Sandra Hüller reflete sobre carreira e novos projetos em Cannes

A atriz alemã discute sua ascensão em Hollywood, o trabalho em Project Hail Mary e a expectativa para o aguardado longa Digger, com Tom Cruise.

É difícil imaginar que alguém pudesse ter um ano mais impactante do que aquele vivido por Sandra Hüller em 2023. A atriz alemã, que já era uma figura respeitada no cenário europeu, viu sua carreira atingir um novo patamar de reconhecimento global ao protagonizar dois dos filmes mais aclamados da temporada: Anatomia de uma Queda, dirigido por Justine Triet e vencedor da Palma de Ouro, e Zona de Interesse, de Jonathan Glazer. Ambos os longas-metragens foram indicados ao Oscar de Melhor Filme, consolidando o nome de Hüller como uma das atrizes mais versáteis e requisitadas da atualidade. No entanto, o ano de 2026 parece estar superando todas as expectativas anteriores, consolidando a artista como um fenômeno internacional.

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Um 2026 de consagração

O ritmo de trabalho de Hüller em 2026 tem sido frenético e recompensador. Em fevereiro, ela foi agraciada com o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Berlim por sua atuação em Rose, um reconhecimento que reforça sua capacidade de transitar entre projetos independentes e produções de grande escala. Em março, o lançamento de Project Hail Mary, onde contracena com Ryan Gosling, marcou sua entrada definitiva no circuito de grandes produções comerciais, tornando-se um dos filmes mais aclamados tanto pela crítica especializada quanto pelo público. Agora, durante a 79ª edição do Festival de Cannes, a atriz marca presença com o filme Fatherland, dirigido por Paweł Pawlikowski, no qual entrega uma performance descrita como deslumbrante ao interpretar a filha de Thomas Mann. Além disso, a expectativa para outubro é alta, quando ela dividirá a tela com Tom Cruise no novo projeto de Alejandro González Iñárritu, intitulado Digger.

Conversa exclusiva no Awards Chatter

Reaproveitando o impulso gerado pelo sucesso de 2023, que serviu como porta de entrada para Hollywood, Hüller participou de uma conversa exclusiva na manhã de sexta-feira com Scott Feinberg, editor executivo de premiações do The Hollywood Reporter. O encontro ocorreu no âmbito do podcast Awards Chatter, realizado no Campari Lounge, dentro do Palais em Cannes. O ambiente, decorado com garrafas de Campari do chão ao teto e espelhos vermelhos cintilantes, serviu como cenário para uma retrospectiva profunda sobre a vida e a carreira da atriz.

Raízes e inspirações

A conversa iniciou-se com Hüller relembrando sua infância em Friedrichroda, uma pequena cidade no leste da Alemanha. Foi ali que, ainda jovem, ela encontrou a inspiração necessária para seguir a carreira artística, graças a uma professora de inglês e alemão que identificou seu potencial. “Se ela estiver ouvindo agora, saiba que ainda a amo”, disse Hüller, arrancando risadas da plateia. A atriz recordou que, ao contrário de outras crianças que tinham diversos hobbies, ela preferia ler e assistir televisão. “Parece triste, mas eu gostava de estar em outros mundos, de fantasiar sobre as pessoas e de observá-las. Minha professora me disse que aquele poderia ser um bom lugar para mim, e nunca mais parei desde então: observar pessoas, retratar pessoas, descobrir sobre os seres humanos. Sou muito grata a ela”, compartilhou.

Formação e a visão sobre o cinema

Hüller graduou-se na Academia de Artes Dramáticas Ernst Busch, em Berlim, no ano de 2003. Mesmo após anos de sucesso nas telas, ela mantém uma perspectiva humilde e ligada às suas origens. “Ainda me considero uma atriz de teatro”, afirmou a Feinberg. “É apenas uma coincidência que eu tenha entrado no cinema, e isso não é uma forma de buscar elogios! Eu ainda não conheço todas as regras do cinema”, admitiu. Ela expressou seu fascínio contínuo pela técnica cinematográfica, observando como seus colegas são profissionais ao lidar com ângulos de câmera e preparações técnicas, algo que ela descreve como um gênero completamente diferente daquele em que foi educada.

O ciclo completo de Requiem

Três anos após sua formatura, Hüller alcançou destaque com o filme Requiem, de Hans-Christian Schmid. Aos 27 anos, ela interpretou uma mulher cujas crises epilépticas violentas levaram sua família católica a suspeitar de uma possessão demoníaca. Vinte anos depois, sua vitória em Berlim por Rose representou um momento de fechamento de ciclo, já que Requiem também lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz no mesmo festival alemão. “Foi um bom começo”, refletiu ela, destacando que, na época, as produções não buscavam a perfeição, mas sim a verdade crua das emoções humanas.

Desafios e colaborações

Ao discutir sua trajetória, Hüller enfatizou que não busca necessariamente produções gigantescas, mas sim colaborações que permitam um trabalho criativo genuíno. A atriz ressaltou que prefere a colaboração orgânica no set em vez de realizar preparações excessivamente rígidas antes das filmagens. Essa abordagem tem sido fundamental para o sucesso de suas parcerias, incluindo o trabalho com Ryan Gosling, onde a química entre os atores foi essencial para a recepção positiva do filme. Sobre o futuro, especificamente em relação ao projeto Digger, Hüller manteve a cautela devido a restrições contratuais, mas não escondeu o entusiasmo com a qualidade do material que tem visto até agora, descrevendo a obra como algo notável e desafiador.

O legado em construção

A trajetória de Sandra Hüller é marcada por escolhas criteriosas e uma dedicação profunda aos personagens que interpreta. Seja em dramas intensos que exploram a psique humana ou em blockbusters que exigem uma presença de tela magnética, a atriz continua a consolidar seu nome como um dos talentos mais versáteis da atualidade. Sua capacidade de transitar entre o teatro clássico e o cinema de prestígio global demonstra uma disciplina artística rara. Durante o painel em Cannes, ficou claro que, independentemente do tamanho do projeto, Hüller mantém a essência de sua formação, sempre focada em entender a complexidade humana. O sucesso em 2023 foi apenas o começo de uma jornada que, em 2026, mostra uma atriz no auge de sua maturidade artística, pronta para novos desafios e disposta a continuar surpreendendo o público mundial com atuações que, como ela mesma descreveu, buscam sempre a verdade por trás de cada papel. A atriz encerrou a conversa reforçando que, embora o cinema tenha se tornado uma parte central de sua vida, sua paixão por observar e retratar a humanidade permanece a mesma desde os dias em que, em uma pequena cidade alemã, ela apenas observava o mundo ao seu redor, sonhando com as possibilidades que a atuação poderia oferecer. Com o apoio da crítica e o interesse crescente de Hollywood, Sandra Hüller não apenas ocupa um lugar de destaque, mas redefine o que significa ser uma estrela internacional que não perdeu o contato com suas raízes teatrais e sua curiosidade intelectual.

Fonte: THR