Rami Malek revela receio em atuar no drama The Man I Love

Ator confessa que temeu comparações com Freddie Mercury ao aceitar papel em novo filme de Ira Sachs exibido no Festival de Cannes.

Rami Malek, o aclamado ator vencedor do Oscar, revelou recentemente que esteve muito próximo de recusar o papel principal em The Man I Love, o novo e aguardado drama dirigido por Ira Sachs. A hesitação do ator não se deu por falta de interesse no projeto, mas sim por uma preocupação profunda e específica: o medo de ser acusado de “auto-plágio” ou de repetir excessivamente os maneirismos de sua icônica interpretação como Freddie Mercury no filme Bohemian Rhapsody, de 2018.

Rami Malek Man I Love Bohemian Rhapsody
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Rami Malek Hesitated to Star in Ira Sachs’ Gay Drama ‘The Man I Love’ After Playing Freddie Mercury: ‘I Had to Address the Fear’
Rami Malek Hesitated to Star in Ira Sachs’ Gay Drama ‘The Man I Love’ After Playing Freddie Mercury: ‘I Had to Address the Fear’

O desafio de superar o medo

Durante a coletiva de imprensa realizada no Festival de Cannes, onde o filme foi recebido com uma calorosa ovação de sete minutos após sua estreia mundial, Malek abriu o jogo sobre o processo de decisão. O ator explicou que, ao ler o roteiro de Sachs pela primeira vez, sentiu um bloqueio imediato. O personagem, um artista performático gay que vive em Nova York durante a década de 1980, no auge da crise da AIDS, apresentava paralelos temáticos e performáticos que o deixaram apreensivo. “Eu disse que não poderia fazer isso. Havia muitas semelhanças e achei que seria problemático”, confessou o ator diante dos jornalistas.

No entanto, o protagonista decidiu que precisava confrontar esse sentimento. “Existe um certo senso de medo”, continuou Malek, refletindo sobre sua trajetória. “Eu comecei a pensar sobre o que exatamente eu estava temendo. Eram as semelhanças? Era o fato de cantar? Era o contexto histórico? Eu sabia que precisava abordar esse medo. Se houve algo que Freddie Mercury me ensinou, foi a enfrentar o medo”. Ao mergulhar na análise do personagem, Malek percebeu que Jimmy, seu papel em The Man I Love, e o lendário vocalista do Queen eram figuras fundamentalmente diferentes, apesar das aparências superficiais.

Diferenças entre Jimmy e Freddie

Malek esclareceu que, enquanto Freddie Mercury era um ícone global, Jimmy é um artista talentoso, porém em constante luta, que se apresenta em um teatro experimental do centro de Nova York, encenando uma obra francesa obscura que poucos conhecem. O ator explicou que Jimmy está em um momento de sua vida em que sabe que pode estar diante de sua última oportunidade de subir ao palco. “Jimmy está apenas em busca de criatividade, amor, intimidade, alegria e prazer em cada momento, e ele sabe cantar”, explicou Malek. “Ele canta tão bem quanto Freddie? Não. Precisava ser perfeito? Não precisava. Tratava-se apenas desse elemento de criar e viver em alegria”.

O ator ressaltou que, com esse papel, ele quis criar um retrato de artistas que não alcançaram o nível de fama de um astro como Mercury, mas que possuíam uma abundância de talento e um mundo interior rico. “Existem muitos artistas no mundo que não chegam a esse nível de fama, mas que ainda possuem um talento imenso e um mundo a oferecer que talvez seja invisível para as massas, mas que encontram reconhecimento entre si”, pontuou.

Contexto e visão do diretor

O filme, que já é apontado como um dos fortes candidatos à Palma de Ouro, é um mergulho profundo na Nova York dos anos 1980. O diretor Ira Sachs explicou que a obra é baseada na “raiva” e na “indignação” de ter vivido aquele período, quando o governo dos Estados Unidos ignorava sistematicamente a crise da AIDS e o sofrimento da comunidade gay. Sachs relembrou sua participação no ACT UP (AIDS Coalition to Unleash Power), grupo ativista conhecido por protestos radicais, como o bloqueio da Bolsa de Valores de Nova York para exigir a redução do preço do AZT, o único medicamento aprovado na época.

“O lema do ACT UP era ‘Silêncio é Morte'”, recordou o diretor. Para Sachs, contar essa história é um ato de resistência. “É uma luta, mas esperamos que, de certa forma, a luta desapareça. Mas a raiva está presente neste filme”. Ao lado de seu parceiro de escrita, Mauricio Zacharias, Sachs levou 15 anos e seis outros filmes até se sentir preparado para abordar este tema. “Nós vivemos isso. Ambos somos, de certa forma, sobreviventes daquele tempo”, afirmou. O cineasta buscou capturar o conflito entre a perda devastadora e a criatividade vibrante que coexistiam na época.

Uma colaboração artística

A relação entre Malek e Sachs foi marcada por uma admiração mútua. O ator revelou que buscou ativamente uma reunião com o diretor, desmistificando a ideia de que, após ganhar um Oscar, as propostas simplesmente surgem sem esforço. “As pessoas costumam dizer que, depois do Oscar, você recebe ofertas de tudo. Isso simplesmente não é verdade”, disse Malek. Quando finalmente se encontraram, a conexão foi imediata. Sachs destacou que precisava de um ator com uma qualidade magnética, alguém que pudesse transmitir uma sensação de perigo constante.

“Com o Rami, você nunca sabe se ele vai pular sobre o balcão”, brincou Sachs durante a coletiva. “Existe um perigo ali, e eu acho que isso é realmente importante para a atuação”. Essa química entre a visão política e emocional de Sachs e a entrega intensa de Malek transformou The Man I Love em um projeto que, além de gerar burburinho para a temporada de premiações, serve como um memorial necessário para aqueles que, como o personagem Jimmy, foram amados por poucos, partiram cedo demais, mas cujas vidas e artes merecem ser lembradas.

Fontes: THR Variety