A representação de imigrantes latinos em séries roteirizadas nos Estados Unidos atingiu um novo patamar preocupante, conforme aponta o relatório Change the Narrative, Change the World, desenvolvido pela organização Define American em parceria com o Norman Lear Center, da U.S. O estudo, que analisou 201 personagens imigrantes em 80 episódios de 62 produções exibidas entre julho de 2023 e junho de 2025, revela uma queda acentuada na presença dessa demografia nas telas.
Atualmente, os personagens latinos compõem apenas 23% do total de imigrantes retratados na televisão roteirizada, um declínio drástico em comparação aos 50% registrados em 2020. O dado torna-se ainda mais crítico quando confrontado com a realidade demográfica do país, onde imigrantes latinos representam 44% da população imigrante total. A pesquisa destaca que a franquia FBI, incluindo FBI: Most Wanted, sustenta uma parcela significativa dessa representação; sem esses títulos, o índice cairia para apenas 17%.
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Estereótipos negativos persistem na narrativa televisiva
Além da baixa representatividade quantitativa, o relatório aponta um problema qualitativo persistente. Um em cada quatro personagens imigrantes analisados é retratado como criminoso, traficante de drogas ou envolvido em tráfico humano. Essa tendência perpetua estereótipos negativos que, segundo especialistas, moldam a percepção pública sobre essas comunidades. O impacto cultural dessas escolhas narrativas é profundo, reforçando preconceitos em vez de humanizar as trajetórias de quem busca uma nova vida no país.
Jose Antonio Vargas, fundador da Define American, enfatizou a responsabilidade da indústria em um comunicado oficial. Para ele, o entretenimento não é apenas um reflexo da sociedade, mas uma força que dita como os indivíduos se enxergam. A necessidade de ir além do cumprimento de cotas é urgente, exigindo que estúdios e produtores assumam o compromisso de refletir a complexidade real da população americana. Assim como ocorre em produções que buscam novos caminhos, como quando Colman Domingo assume direção em The Four Seasons na Netflix, a diversidade de vozes na criação é essencial para mudar o paradigma.
Obras que estabelecem novos padrões de narrativa
Apesar do cenário geral negativo, o estudo aponta exceções que demonstram o potencial de uma representação mais autêntica. A série Mo, da Netflix, foi destacada como um modelo de excelência. Com duas temporadas, a produção apresentou 13 personagens imigrantes e dois filhos de imigrantes, sendo a obra mais inclusiva entre as estudadas. Dados da pesquisa indicam que 62% dos espectadores relataram um aumento na compreensão sobre os desafios enfrentados por imigrantes, enquanto 54% afirmaram estar mais propensos a apoiar refugiados em suas próprias comunidades após acompanhar a trama.
Outro exemplo citado é Deli Boys, exibida pelo Hulu, que acompanha dois irmãos paquistaneses-americanos e foi elogiada pela representação da comunidade AAPI. No caso da representação de imigrantes negros, o índice manteve-se em 17%, impulsionado principalmente pela sitcom Bob Hearts Abishola, da CBS. No entanto, o relatório alerta que, com o encerramento da série em 2024 após sua quinta temporada, existe o risco de uma nova queda nesses números caso a indústria não invista em novos projetos com o mesmo nível de profundidade.
A necessidade de infraestrutura para representação sustentável
Dulce Valencia, diretora de parcerias de mídia da Define American, reforça que o setor não pode depender de um punhado de programas para carregar o peso de toda uma comunidade. O trabalho da organização envolve colaborar diretamente com roteiristas e produtores para criar uma infraestrutura que suporte representações constantes e matizadas. O objetivo é evitar que o sucesso de uma única série seja a exceção, transformando a diversidade em uma norma estrutural.
A discussão sobre a longevidade de produções e o impacto de suas conclusões é um tema recorrente no mercado, similar ao debate sobre como All American encerra era de produções originais na The CW. A indústria televisiva encontra-se em um momento de transição, onde a pressão por métricas de audiência muitas vezes entra em conflito com a necessidade de narrativas mais inclusivas e complexas. A esperança é que os dados apresentados sirvam como um alerta para que os executivos priorizem a qualidade e a precisão na representação, garantindo que as telas americanas sejam, de fato, um espelho da diversidade que compõe a nação.
Fonte: Variety