Julian Fellowes, o criador por trás do fenômeno Downton Abbey, consolidou sua carreira como um dos nomes mais influentes no gênero de dramas de época. Com uma filmografia marcada pela elegância, dinâmicas sociais estratificadas e uma fascinação constante por temas como classe, poder e tradição, o autor construiu um estilo inconfundível. Embora sua obra britânica permaneça como um marco cultural, é o projeto desenvolvido para a HBO, The Gilded Age, que se destaca como o trabalho superior do roteirista, oferecendo uma narrativa mais ambiciosa e moderna.
Ambientada no final do século XIX nos Estados Unidos, durante um período de intensa expansão econômica e agitação social, a série troca a estabilidade herdada da aristocracia inglesa pela agressividade e sede de ascensão da elite emergente de Nova York. No centro de The Gilded Age está Bertha Russell, interpretada por Carrie Coon, a esposa de um magnata das ferrovias determinada a conquistar seu lugar no alto escalão da sociedade nova-iorquina. O conflito central reside na resistência dos membros do chamado dinheiro velho, que não aceitam facilmente a entrada de novos nomes em seu círculo exclusivo.
Poucas produções conseguem capturar a ambição social com a mesma precisão de The Gilded Age, que segue em direção à sua quarta temporada. Além da disputa entre o novo e o antigo dinheiro, a série dedica tempo para explorar a vida da classe trabalhadora e as negociações corporativas implacáveis que impulsionaram o crescimento econômico americano da época. Essa abordagem confere à obra uma densidade que vai além dos salões de baile, conectando o espectador com as engrenagens de uma sociedade em transformação.
Por que The Gilded Age se diferencia de Downton Abbey
Estreando em 2010, Downton Abbey se estabeleceu como um dos dramas históricos mais notáveis da televisão britânica. O sucesso foi tão expressivo que a produção gerou uma trilogia de filmes, incluindo Downton Abbey: The Movie (2019), Downton Abbey: A New Era (2022) e o encerramento Downton Abbey: The Grand Finale (2025). Comparar as duas séries não significa apontar falhas em nenhuma delas, mas sim reconhecer que ambas possuem abordagens distintas para os temas recorrentes de Julian Fellowes.
Diferente de Downton Abbey, que está profundamente enraizada em um mundo em declínio, The Gilded Age começa em um momento em que os Estados Unidos inventavam um novo sistema, não regido por tradições seculares ou costumes aristocráticos rígidos. Por essa razão, a série da HBO transmite uma sensação de modernidade, mesmo mantendo seu cenário histórico. Enquanto a produção britânica oferecia um olhar nostálgico sobre a aristocracia, ela frequentemente falhava em abordar temas cruciais como a questão racial, algo que The Gilded Age integra de forma orgânica através da trajetória da personagem Peggy Scott.
Como Downton Abbey se passa durante a Era Eduardiana, existe uma rigidez inerente aos seus personagens. Em contrapartida, os protagonistas de The Gilded Age, especialmente Bertha Russell, não demonstram hesitação em exibir sua ambição de se tornar uma das mulheres mais poderosas de Nova York. Ela não se sente inibida em manipular ou traçar estratégias para alcançar seus objetivos, o que adiciona camadas de tensão e profundidade à narrativa. O elenco espetacular, composto por muitos atores renomados da Broadway, como Carrie Coon, Morgan Spector, Audra McDonald e Nathan Lane, confere uma autenticidade que eleva o nível das interpretações.
Gosford Park representa o auge criativo de Julian Fellowes
Embora o trabalho de Julian Fellowes na televisão seja amplamente reconhecido, seu melhor drama histórico não é uma série, mas sim o longa-metragem Gosford Park, dirigido por Robert Altman e com roteiro coescrito por Altman e Fellowes. O filme explora com maestria a hierarquia social e a riqueza, temas que se tornaram pilares centrais em suas produções televisivas posteriores. A trama começa de forma aparentemente tranquila, com a elite britânica reunida para um fim de semana na propriedade de Sir William McCordle.

O fim de semana toma um rumo sombrio quando Sir William é encontrado morto, desencadeando uma investigação que revela os segredos tanto dos patrões quanto dos criados. O que torna o filme distintivo na carreira de Fellowes é que ele transcende o gênero de mistério e assassinato. A obra não se limita a responder quem cometeu o crime, mas analisa o ecossistema de dependência que cerca o evento. A investigação expõe as rachaduras nesse sistema, revelando como a classe alta depende de seus servos enquanto, simultaneamente, ignora sua individualidade.
Gosford Park representa o ápice da escrita de Fellowes, pois ele utiliza o formato de mistério para dissecar o poder, o privilégio e as regras invisíveis que se tornariam centrais em seus títulos televisivos, incluindo The Gilded Age. A capacidade de equilibrar o entretenimento com uma crítica social afiada é o que torna suas produções tão duradouras. Enquanto o público aguarda novos episódios de suas séries, o legado de suas obras anteriores continua a influenciar o cenário do entretenimento, provando que o interesse por dramas de época permanece em alta, desde que acompanhado por uma narrativa que desafie as convenções sociais e explore a complexidade humana.
A transição de Julian Fellowes entre diferentes formatos, do cinema para a televisão, demonstra uma evolução constante em sua técnica narrativa. Ao comparar suas obras, percebe-se que o autor não apenas repete fórmulas, mas as refina, adaptando-as para contextos culturais distintos. Seja na rigidez da aristocracia britânica ou na efervescência da elite americana, o foco permanece naquilo que define as relações de poder. Para os fãs de produções de época, a trajetória de Fellowes oferece um estudo fascinante sobre como a história pode ser contada através de lentes que valorizam tanto o espetáculo visual quanto a profundidade psicológica dos personagens.
Fonte: ScreenRant