Sicario: Dia do Soldado redefine o thriller de ação sombrio

A sequência dirigida por Stefano Sollima aposta em uma narrativa brutal e amoral, transformando Alejandro Gillick em um anti-herói clássico do cinema.

O filme Sicario: Day of the Soldado, sequência do aclamado longa de Denis Villeneuve, enfrentou uma tarefa monumental ao tentar dar continuidade a um universo que foi definido pela direção medida e ameaçadora de Villeneuve. Embora o roteirista Taylor Sheridan tenha retornado para assinar o texto, a ausência da visão estética do diretor original colocou o cineasta italiano Stefano Sollima em uma posição de desafio. Conhecido por seu trabalho estilizado em Suburra e na série Gomorra, Sollima não tentou emular Villeneuve, mas sim imprimir sua própria marca, entregando um thriller de ação visceral que remete diretamente ao estilo cru dos filmes da década de 1980.

A transformação dos anti-heróis em um cenário sombrio

A trama de Sicario: Day of the Soldado mergulha em um território ainda mais obscuro que seu predecessor. O filme abre com um ataque terrorista devastador, supostamente perpetrado por radicais islâmicos que teriam sido contrabandeados através da fronteira por um dos cartéis mais poderosos do México. A partir desse ponto, a narrativa se transforma em um thriller de sequestro, onde os protagonistas — agentes da lei e mercenários — assumem o papel de sequestradores. O agente da CIA, Matt Graver, interpretado por Josh Brolin, é retratado de forma ainda mais vilanesca nesta sequência. Vemos Graver eliminando a família de um suspeito de terrorismo através de ataques de drones durante interrogatórios intensos, além de orquestrar uma operação de bandeira falsa com o objetivo deliberado de incitar uma guerra total entre os cartéis.

Nesse cenário, o enigmático Alejandro Gillick, vivido por Benicio Del Toro, é convocado novamente. No entanto, o personagem passa por uma metamorfose significativa: de uma força cósmica de vingança, ele se torna um anti-herói clássico, quase saído de um faroeste. Em uma cena emblemática, ele executa um advogado de cartel no meio da rua, disparando seu revólver com a técnica de ‘fanning’ e despedindo-se com um frio ‘adios’. Quando ele atravessa o deserto protegendo a filha do chefão do cartel, envolto em um xale que evoca a imagem do ‘Homem Sem Nome’ de Clint Eastwood, a transformação do personagem está completa. Ao colocar seus protagonistas como sequestradores e torturadores, o filme não oferece redenção, tornando-se uma obra que muitos críticos consideraram amoral ao extremo, já que não há um julgamento moral explícito sobre as ações brutais dos personagens.

Excelência técnica e a visão de Stefano Sollima

A produção enfrentou a perda de colaboradores fundamentais do primeiro filme, como o diretor de fotografia Roger Deakins e o compositor Jóhann Jóhannsson, que juntos haviam transformado o original em uma experiência quase de terror cósmico sob a ótica da agente interpretada por Emily Blunt. Sollima, por sua vez, optou por uma abordagem diferente, focada na economia visual e na eficácia narrativa. O filme é editado para conduzir o público rapidamente de uma sequência de ação para a próxima, mantendo um ritmo frenético e implacável.

Apesar da mudança de tom, a qualidade técnica permanece altíssima. Uma das sequências mais impressionantes é um tiroteio filmado inteiramente do ponto de vista da adolescente sequestrada, dentro de um carro, enquanto a polícia corrupta ataca a caravana da CIA. A tensão dessa cena rivaliza com os momentos mais icônicos do primeiro filme. Outro ponto alto é a sequência noturna no deserto, iluminada apenas pelos faróis de caminhonetes, que culmina em uma reviravolta narrativa capaz de elevar o filme ao patamar de um clássico moderno do gênero. Embora tenha sido injustamente criticado em seu lançamento, Sicario: Day of the Soldado é uma obra que se sustenta por conta própria, sendo um thriller de ação explosivo, visualmente sofisticado e profundamente sombrio. A reavaliação deste longa é necessária para reconhecer o trabalho de Sollima como um dos cineastas de ação mais competentes de Hollywood, consolidando a franquia como um estudo brutal sobre a ausência de heróis em um mundo governado pela violência sistêmica.

Fonte: Collider