Sh(AI)ved utiliza inteligência artificial em filmes adultos

Coleção de curtas-metragens recria estética erótica dos anos 70 através de ferramentas generativas e estreia no Festival de Cannes.

Há exatamente cinquenta anos, uma jovem identificada como Hannah posava para um ensaio fotográfico em uma revista erótica, um registro que, na época, limitava-se à estática das páginas impressas. Hoje, graças aos avanços da inteligência artificial generativa, essa mesma imagem ganha uma nova dimensão: ela foi trazida à vida, ganhando movimento, voz e uma narrativa própria. O projeto, intitulado Sh(AI)ved, representa o primeiro volume de uma coleção de curtas-metragens que utiliza tecnologia de ponta para reimaginar o conteúdo erótico de meados da década de 1970. A obra fez sua estreia oficial nos bastidores do prestigiado Festival de Cannes e já se encontra disponível para visualização na plataforma de streaming Cultpix.

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Cena do projeto Sh(AI)ved exibido em Cannes
O projeto Sh(AI)ved utiliza tecnologia de IA para recriar a estética de filmes adultos dos anos 70 a partir de arquivos fotográficos.

O processo de criação tecnológica

Por trás da iniciativa está Thomas Meier, representante da empresa norueguesa Multiformat. Meier utilizou as ferramentas mais recentes de IA generativa para processar fotografias de revistas de 1976, convertendo-as em vídeos totalmente animados. O processo não se limitou apenas à animação das figuras humanas; a equipe adicionou cor, som sincronizado, diálogos e narrações em voz (voiceover) para compor a experiência final. O objetivo central foi emular com precisão a atmosfera característica das produções adultas daquela era, criando uma ponte tecnológica entre o passado analógico e o presente digital.

A estética sonora e a atmosfera de época

Um dos elementos mais marcantes de Sh(AI)ved é a sua trilha sonora. O projeto mergulha fundo no que é frequentemente chamado de “porn funk” ou “sexploitation music”. Este estilo musical, onipresente nos filmes adultos dos anos 70, é caracterizado por linhas de baixo pesadas, ritmos de funk, riffs de guitarra elétrica e o famoso estilo “wah-wah”. Frequentemente apelidado de forma coloquial como “bow-chicka-wow-wow”, esse gênero musical é essencial para a imersão do espectador na estética da época, funcionando como um pilar fundamental que sustenta a narrativa visual reconstruída pela IA.

Análise das narrativas e temas recorrentes

A estrutura dos curtas segue uma lógica narrativa que tenta mimetizar os filmes da década de 70. O primeiro curta, que dá nome à coleção, inicia-se com uma montagem clássica de mulheres despidas, um tropo comum no início das produções adultas daquele período. A narrativa acompanha a personagem Hannah, que, em um close-up, realiza a automasturbação enquanto uma narração em voz reflete sobre um “tempo terno” e uma sensação de que algo faltava em sua vida. A trama evolui para um telefonema a um amigo e o uso de um vibro-massador, culminando em uma cena descrita pela narração como um “randy orgy” (orgia lasciva) com amigas próximas.

Um tema recorrente e explícito na obra é a preferência pela depilação. A narração comenta que, com a remoção dos pelos pubianos, as mulheres se livraram de algo que consideravam “irritante e cansativo”, o que, segundo o filme, impedia a atmosfera sensual. As cenas subsequentes exibem acrobacias sexuais, o uso de acessórios como dildos e strap-ons, e culminam no que a narração descreve como “orgasmos vulcânicos e esplêndidos”.

O curta “After-Movie Party”

O volume encerra com o curta intitulado “After-Movie Party”. A premissa envolve dois casais que, após assistirem a um filme tarde da noite, decidem trocar de parceiros. O roteiro introduz um conflito inusitado: um dos homens demonstra insatisfação durante o sexo oral devido à presença de pelos pubianos na parceira. A solução apresentada no filme é o ato de depilar a mulher, seguido por uma sequência de sexo enérgico. Este curta reforça a temática central da coleção, que parece focar na estética da depilação como um elemento de libertação dentro da fantasia erótica proposta pela IA.

Recepção e o futuro da tecnologia

Para os aficionados pelo cinema adulto dos anos 70, Sh(AI)ved oferece um interesse histórico e nostálgico, permitindo revisitar uma estética que, de outra forma, estaria limitada ao papel das revistas antigas. Para o público em geral, interessado no avanço da inteligência artificial, o projeto serve como um estudo de caso fascinante sobre a capacidade da tecnologia de preencher lacunas de movimento e som em imagens estáticas. Embora a IA ainda enfrente desafios técnicos, especialmente em termos de realismo anatômico e texturas em closes extremos, a obra demonstra um passo significativo na reinvenção de arquivos históricos. A expectativa é que, com o aprimoramento contínuo das ferramentas generativas, volumes futuros possam oferecer uma experiência ainda mais fluida e convincente, consolidando o uso da IA como uma ferramenta legítima de preservação e recriação audiovisual.

Fonte: Variety