Em um momento particularmente pungente do novo drama de Ira Sachs, intitulado The Man I Love, um dos personagens reflete sobre a existência com a frase: “É um negócio difícil, viver”. Essa sentença, carregada de um peso existencial, encapsula a essência de uma obra que se revela, ao mesmo tempo, complicada, profundamente romântica e devastadoramente dolorosa. O filme, que traz Rami Malek no papel principal, transporta o espectador para a Nova York do final da década de 1980, um cenário marcado pela efervescência cultural e pela sombra crescente da crise da AIDS.



A trama acompanha Jimmy George, um artista de palco apaixonado que, após receber um diagnóstico de HIV, encontra um novo fôlego para buscar o que pode ser sua última grande performance. A narrativa é sustentada por uma rede de apoio composta por seu parceiro amoroso, Dennis (interpretado por Tom Sturridge), e sua irmã, Brenda (vivida por Rebecca Hall). Através dessa tríade, o filme de Sachs traça uma crônica emocionante sobre a interseção entre o amor e a arte em um período histórico marcado pela perda e pela resiliência.
A maestria visual e narrativa de Ira Sachs
Não há dúvidas de que Ira Sachs se consolidou como um mestre na construção de narrativas que tocam o âmago do espectador. O roteiro, escrito em parceria com seu colaborador de longa data Mauricio Zacharias, ganha vida através da cinematografia vívida de Josée Deshaies — a mesma responsável pela fotografia do aclamado Urchin, lançado no ano passado. Em The Man I Love, a arte cinematográfica é elevada ao seu grau máximo. O erotismo do corpo masculino é exibido com naturalidade, sem jamais cair na exploração gratuita ou no mero desejo de excitação; cada quadro transborda cor e é elevado pelas emoções cruas dos personagens.
Sachs dedica uma atenção especial à dinâmica entre Jimmy e Dennis. A câmera do diretor frequentemente se fecha nos rostos de Malek e Sturridge, capturando cada microexpressão e reação, o que confere ao filme uma intimidade quase invasiva, mas necessária para compreender a profundidade da conexão entre eles.
A música como linguagem da alma
Embora a música seja um elemento central, seria um erro classificar The Man I Love como um musical tradicional. Em vez disso, a música serve como uma extensão da voz dos personagens, especialmente de Jimmy, que utiliza a arte para expressar o que as palavras não conseguem alcançar. O filme transita entre uma interpretação romântica e bela de “The Man I Love”, na voz de Ella Fitzgerald, e uma versão a cappella absolutamente devastadora de “Look What They Did to My Song, Ma”, de Melanie.
Como Jimmy está imerso em uma comunidade de artistas, o elenco também participa ativamente dessas performances. Há um interlúdio memorável no qual cada personagem canta uma canção de sua escolha, incluindo momentos protagonizados por Rebecca Hall e Ebon Moss-Bachrach, que interpreta Gene, o marido de Brenda. A beleza dessas performances artísticas serve como um contraste cruel à deterioração física de Jimmy, evidenciando o impacto trágico da perda de um talento tão influente para seu círculo social.
Atuações viscerais: Malek e Sturridge
O grande destaque da obra é, sem dúvida, a entrega de Rami Malek. O ator interpreta Jimmy com uma dedicação implacável, evitando transformar o personagem em uma figura unidimensional. Jimmy é um homem complexo, que se envolve em um caso extraconjugal com seu vizinho, o jovem e ingênuo Vincent (interpretado por Luther Ford), enquanto Dennis atua como seu suporte emocional, sendo aquele que testemunhou os momentos mais sombrios de sua enfermidade.
Malek consegue a proeza de não tornar Jimmy antipático, mesmo diante de suas falhas. O sofrimento do personagem está estampado em seu rosto. Ele se mostra emocionalmente distante quando está com Vincent, mas revela uma sensibilidade e fragilidade extremas ao lado de Dennis. Por outro lado, Tom Sturridge entrega uma atuação que, para muitos, rouba a cena. Sua capacidade de transmitir a dor de ver o parceiro definhar, mantendo uma postura de força e devoção, confere ao filme seu verdadeiro coração. A química entre os dois atores é o pilar que sustenta a carga dramática, tornando a jornada de Jimmy George uma das experiências mais marcantes do cinema contemporâneo sobre a era da AIDS.
Fonte: Collider