Slow West consolida status de clássico moderno do faroeste

Com Michael Fassbender no elenco, o longa de 2015 subverte clichês do gênero e mantém aprovação de 92% da crítica especializada.

Há pouco mais de uma década, o cinema de faroeste ganhou uma adição que rapidamente se tornaria um clássico moderno: Slow West, dirigido por John Maclean. Com apenas 84 minutos de duração, o filme consegue reinventar as convenções de um gênero historicamente enraizado em mitos de heroísmo e expansão territorial. Estrelado por Michael Fassbender, que interpreta um caubói cínico e endurecido pela vida, e Kodi Smit-McPhee, no papel de um jovem escocês apaixonado, a obra acompanha a dupla em uma jornada perigosa através das vastas e implacáveis planícies americanas.

Michael Fassbender e Kodi Smit-McPhee em cena do filme Slow West.
Michael Fassbender e Kodi Smit-McPhee estrelam o aclamado faroeste Slow West.

Paisagens deslumbrantes e a brutalidade do Velho Oeste

Um dos pilares que sustentam a qualidade de Slow West é a sua cinematografia. Sob o olhar do diretor de fotografia Robbie Ryan, as paisagens do Oeste não são apenas cenários, mas personagens que ditam o ritmo da narrativa. A beleza estética das planícies, capturada em cada enquadramento, contrasta violentamente com a realidade brutal vivida pelos protagonistas. O que poderia ser uma jornada contemplativa transforma-se rapidamente em uma luta pela sobrevivência em uma terra sem lei, onde cada encontro pode resultar em ataques selvagens ou roubos violentos.

Nesse ambiente hostil, a figura de Payne, interpretado por Ben Mendelsohn, surge como o antagonista definitivo. À frente de um bando de caçadores de recompensas, Payne personifica a ganância e a falta de escrúpulos que regem as alianças no Velho Oeste. Sua presença serve como um espelho sombrio para o personagem de Fassbender, Silas Selleck. Embora ambos compartilhem a motivação financeira de uma recompensa, Silas possui uma camada de complexidade moral que o diferencia da brutalidade pura e simples de Payne.

A desconstrução do herói e do amor romântico

A dinâmica entre Silas e Jay é o coração emocional do filme. Silas, um homem que adotou a filosofia do “cada um por si” para se proteger da crueldade do mundo, acaba por desenvolver uma conexão inesperada com o jovem Jay. Através da interpretação magistral de Fassbender, vemos um personagem que, embora tenha perdido o contato com sua humanidade devido ao isolamento, encontra na companhia de Jay uma oportunidade de redescobrir sua empatia. Não há grandes gestos heroicos ou redenções grandiosas; o que presenciamos é uma mudança sutil e gradual, um retorno lento à sua melhor versão.

Paralelamente, a trama explora a jornada de Jay, movido por uma paixão idealizada por Rose, interpretada por Caren Pistorius. Ao cruzar o oceano e abandonar sua vida na Escócia, Jay deixa para trás não apenas o conforto, mas também sua própria inocência. O filme utiliza flashbacks para revelar que a visão de amor de Jay é, na verdade, uma construção unilateral, desmistificando o conceito de romance épico tão comum no gênero. Ao antecipar que Jay não se tornará o herói tradicional, o filme desafia as expectativas do público, mas ainda assim confere ao personagem um sentido de triunfo pessoal.

Com uma pontuação de 92% no Rotten Tomatoes, Slow West permanece como uma obra que envelheceu com elegância. Ao desmontar as estruturas tradicionais do faroeste — transformando paisagens vastas em campos de batalha confinados e pintando seus personagens em tons de cinza moral —, John Maclean entregou uma obra que continua a ser redescoberta e valorizada por sua capacidade de questionar as motivações daqueles que chamamos de heróis.

Fonte: Collider