A temporada televisiva de 2025-26 consolidou a força das produções de streaming no cenário global, com Stranger Things alcançando o topo das paradas de audiência. A produção da Netflix encerrou sua trajetória com uma média impressionante de 32,9 milhões de espectadores, consolidando-se como a série mais assistida do período. Os dados, apurados pela Nielsen através de métricas multiplataforma em um recorte de 35 dias, refletem uma mudança significativa no comportamento do público, que prioriza o consumo sob demanda em detrimento da grade linear tradicional.


A liderança da Netflix não é um evento isolado, mas parte de uma estratégia consolidada pela plataforma. No ano anterior, o topo da lista foi ocupado por Squid Game, reforçando a capacidade do serviço em gerar fenômenos globais. A introdução de dados multiplataforma pela Nielsen permitiu, pela primeira vez, uma comparação direta e justa entre o desempenho de títulos de streaming e as produções de broadcast e cabo, oferecendo uma visão mais clara sobre o que realmente atrai a atenção do espectador contemporâneo.
O desempenho das produções de broadcast e cabo
Embora o streaming domine o topo, o setor de broadcast ainda mantém representantes de peso. A série Marshals, da CBS, destacou-se como a produção de TV aberta mais assistida no ranking multiplataforma, registrando 20,7 milhões de espectadores. O título, que expande o universo de Yellowstone criado por Taylor Sheridan, demonstra que franquias estabelecidas continuam sendo um pilar fundamental para a retenção de público em redes tradicionais. Outros títulos como Tracker, também da CBS, e High Potential, da ABC, figuram entre os dez mais vistos, ao lado de produções como The Pitt, da HBO Max, e Landman, do Paramount+.
É importante notar que o ranking considera dados até meados de abril, o que significa que produções com lançamentos em maio podem apresentar variações em seus números finais. A análise tradicional de audiência live+7, que foca na exibição linear, continua a apontar a NFL como o conteúdo de maior impacto, mantendo sua hegemonia histórica. Entre as produções de entretenimento, Tracker lidera no total de espectadores, enquanto Dancing With the Stars, da ABC, domina a faixa demográfica de 18 a 49 anos, provando a resiliência de formatos de competição ao vivo.
Ascensão e surpresas no cenário de streaming
O sucesso de The Pitt, drama médico da HBO Max, é um dos pontos mais notáveis da temporada. Inicialmente um sucesso de crítica, a série evoluiu para um fenômeno de audiência em sua primeira temporada, conquistando prêmios importantes e saltando para o top 10, mesmo sem exibição no canal linear da HBO. Esse movimento ilustra como a qualidade narrativa aliada à disponibilidade em streaming pode transformar produções em pilares de audiência em tempo recorde.
Outro caso de sucesso é o retorno de Dancing With the Stars e Survivor. Ambos os programas registraram crescimento expressivo em suas audiências multiplataforma, impulsionados por uma popularidade viral que transcende a exibição televisiva. Dancing With the Stars, por exemplo, saltou de 7,1 milhões para 9,8 milhões de espectadores, consolidando-se como uma das marcas mais fortes da ABC. Esse fenômeno de revitalização também foi observado em remakes e revivals, como o retorno de Scrubs e a nova abordagem de Malcolm in the Middle, intitulada Life’s Still Unfair, que atraíram públicos significativos.
Diversificação das plataformas e o impacto das decisões de estúdio
O mercado de streaming está se tornando mais competitivo. Além da hegemonia da Netflix, plataformas como Peacock e Apple TV+ aumentaram sua presença no top 100 de audiência. O Peacock, que não possuía títulos originais no ranking no ano anterior, emplacou produções como All Her Fault e The Traitors. A Apple TV+, que contava apenas com Severance, expandiu seu alcance com títulos como Shrinking e Pluribus, indicando uma diversificação maior no consumo de conteúdo original.
Por outro lado, a temporada também foi marcada por decisões controversas de cancelamento. Séries como Boots, Watson, The Abandons e DMV apresentaram números de audiência sólidos, superando a marca de 5 milhões de espectadores, mas foram canceladas por motivos variados, incluindo orçamentos elevados ou mudanças estratégicas nas plataformas. A disparidade entre o desempenho de audiência e a continuidade de certas obras continua a ser um ponto de tensão entre estúdios e o público, que muitas vezes vê produções bem-sucedidas serem encerradas precocemente.
O papel da informação e o futuro da TV
A longevidade de programas como 60 Minutes, da CBS, permanece um fenômeno à parte. Como o único programa de jornalismo a figurar no top 100 multiplataforma em sua 58ª temporada, ele reafirma a importância do conteúdo informativo de qualidade. No entanto, a reestruturação interna na CBS News, que incluiu o cancelamento de The Late Show With Stephen Colbert e cortes no prestigiado programa de reportagens, levanta questionamentos sobre a estratégia de longo prazo da emissora em um mercado cada vez mais focado em métricas imediatas de streaming.
A análise da temporada 2025-26 revela um ecossistema em constante adaptação. Enquanto o streaming consolida sua posição como a principal janela de consumo, a TV aberta e a cabo buscam se reinventar através de franquias de sucesso e formatos de competição ao vivo. A capacidade de adaptação das plataformas, aliada à demanda do público por narrativas de alta qualidade, continuará a ditar os rumos da indústria nos próximos anos. O sucesso de produções como Stranger Things não apenas encerra um ciclo, mas estabelece um novo padrão para o que se espera de uma série de grande escala na era digital.
Para os fãs de produções que buscam alternativas de qualidade, o mercado oferece opções variadas. Séries como Heroes surgem como alternativas ideais para quem busca tramas complexas e desenvolvimento de personagens, enquanto o interesse por obras de gênero, como Equilibrium, ganha destaque em plataformas de streaming gratuito. A diversidade de oferta garante que, independentemente das mudanças na grade, o público continue a encontrar conteúdos que atendam às suas preferências, mantendo a vitalidade do setor televisivo global.
O legado de Stranger Things e a mudança de paradigma
A conclusão de Stranger Things não marca apenas o fim de uma série, mas o encerramento de um ciclo fundamental para a Netflix. Desde sua estreia em 2016, a produção de Matt e Ross Duffer foi o pilar que sustentou a transição da plataforma de um serviço de licenciamento para uma potência criativa global. O alcance de 32,9 milhões de espectadores na temporada 2025-26 valida a aposta de longo prazo da empresa em propriedades intelectuais próprias. Historicamente, a série redefiniu o conceito de ‘evento televisivo’ na era digital, provando que o modelo de lançamento em blocos pode gerar um engajamento cultural tão intenso quanto as grandes estreias da TV aberta, mas com uma longevidade de catálogo que o modelo linear raramente consegue replicar.
Análise de mercado: O impacto das métricas multiplataforma
A adoção das métricas multiplataforma pela Nielsen alterou profundamente a percepção de sucesso no mercado brasileiro e internacional. Antes, a audiência era fragmentada, com o streaming operando em uma ‘caixa preta’ de dados proprietários. Com a transparência atual, estúdios e anunciantes agora possuem uma régua comum para medir o impacto de títulos como Marshals e The Pitt. Para o mercado brasileiro, isso significa uma maior clareza sobre o que o público local consome, facilitando a negociação de direitos de exibição e a estratégia de aquisição de conteúdo pelas plataformas que operam no país. A hegemonia da NFL nas métricas tradicionais, contrastando com o domínio de Stranger Things no streaming, ilustra um mercado bifurcado: o público busca o imediatismo do esporte ao vivo na TV tradicional, enquanto reserva o tempo de lazer para a imersão narrativa sob demanda.
O fenômeno das franquias e o efeito Yellowstone
O sucesso de Marshals, com seus 20,7 milhões de espectadores, é um estudo de caso sobre a força das franquias. Ao expandir o universo de Yellowstone, a CBS não apenas garantiu uma audiência fiel, mas também demonstrou que o modelo de ‘universo compartilhado’, antes restrito ao cinema de super-heróis, é a estratégia mais eficaz para a retenção de público na TV aberta. Para o espectador brasileiro, que acompanha essas produções através de serviços como Paramount+ e canais de TV por assinatura, o impacto é direto: a oferta de conteúdo derivado de marcas consagradas tende a crescer, diminuindo o risco financeiro para as emissoras e garantindo uma base de fãs pré-existente.
Bastidores da produção e a resiliência dos formatos
A revitalização de programas como Dancing With the Stars e Survivor revela uma tendência interessante: o público ainda valoriza o formato de competição ao vivo. A transição desses programas para o ambiente multiplataforma permitiu que a popularidade viral nas redes sociais se convertesse em números reais de audiência. O salto de 7,1 milhões para 9,8 milhões de espectadores em Dancing With the Stars é um indicativo de que a interatividade, quando bem executada, é um antídoto contra a fragmentação da atenção. Além disso, o sucesso de remakes como Life’s Still Unfair sugere que a nostalgia, quando aliada a uma nova perspectiva narrativa, permanece como um ativo valioso para os estúdios em um cenário de alta concorrência.
Onde assistir e disponibilidade no Brasil
Para o público brasileiro, a disponibilidade desses títulos segue a lógica de licenciamento global das plataformas. Stranger Things permanece como um título exclusivo da Netflix, com todas as temporadas disponíveis para streaming. Produções da CBS, como Tracker e Marshals, possuem janelas de exibição que variam entre o Paramount+ e canais de TV paga como o AXN ou Universal TV, dependendo dos acordos de distribuição vigentes. The Pitt, sendo uma produção original da HBO Max (agora Max), segue o padrão de lançamento simultâneo ou com breve defasagem em relação aos Estados Unidos, consolidando a estratégia da Warner Bros. Discovery de centralizar seus grandes lançamentos na plataforma. É recomendável que o espectador verifique a grade de programação local e os catálogos de streaming, visto que as janelas de estreia podem sofrer alterações conforme as estratégias de marketing regional de cada distribuidora.
Desafios estratégicos e o futuro do entretenimento
O cancelamento de séries com audiência sólida, como Boots e Watson, aponta para uma mudança na métrica de sucesso: não basta ter audiência, é preciso ter eficiência de custo. O mercado de streaming está saindo de uma fase de crescimento desenfreado para uma fase de rentabilidade. Isso explica por que produções com 5 milhões de espectadores podem ser consideradas ‘fracassos’ se o custo de produção for desproporcional ao retorno em assinaturas. Para o futuro, espera-se que as plataformas priorizem produções que equilibrem alcance e custo, o que pode levar a uma redução no número de séries de alto orçamento em favor de formatos mais flexíveis e de produção ágil, como documentários, reality shows e dramas procedurais de menor escala.
Fonte: Variety