A ideia de acordar todas as noites precisamente às 3h33, um período amplamente conhecido no folclore e na cultura popular como a Hora do Diabo, é um conceito que, por si só, carrega um peso de horror capaz de causar calafrios em qualquer pessoa. Na série de suspense psicológico The Devil’s Hour, disponível no catálogo do Prime Video, essa premissa já inquietante é distorcida e elevada a um patamar muito mais sinistro. A produção, que se estende por duas temporadas, combina uma investigação de assassinato densa e complexa com a presença magnética e aterrorizante de Peter Capaldi. A obra utiliza a sensação desconcertante de déjà vu como uma arma narrativa, forçando o espectador a questionar a própria realidade ao lado dos personagens, enquanto se perde em um labirinto de mistérios embalado pela voz ecoante e assustadora de Capaldi.
Peter Capaldi entrega uma atuação arrepiante
É impressionante como a simples postura de um ator pode transmitir tanto terror. The Devil’s Hour inicia sua jornada focando em Lucy, interpretada por Jessica Raine, uma mulher exausta e de olhos avermelhados que trava diálogos enigmáticos com Gideon, o personagem de Capaldi. Mesmo nos momentos em que o rosto de Gideon não é revelado, a voz rouca e oca do ator são suficientes para conjurar uma sensação de desconforto absoluto. Ele questiona a protagonista sobre experiências passadas e a natureza do déjà vu, criando uma conexão imediata de medo. Com o avançar dos episódios, o público finalmente contempla seu rosto magro e um par de olhos que parecem carregar o peso insuportável de saber demais. Gideon se transforma em um verdadeiro fantasma, uma figura que assombra as bordas da série, mesmo em suas aparições iniciais breves, mantendo uma influência inabalável sobre toda a trama.
A narrativa central acompanha a rotina de Lucy, que desperta de pesadelos terríveis sempre no mesmo horário, enquanto tenta lidar com o cenário mental peculiar de seu filho, Isaac, vivido por Benjamin Chivers. O menino possui amigos imaginários que, longe de serem inofensivos, transmitem uma aura de maldade. Embora Lucy tente agir como uma pragmática, focando em sustentar sua pequena família, as rachaduras em sua realidade tornam-se cada vez mais visíveis. Paralelamente, uma investigação de homicídio é conduzida pelo detetive Ravi, interpretado por Nikesh Patel, um homem que nutre aversão a sangue e que também se vê envolvido em um caso desconcertante de déjà vu. As cenas de Lucy com um Gideon algemado em uma sala trancada surgem esporadicamente, sugerindo uma linha do tempo e um local indefinidos, até que todos esses fios narrativos se entrelaçam em uma história que prende o olhar do espectador.
Uma narrativa que desafia a percepção da realidade
O grande trunfo de The Devil’s Hour reside na forma como a série distorce as camadas da realidade, transformando-as em algo irreconhecível. À medida que a primeira temporada progride, tudo o que o público acredita saber é subvertido por reviravoltas constantes. É uma daquelas produções onde o destino final é impossível de prever, tornando a jornada uma experiência de tensão constante. No entanto, o roteiro mantém um ritmo preciso, desacelerando nos momentos certos para permitir que a mente do espectador processe as implicações de cada revelação que desafia os gêneros tradicionais.
Jessica Raine atua como uma guia essencial, equilibrando a versão de sua personagem que tenta levar uma vida normal com a faceta traumatizada que confronta Gideon. Essa dualidade, que por vezes a torna uma narradora pouco confiável ao filtrar o que é real do que é trauma, contribui para a atmosfera de paranoia e medo que permeia a produção. Com a presença de Capaldi à espreita, a série se torna um convite a uma maratona imersiva, capaz de fazer com que o espectador salte de susto ao vivenciar qualquer sensação de déjà vu em sua própria vida cotidiana.
Fonte: Collider