A recente obsessão das plataformas de streaming por eventos ao vivo trouxe de volta uma dinâmica que parecia ter ficado restrita à era de ouro da televisão. Embora o modelo sob demanda tenha sido criado justamente para permitir que o público escolha o que assistir e quando, a experiência coletiva de acompanhar um espetáculo em tempo real recuperou seu espaço no zeitgeist. Um exemplo recente dessa tendência é Skyscraper Live, da Netflix, que acompanhou o escalador Alex Honnold em uma subida vertiginosa pelo Taipei 101, o 11º prédio mais alto do mundo.


A produção, que durou uma hora e 35 minutos, capturou a atenção de milhões de espectadores simultâneos, gerando um nível de engajamento nas redes sociais que raramente é visto em conteúdos gravados. Para quem acompanhava de casa, a tensão era palpável, transformando uma proeza atlética em um evento televisivo de alto impacto. Esse tipo de conteúdo levanta uma questão importante sobre a premiação do Emmy: será que produções como Skyscraper Live podem injetar a variedade necessária nas categorias de especiais ao vivo, que têm se tornado cada vez mais previsíveis?
O domínio dos eventos tradicionais no Emmy
Historicamente, a categoria de melhor especial de variedades ao vivo tem sido dominada por um grupo seleto de produções. Nos últimos anos, a lista de indicados e vencedores tem se restringido quase exclusivamente a especiais de comédia, apresentações musicais ou grandes cerimônias de premiação. O Oscar, por exemplo, tem sido presença constante desde a criação da categoria, vencendo inclusive em 2024. Da mesma forma, o show do intervalo do Super Bowl é um nome recorrente, tendo conquistado o prêmio em 2022 com a edição estrelada por Dr. Dre, Snoop Dogg, Eminem e Mary J. Blige.
Essa previsibilidade torna a categoria, muitas vezes, monótona para o público e para os votantes. A entrada de eventos originais e distintos, como a escalada de Alex Honnold, poderia oferecer um contraponto necessário. Enquanto o Emmy de 2026 se aproxima, o sucesso de produções como Hacks prepara terreno para recorde histórico no Emmy de 2026, mas a categoria de variedades ao vivo ainda carece de uma renovação que reflita a diversidade de formatos que o streaming tem explorado.
A separação entre ao vivo e gravado
A TV Academy tomou uma decisão importante em 2018 ao dividir os especiais de variedades em duas categorias distintas: ao vivo e pré-gravado. O objetivo era eliminar a confusão que existia entre as designações de especial de variedades e programas de classe especial. Essa mudança trouxe clareza, mas também evidenciou um problema na categoria de especiais pré-gravados: a dominância absoluta dos especiais de stand-up.
No ano passado, o prêmio foi para Conan O’Brien: The Kennedy Center Mark Twain Prize for American Humor, superando nomes como Adam Sandler, Ali Wong, Bill Burr, Sarah Silverman e Nate Bargatze. Em 2024, três dos cinco indicados eram especiais de comédia. Embora a comédia seja uma parte vital da televisão, o termo variedades sugere uma amplitude que tem se perdido. A esperança é que o interesse crescente por grandes eventos televisivos, tanto ao vivo quanto gravados, incentive a indústria a diversificar suas apostas.
O futuro dos eventos ao vivo no streaming
O sucesso de Skyscraper Live não é um caso isolado, mas parte de uma estratégia mais ampla das plataformas de streaming para capturar a atenção do público em um cenário de fragmentação cultural. Quando a monocultura diminui, a capacidade de reunir milhões de pessoas em torno de um único evento torna-se um ativo valioso. O desafio para os produtores é manter o equilíbrio entre a grandiosidade do espetáculo e a qualidade da narrativa, evitando que o evento se torne apenas um exercício técnico.
Para os fãs de televisão, a expectativa é que a TV Academy reconheça o valor desses novos formatos. Se o Emmy deseja continuar relevante, ele precisa acompanhar a evolução da forma como consumimos entretenimento. Assim como The Walking Dead: The Ones Who Live redefine escala da franquia, os eventos ao vivo estão redefinindo o que esperamos da televisão. A inclusão de produções mais originais e menos dependentes de fórmulas consagradas seria um passo fundamental para revitalizar a premiação e celebrar a criatividade em todas as suas formas.
Em última análise, a premiação deve servir como um reflexo do que há de mais inovador na indústria. Se o streaming provou que pode oferecer espetáculos de tirar o fôlego, o Emmy tem a oportunidade de validar essa inovação. A possibilidade de ver eventos como a escalada de Taipei 101 competindo com os gigantes tradicionais da indústria é um sinal de que a televisão está, mais uma vez, se reinventando.
A discussão sobre o que constitui um especial de variedades está longe de terminar. No entanto, a presença de conteúdos que desafiam as expectativas é o que mantém o ecossistema televisivo vibrante. Seja através de grandes produções de streaming ou de eventos esportivos, o desejo do público por experiências compartilhadas permanece inabalável. O Emmy tem em suas mãos a chance de abraçar essa mudança e garantir que a premiação continue sendo um marco de excelência e diversidade no entretenimento global.
A trajetória de Skyscraper Live serve como um lembrete de que, mesmo em um mundo dominado pelo conteúdo sob demanda, o fator ao vivo ainda possui um poder inegável. A capacidade de gerar ansiedade, curiosidade e debate em tempo real é algo que poucas formas de mídia conseguem replicar. Se a indústria continuar a investir em eventos dessa magnitude, as categorias de variedades do Emmy poderão, finalmente, fazer jus ao seu nome, oferecendo uma vitrine mais ampla e representativa do que a televisão tem a oferecer em 2026 e nos anos seguintes.
A evolução técnica e o desafio da produção ao vivo
A produção de Skyscraper Live não é apenas um feito atlético de Alex Honnold, mas um marco de engenharia de transmissão. Capturar uma subida de 1.667 pés em tempo real exige uma infraestrutura que poucas emissoras tradicionais conseguiriam mobilizar com a mesma agilidade de uma gigante do streaming. A logística de posicionar câmeras em ângulos que não apenas garantam a segurança da transmissão, mas que também transmitam a vertigem necessária para o espectador, coloca o projeto em um patamar de complexidade técnica que supera muitos especiais musicais ou cerimônias de premiação. Esse nível de sofisticação técnica é exatamente o que a TV Academy deveria valorizar ao avaliar a categoria de variedades ao vivo, premiando não apenas o conteúdo, mas a inovação no formato de entrega.
O impacto no mercado brasileiro e a disponibilidade
Para o público brasileiro, a chegada de eventos como Skyscraper Live na Netflix reforça a mudança de hábito no consumo de entretenimento. Historicamente, o espectador brasileiro sempre teve uma relação forte com a TV aberta em eventos ao vivo, como grandes finais esportivas ou reality shows de grande escala. A transição dessa experiência para o streaming, com a mesma qualidade de produção internacional, valida a estratégia da plataforma de investir em conteúdos que exigem atenção imediata. Atualmente, o especial permanece disponível no catálogo da Netflix Brasil, permitindo que novos assinantes revisitem a proeza de Honnold, embora a sensação de urgência do ‘ao vivo’ seja, naturalmente, um elemento que se perde após a transmissão original.
A necessidade de oxigenação nas categorias do Emmy
A estagnação das categorias de variedades no Emmy é um reflexo de uma indústria que, por muito tempo, se sentiu confortável com o que já funcionava. A presença constante de cerimônias como o Oscar ou o show do intervalo do Super Bowl cria um ciclo de reconhecimento que ignora o surgimento de novos gêneros. Ao incluir produções como Skyscraper Live, a premiação não apenas reconhece o esforço técnico, mas também envia uma mensagem clara aos produtores: o mercado está aberto a formatos híbridos que misturam documentário, esporte e entretenimento de variedades. Se o objetivo do Emmy é ser o termômetro da televisão contemporânea, ele não pode ignorar a força dos eventos que, mesmo sem roteiro fixo, conseguem mobilizar audiências globais em uma escala sem precedentes.
Bastidores: A perspectiva de Honnold
Conversas de bastidores revelam que, para um atleta do calibre de Alex Honnold, a subida ao Taipei 101 foi tratada com um pragmatismo quase clínico. Enquanto a audiência em casa lidava com a ansiedade e o medo de uma queda, o escalador focava na execução técnica e na gestão de energia. Esse contraste entre a percepção do público e a realidade do protagonista é o que torna o especial um objeto de estudo fascinante para a crítica televisiva. A produção conseguiu equilibrar o silêncio tenso da escalada com momentos de explicação técnica, criando um ritmo que, embora diferente de um show de variedades tradicional, mantém o espectador preso à tela. É esse tipo de narrativa, que transforma o risco real em entretenimento de massa, que define o novo padrão de qualidade que o streaming busca estabelecer.
O futuro das premiações frente ao streaming
À medida que avançamos para a temporada de premiações de 2026, a pressão sobre a TV Academy para diversificar seus indicados só tende a aumentar. A fragmentação do público exige que os prêmios sejam mais inclusivos com formatos que não se encaixam nas caixas tradicionais de ‘comédia’ ou ‘drama’. Se o Emmy deseja manter sua relevância cultural, ele deve abraçar a imprevisibilidade que o streaming trouxe para o jogo. A inclusão de eventos ao vivo de alto risco, como a escalada de Honnold, é o primeiro passo para garantir que a premiação continue sendo um reflexo fiel da diversidade e da audácia da televisão moderna, em vez de um repositório de tradições que já não conversam com a forma como o mundo consome conteúdo hoje.
Fonte: Variety