The Samurai and the Prisoner traz mistério histórico de Kurosawa

O novo longa do cineasta japonês subverte o gênero samurai ao trocar batalhas sangrentas por uma trama investigativa focada em diálogos e filosofia.

O cineasta japonês Kiyoshi Kurosawa, amplamente reconhecido no cenário internacional por sua habilidade em manipular atmosferas inquietantes e visuais inventivos em obras de J-horror como Cure, Pulse e Loft, expande agora seu repertório criativo. Após transitar por thrillers psicológicos como Creepy, filmes de serial killer como Serpent’s Path, incursões na ficção científica com Before We Vanish e até mesmo dramas aclamados como Tokyo Sonata, o diretor assume um novo desafio. Com The Samurai and the Prisoner (Kokurojo), Kurosawa marca presença no Festival de Cannes com um projeto que se afasta de suas raízes no horror para abraçar um mistério histórico solene e teatral, ambientado no turbulento século XVI, uma era definida por clãs guerreiros que disputavam o controle do Japão através de manobras políticas e confrontos militares.

Uma nova perspectiva sobre o mito do samurai

Baseado no premiado romance de 2021 escrito por Honobu Yonezawa, o filme revisita uma narrativa profundamente enraizada na cultura japonesa, mas a subverte com camadas adicionais de complexidade. A trama central gira em torno de Lord Murashige Araki, interpretado por Masahiro Motoki, uma figura histórica frequentemente estigmatizada como um exemplo de traição e covardia. Na historiografia tradicional, Murashige é visto como um subordinado ambicioso que rompe seus laços de lealdade com o temido e influente unificador do Japão, Nobunaga Oda (interpretado por Bando Shingo). Após o rompimento, ele se isola em seu próprio castelo, protegido por um exército pequeno, porém fiel, antes de enfrentar o inevitável colapso de sua posição.

Kurosawa, que assumiu a responsabilidade pela adaptação do roteiro, opta por uma estrutura narrativa peculiar: ele transforma a resistência final de Murashige em quatro mistérios interconectados, cada um ambientado em uma estação do ano distinta. Esta escolha estrutural evoca a lógica dos romances de mistério clássicos, como os de Agatha Christie, onde o protagonista se vê diante de crimes aparentemente impossíveis de solucionar. Contudo, em vez de revólveres ou venenos, as ferramentas de cena são as katanas, embora o uso delas seja surpreendentemente contido.

Investigação e alianças improváveis

Para desvendar os enigmas que surgem dentro das muralhas de seu castelo, Murashige precisa recorrer a uma aliança inusitada: ele solicita a ajuda de Kanbei Kuroda (vivido por Masaki Suda), um tenente leal a Nobunaga que está mantido como prisioneiro no local. A dinâmica entre os dois personagens é o coração do filme, funcionando como uma versão feudal de Sherlock Holmes e Watson. A tensão é constante, dado que o prisioneiro, embora útil intelectualmente, não é alguém em quem se possa depositar confiança plena. Essa premissa, que poderia facilmente se tornar um thriller de ação frenético, é conduzida por Kurosawa com uma abordagem mais loquaz e deliberada.

A estética do filme, enriquecida pelo design de produção de Harada Tetsuo — conhecido por seu trabalho em The Last Ronin —, oferece cenários medievais elegantes que servem como palco para um drama profundamente teatral. O diretor evita a violência visceral que se esperaria de um filme sobre samurais, preferindo sugerir o conflito a exibi-lo de forma gráfica. Mesmo quando a ação ocorre, ela é breve e desprovida de sangue, servindo mais como um contraponto à filosofia do protagonista.

Uma mensagem contra a guerra

A recusa de Murashige em seguir as ordens brutais de Nobunaga é o motor ideológico do filme. Em uma cena de flashback particularmente reveladora, o personagem é forçado a decapitar mulheres inocentes, um ato que cristaliza sua aversão aos métodos de seu antigo senhor. Essa rejeição à brutalidade não é apenas um traço de caráter, mas uma mensagem anti-guerra que ressoa com força no contexto contemporâneo. Com uma duração de duas horas e vinte e sete minutos, o longa-metragem prioriza a construção psicológica e o debate ético sobre o código de conduta dos samurais.

Ao final, The Samurai and the Prisoner se estabelece como uma obra que desafia as expectativas do público. Ao trocar o espetáculo da violência pela profundidade dos diálogos, Kiyoshi Kurosawa reafirma sua versatilidade como um dos cineastas mais importantes do Japão, entregando um drama histórico que, embora contido, é carregado de significado e reflexão sobre as consequências devastadoras do poder e da lealdade cega.

Fonte: THR