O cineasta Ira Sachs, um dos nomes mais respeitados do cinema independente norte-americano contemporâneo, dedicou mais de uma década ao desenvolvimento de The Man I Love. O filme, que se desenrola na vibrante e, ao mesmo tempo, melancólica Nova York de 1984, é uma obra que Sachs descreve como profundamente instintiva, nascida de um processo de escavação de memórias pessoais. Ao revisitar sua própria trajetória, iniciada profissionalmente na metrópole justamente naquele ano, o diretor buscou capturar a textura de uma década marcada por experiências intensas, dolorosas e, simultaneamente, transcendentais da vida queer.


A produção, que chega ao Festival de Cannes 2026 como uma das apostas mais aguardadas da competição principal, surge em um momento em que Sachs reflete sobre a intersecção entre a arte e a mortalidade, um tema que ganhou contornos mais urgentes após o período da pandemia. O cineasta confessa que, ao editar o material, percebeu que estava diante de um projeto profundamente autobiográfico, onde o desejo, a cor, a pele e a própria essência do drama humano se fundem. “Fiquei impressionado com a perda presente no filme, com a tristeza inerente a essa perda, mas também com a força que emana dela”, afirma Sachs em sua primeira entrevista sobre o projeto. Para ele, a realização deste longa foi uma necessidade existencial: “Sou, certamente, a única pessoa que poderia ter feito este filme”.
O protagonista da obra é Jimmy George, um artista queer carismático e amado por seu círculo social, que enfrenta o diagnóstico terminal de AIDS. Mesmo diante da finitude, Jimmy mantém uma determinação inabalável de continuar trabalhando, focando todas as suas energias na montagem de uma nova peça teatral. O papel é interpretado por Rami Malek, vencedor do Oscar, que há tempos nutria o desejo de colaborar com Sachs. Malek destaca a singularidade da visão do diretor: “Ele é um cineasta único, com uma perspectiva e uma voz muito específicas, que eu gostaria que mais pessoas conhecessem. Espero que este filme apresente a muitas pessoas a capacidade criativa deste homem e tudo o que ele construiu ao longo de sua carreira”.
A construção de Jimmy George não é aleatória. O personagem foi moldado a partir de figuras reais que marcaram a cena experimental da época, como Ron Vawter, do influente grupo teatral The Wooster Group, e Frank Maya, um comediante pioneiro que desafiou as normas sociais de seu tempo. A colaboração entre Ira Sachs e seu parceiro de longa data, o roteirista Mauricio Zacharias, foi fundamental para dar vida a esse retrato. Segundo Sachs, a intenção central da dupla foi, acima de tudo, “fazer um filme sobre a vida”, mesmo que o contexto histórico seja o da devastação causada pela epidemia de AIDS.
A trajetória de Ira Sachs é marcada por uma consistência rara. Nos últimos 15 anos, ele dirigiu sete longas-metragens, consolidando um estilo que privilegia a intimidade e a complexidade das relações humanas. Quatro de seus filmes recentes receberam indicações ao Spirit Award de Melhor Filme, incluindo sucessos de crítica como Passages e o denso Peter Hujar’s Day. The Man I Love marca seu retorno ao prestigiado palco de Cannes, sendo sua segunda participação na competição principal desde Frankie, de 2019, que contou com a atuação de Isabelle Huppert.
O filme não se limita a ser um registro histórico; ele funciona como uma exploração sensorial. Sachs admite que, durante a produção, estava obcecado por conceitos de prazer, emoção e drama, elementos que ele injetou na narrativa para criar uma experiência que fosse, ao mesmo tempo, um tributo e um espelho de uma era. A escolha de Rami Malek para encarnar Jimmy George traz uma camada adicional de vulnerabilidade e intensidade, elementos que o ator domina com precisão. A parceria entre diretor e ator é vista por ambos como um risco necessário, uma aposta em um cinema que não tem medo de encarar a dor de frente, mas que se recusa a definir seus personagens apenas por suas tragédias.
A produção também reflete o amadurecimento de Sachs como autor. Ao olhar para trás, para a Nova York de 1984, ele não busca apenas a nostalgia, mas a compreensão de como o ambiente artístico da época moldou sua própria identidade. A cidade, com suas luzes e sombras, atua quase como um personagem adicional, testemunhando a luta de Jimmy para deixar um legado artístico enquanto seu corpo sucumbe à doença. A narrativa se desenrola com uma cadência que permite ao espectador habitar o espaço emocional dos personagens, sentindo o peso das escolhas e a urgência do tempo.
Para o público de Cannes, a estreia de The Man I Love representa a oportunidade de ver um dos grandes nomes do cinema independente em seu estado mais cru e honesto. A expectativa em torno do filme não reside apenas na presença de uma estrela como Rami Malek, mas na promessa de uma obra que consegue equilibrar o peso da história com a leveza da criação artística. É, em última análise, um filme sobre a persistência do espírito humano e a capacidade de encontrar beleza mesmo nos momentos mais sombrios da existência. Sachs, ao entregar este trabalho, reafirma seu compromisso com um cinema que, embora pessoal, ressoa com as verdades universais sobre o que significa viver, amar e criar em um mundo que frequentemente tenta silenciar essas vozes.
A colaboração entre Malek e Sachs é descrita como um encontro de mentes que compartilham o mesmo respeito pela complexidade dos personagens. Enquanto Sachs traz a bagagem de suas memórias e a precisão de sua escrita, Malek traz a entrega física e emocional necessária para dar vida a um homem que, embora esteja morrendo, nunca deixa de ser um artista. Essa simbiose é o que torna The Man I Love uma das obras mais aguardadas do ano, um filme que promete não apenas emocionar, mas provocar reflexões profundas sobre a memória, a perda e a resiliência da comunidade queer ao longo das décadas.
Fonte: THR