O longa-metragem The Boy With the Light-Blue Eyes, estreia na direção de Thanasis Neofotistos, chega ao SXSW London 2026 como uma alegoria poderosa sobre a identidade queer e o peso esmagador da superstição em comunidades isoladas. O filme acompanha a jornada de Petros, interpretado por Giorgos Karydis, um jovem cujos olhos azuis incomuns o tornam um alvo de medo e desconfiança em uma vila remota nas montanhas gregas, onde a tradição local dita que estranhos representam uma ameaça à ordem estabelecida. A narrativa, que transita entre o drama e o horror folclórico, utiliza uma linguagem visual simbólica para abordar temas universais de exclusão e o desejo por liberdade. O projeto, que teve um desenvolvimento de 12 anos, reflete experiências pessoais do diretor, que cresceu em uma região fronteiriça da Grécia marcada por crenças ancestrais e um conservadorismo rígido. Segundo Neofotistos, a ideia central nasceu de uma superstição familiar sobre o chamado ‘mau-olhado’, que na região era frequentemente associado a pessoas de olhos claros, vistas como portadoras de energias negativas. Em entrevista, o diretor detalha como a mitologia do ‘kako mati’ ou mau-olhado, hoje transformada em um item turístico, possuía um significado muito mais sombrio em sociedades fechadas. Em um contexto anterior à globalização, indivíduos com características físicas distintas, como olhos azuis, eram automaticamente categorizados como estrangeiros ou ameaças. Essa percepção de perigo, que poderia levar a acusações de maldições ou jinx, serve como base para a opressão sofrida pelo protagonista Petros, que é forçado por sua avó e pelas autoridades locais a esconder sua verdadeira aparência sob uma máscara. O cineasta traça um paralelo direto entre essa exclusão e sua própria vivência como um homem gay em uma família conservadora. A luta de Petros para ser aceito não é apenas uma questão de aparência, mas uma metáfora para a descoberta da sexualidade e a resistência contra a tentativa de apagamento da identidade. Assim como o personagem, Neofotistos enfrentou a pressão para se conformar a expectativas sociais, um conflito que permeia toda a estrutura do filme e a dinâmica entre o protagonista e sua mãe, que tenta ocultar a natureza do filho para preservar a reputação da família. A abordagem narrativa de The Boy With the Light-Blue Eyes é estritamente impressionista, mantendo-se fiel ao ponto de vista de Petros. O diretor explica que não há elementos na tela que o protagonista não possa ouvir, sentir ou ver, o que reforça a natureza subjetiva da experiência. Essa escolha técnica permite que o filme incorpore elementos de realismo mágico, onde a violência e a tensão não são necessariamente fatos objetivos, mas reflexos do trauma e da ansiedade vividos pelo adolescente de 15 anos. A violência retratada na obra, embora presente, é descrita pelo diretor como orgânica ao processo de amadurecimento do personagem. O cineasta, que buscou auxílio em psicoterapia para processar suas próprias experiências de bullying escolar, utiliza o horror como uma ferramenta para traduzir o sentimento de sufocamento e a sensação de que o ambiente ao redor tenta constantemente anular sua essência. Essa perspectiva interna transforma o ambiente rural em um cenário de pesadelo, onde a pressão social se manifesta como uma força física opressora. Embora a história seja atemporal, a equipe de produção, liderada pela designer Dafni Kalogianni e pela figurinista Christina Lardikou, buscou inspiração visual nos anos 90. A escolha reflete a própria formação do diretor, que cresceu durante essa década, e é visível na paleta de cores e em objetos presentes no quarto de Petros, como câmeras antigas e televisores de época. Esse detalhe confere uma textura nostálgica e, ao mesmo tempo, claustrofóbica ao ambiente do protagonista. O processo de escalação do elenco também seguiu uma trajetória de transformação. Giorgos Karydis, o ator que interpreta Petros, foi escolhido por sua timidez e natureza introvertida, características que espelhavam o estado inicial do personagem. Ao longo de um mês de filmagens, o ator passou por uma evolução que, segundo o diretor, foi visível na tela, culminando em uma mudança notável na voz e na postura do jovem. Essa entrega foi fundamental para transmitir a autenticidade da jornada de autodescoberta que o filme propõe. A obra, que conta com roteiro de Grigoris Skarakis, fotografia de Djordje Arambasic e edição de Panagiotis Angelopoulos, posiciona-se como uma reflexão sobre a aleatoriedade da identidade. Para Neofotistos, a mensagem central é que ser quem se é não é uma escolha, mas uma condição inerente, comparável à cor dos olhos de Petros. O filme convida o público a sentir a luta do protagonista, oferecendo uma visão sensível sobre o custo da liberdade em sociedades que temem o que não compreendem. A recepção do filme no SXSW London 2026 é aguardada com expectativa, dado o histórico do diretor em explorar temas de identidade e pertencimento. A produção, que conta com a Gersh para as vendas nos Estados Unidos, reafirma o compromisso do cinema grego contemporâneo em abordar questões complexas através de uma lente autoral e profundamente humana. A trajetória de Petros, marcada pela dor e pela busca por aceitação, ressoa como um testemunho da resiliência necessária para enfrentar o preconceito e abraçar a própria verdade. Para os interessados em produções que exploram dinâmicas de poder e segredos, vale notar que o cenário de isolamento e a construção de tensão são elementos recorrentes em obras que buscam desconstruir mitos locais. O filme de Neofotistos se destaca por não buscar respostas fáceis, preferindo mergulhar na subjetividade de seu protagonista para expor as feridas de uma comunidade que prefere o silêncio à aceitação do diferente. A obra se consolida, assim, como um marco importante na filmografia do diretor, consolidando sua voz no cenário internacional. O filme, que teve um longo processo de maturação de 12 anos, é um testemunho de persistência artística. Neofotistos, ao revisitar suas raízes em Epirus, na fronteira com a Albânia, traz uma autenticidade geográfica que raramente é vista em produções internacionais que tentam retratar a Grécia. Enquanto o imaginário comum foca nas ilhas e no turismo, o diretor mergulha nas montanhas, onde a vida é regida por um conservadorismo que não perdoa o diferente. A avó do diretor, uma figura central na construção da mitologia do filme, serve como a base para a avó de Petros, uma personagem que, embora opressora, é também um produto de um sistema de crenças que ela mesma não consegue superar. O filme não apenas critica essa estrutura, mas a disseca com uma precisão cirúrgica, mostrando como o medo do ‘mau-olhado’ é, na verdade, o medo do que não se pode controlar. A performance de Giorgos Karydis é o coração pulsante dessa obra. Ao capturar a vulnerabilidade de um adolescente que vive sob o peso de um segredo, Karydis entrega uma atuação que transcende o diálogo. A escolha de Neofotistos em focar na subjetividade de Petros, limitando o que o espectador vê ao que o personagem percebe, é uma decisão estética que eleva o filme de um drama comum para uma experiência sensorial imersiva. O uso de elementos de realismo mágico, onde a opressão da vila se manifesta quase como uma entidade física, reforça a sensação de que Petros está preso em um labirinto de expectativas sociais. A colaboração com o roteirista Grigoris Skarakis foi vital para equilibrar a carga emocional com a estrutura narrativa do horror folclórico. A fotografia de Djordje Arambasic, por sua vez, captura a aridez das montanhas gregas com uma paleta que enfatiza o isolamento do protagonista. A edição de Panagiotis Angelopoulos garante que o ritmo do filme acompanhe a ansiedade de Petros, criando momentos de tensão que explodem em sequências de introspecção profunda. O SXSW London 2026 serve como o palco ideal para essa estreia, dado o interesse do festival em produções que desafiam as normas e exploram novas fronteiras narrativas. A Gersh, ao assumir as vendas para os Estados Unidos, reconhece o potencial do filme para dialogar com um público global que busca histórias sobre a luta pela autenticidade. Em última análise, The Boy With the Light-Blue Eyes é um convite para olhar além das aparências e confrontar os preconceitos que carregamos. É uma obra que não busca apenas entreter, mas provocar uma reflexão necessária sobre o que significa ser ‘diferente’ em um mundo que insiste na conformidade. A jornada de Petros é a jornada de todos aqueles que já se sentiram obrigados a usar uma máscara para sobreviver, e o filme de Neofotistos é o espelho que nos obriga a encarar essa verdade. Com uma estética que evoca a nostalgia dos anos 90, o filme consegue ser ao mesmo tempo um retrato de uma época específica e uma parábola atemporal sobre a resistência humana. O legado de Neofotistos como um cineasta que não tem medo de expor suas próprias feridas para criar arte é reafirmado aqui, consolidando sua posição como uma das vozes mais importantes do cinema grego contemporâneo. A expectativa em torno da recepção do público é alta, mas, independentemente dos números de bilheteria, o impacto cultural de uma obra tão corajosa já é inegável. O filme se posiciona como um marco, uma peça fundamental para entender as tensões entre tradição e modernidade, entre o eu público e o eu privado. Ao final da projeção, o espectador é deixado com a pergunta: quanto de nós mesmos estamos dispostos a sacrificar para sermos aceitos? E, mais importante, vale a pena o preço? Neofotistos não oferece respostas fáceis, e é exatamente por isso que seu filme ressoa com tanta força. Ele nos convida a caminhar ao lado de Petros, a sentir o peso de sua máscara e, finalmente, a vislumbrar a possibilidade de liberdade que reside na aceitação da própria verdade. O cinema, em sua forma mais pura, é uma ferramenta de empatia, e The Boy With the Light-Blue Eyes utiliza essa ferramenta com maestria, transformando uma história local em um hino universal de libertação. A trajetória de Petros, marcada pela dor e pela busca por aceitação, ressoa como um testemunho da resiliência necessária para enfrentar o preconceito e abraçar a própria verdade. O filme, que conta com a Gersh para as vendas nos Estados Unidos, reafirma o compromisso do cinema grego contemporâneo em abordar questões complexas através de uma lente autoral e profundamente humana. A obra se consolida, assim, como um marco importante na filmografia do diretor, consolidando sua voz no cenário internacional. O filme não apenas explora a identidade, mas também a própria natureza do olhar, questionando quem tem o poder de definir o que é ‘normal’ e o que é ‘ameaçador’. Ao desafiar essas definições, Neofotistos cria um espaço onde a diferença não é apenas tolerada, mas celebrada como uma parte essencial da experiência humana. A jornada de Petros é, em última instância, uma jornada de autodescoberta, um lembrete de que a verdadeira força reside na capacidade de ser autêntico, mesmo diante da adversidade mais severa. O filme é um convite para que todos nós olhemos para dentro e encontremos a coragem de revelar nossos próprios ‘olhos azuis’, nossas próprias verdades, sem medo do julgamento alheio. É uma obra que ficará gravada na memória de quem a assistir, um lembrete constante de que a liberdade é um direito inalienável, e que a luta por ela é o que nos torna verdadeiramente humanos. O cinema grego, com obras como esta, continua a provar sua relevância e sua capacidade de tocar o coração do público global, provando que as histórias mais locais são, muitas vezes, as mais universais. A trajetória de Petros é um testemunho da resiliência necessária para enfrentar o preconceito e abraçar a própria verdade.


Fonte: THR