionar a adoção de novas ferramentas. A exibição no dia 10 de junho promete ser um dos momentos mais comentados da 25ª edição do festival, consolidando o debate sobre a fronteira entre criatividade humana e automação digital.

Fontes: THR Variety


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